O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou a falta de qualificação e biografia política de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato da extrema direita à Presidência da República. Em entrevista ao podcast Flow, apresentado por Igor Coelho, na noite de quinta-feira, 1º, no Palácio da Alvorada, Lula foi questionado sobre a decisão de não comparecer ao debate de presidenciáveis na TV Globo. A uma audiência recorde, mais de 1,6 milhão de visualizações simultâneas, o presidente explicou que os debates são saudáveis e relevantes na política, mas afirmou que prefere os confrontos diretos, tête-à-tête, e disse que o formato atual deixa os confrontos infrutíferos.
Lula deixou claro seu incômodo com a trajetória do adversário: “Imagina, sabe, você disputar a presidência da República com uma pessoa desqualificada, como o Flávio Bolsonaro. Ele não tem passado, não tem presente e não tem futuro. Esse rapaz nunca trabalhou na vida. Esse rapaz foi vereador com 21 anos, sabe? E seguiu a carreira dele, ganhando do dinheiro público, e passa a ideia de que não é político. Então, quando você disputa com alguém que está qualificado para ser presidente da República, que tem uma história, que tem uma biografia, é uma coisa que vale a pena disputa”, esclareceu.
Segundo o presidente, seu adversário não tem nada a oferecer ao eleitor. Lula atribuiu o crescimento do senador da extrema direita nas pesquisas ao antipetismo e a uma reação de parte da sociedade que historicamente não tolera a esquerda.
“O que que ele tem para oferecer? Eu vou te dizer. O passado dele é tenebroso. A única coisa que ele tem é o chamado antiula, antiesquerda.”
Lula afirmou que a elite brasileira se incomoda com os avanços sociais que ele implementou em seus governos. “Quando você consegue aprovar as cotas para os negros entrarem na universidade, não pensa que muitos brancos gostam disso […] Aquela famosa elite que defende a escravidão, que acha que é muita terra pros indígenas, se esquecendo que eles tinham 100% […] Essa gente que não gosta que eu que eu legalize terra de quilombola, que não quer que eu coloque filha de empregada doméstica na universidade para ser médica, para ser arquiteta, para ser engenheira, para ser psicóloga, para ser cientista política. Essa gente que não gosta de mim vai continuar não gostando, mas eu vou continuar fazendo.”
Debates infrutíferos
O presidente fez questão de relembrar os debates dos quais participou ao longo de trajetória política, desde 1989, e ponderou que somente os embates diretos de segundo turno garantem uma disputa “entre iguais”, quando ficam retratadas as preferências eleitorais da maioria da população. Lula disse não considerar correto, por exemplo, uma disputa entre candidatos com mais de 40% dos votos e outros com 2%. “É desproporcional até para o telespectador.”
“Quando você tem cinco, seis candidatos, e você fala 1 minuto e espera 10 minutos, fala 2 minutos e espera 10 minutos, não tem sequência. É como se o jogador desse um pique e voltasse para descansar. Não, o cara tem que jogar o jogo. Então, sinceramente, esses debates são infrutíferos, não produzem nada.”
A disputa presidencial, acrescentou Lula, é “uma coisa mais séria”. “Você está discutindo o país, está discutindo o povo brasileiro, a soberania brasileira. Você não está discutindo merreca, quem é o mais engraçado, quem vai lacrar mais com aquela piadinha, sabe? Não, não é assim que faz. Então eu, sinceramente, não gosto desse tipo de debate.”
A diferença de debater com “gente da política”
Ao citar adversários políticos do passado, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Paulo Maluf e o próprio Geraldo Alckmin, que hoje é seu vice, Lula explicou que eles eram “gente da política” – algo que não enxerga no adversário atual – e que não há problema nenhum em debater e disputar com candidatos de diferentes espectros ideológicos.
Lula disse que vê possibilidade de vencer a disputa no primeiro turno: “Acho que essas eleições vão ser definidas domingo. Se não for paciência. Mas eu fico analisando por que alguém votaria no Flávio Bolsonaro.
“Aquilo que eu acredito, eu defendo”
O presidente deixou claro que as pesquisas políticas, ainda que sejam importantes, não definem seus passos. “Eu não trabalho assim. Obviamente que eu levo a sério as pesquisas. Uma pesquisa, quando você analisa ela, é para você saber o que tem fazer daqui pra frente. É verdade. Um candidato a presidente tem que ter estratégia, tem que ter princípio, tem que ter coisa que ele acredita. Por exemplo: se você fizer uma pesquisa de quem é favorável à pena da morte, vai dar 90%. Eu sou contra a pena da morte e eu tenho coragem de dizer isso. Não sou Maria vai com as outras, sabe? Aquilo que eu acredito eu defendo.”
Lula afirmou que rumos podem ser corrigidos a partir de apontamentos de pesquisas, mas é preciso também observar que nem todos os institutos têm credibilidade.


