Por que a direita mais mobilizada do país não consegue se tornar hegemônica e o que está em jogo na disputa pós-2026
Francisco Chagas e Sérgio Ribeiro
1. A vitória que não encerrou a disputa
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, com 51,79% dos votos válidos, confirmou a capacidade de resistência e mobilização das forças democráticas. Mas seria um erro interpretar o resultado como o encerramento do ciclo bolsonarista ou como a superação das condições políticas e sociais que permitiram sua ascensão.
A derrota presidencial convive com uma realidade que não pode ser ignorada: o bolsonarismo continua dispondo de uma expressiva representação parlamentar, de governos estaduais, de redes de comunicação e influência digital e de uma base social mobilizada. O Partido Liberal elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 121 parlamentares. Sua presença ultrapassa, portanto, a disputa eleitoral e se manifesta em diferentes espaços da sociedade e das instituições.
Há uma contradição importante nesse quadro. O bolsonarismo demonstrou força suficiente para disputar novamente a Presidência, mas não conseguiu transformar sua mobilização em uma direção política capaz de conquistar a maioria da sociedade brasileira. É essa contradição que procuramos compreender.
O problema não está apenas em saber por que o bolsonarismo perdeu uma eleição. Está em compreender por que uma força política tão mobilizada, com presença institucional e capacidade de pautar o debate público, ainda encontra dificuldades para se tornar hegemônica.
A distinção é fundamental. Ter força política, capacidade de mobilização e influência institucional não significa necessariamente exercer hegemonia. Uma força pode conquistar espaços de poder, impor pautas, bloquear iniciativas e até produzir crises sem conseguir apresentar um projeto de sociedade reconhecido como legítimo pela maioria.
É nesse sentido que propomos a imagem do teto de vidro: o bolsonarismo conseguiu avançar muito, rompeu barreiras importantes e consolidou uma presença duradoura na política brasileira. Mas há limites que sua própria constituição dificulta superar.
Isso não significa que seja uma força inofensiva. Ao contrário: mesmo sem alcançar a hegemonia, pode causar danos profundos às instituições, corroer a confiança na democracia, bloquear políticas públicas e impedir a construção de consensos nacionais. O desafio democrático não consiste em esperar que suas contradições produzam, por si mesmas, seu enfraquecimento. Consiste em compreender essas contradições e disputar ativamente a sociedade.
2. De onde veio o bolsonarismo
O bolsonarismo não surgiu do nada, nem pode ser explicado apenas pela trajetória pessoal de Jair Bolsonaro. Sua ascensão foi resultado de um processo histórico que reuniu transformações econômicas, conflitos sociais, disputas culturais e uma crise profunda da representação política.
As manifestações de junho de 2013 abriram um período de instabilidade e questionamento das instituições. Embora inicialmente heterogêneas e marcadas por reivindicações diversas, elas foram progressivamente atravessadas por disputas políticas que alteraram o ambiente público. A crise econômica, o desgaste do sistema partidário, a polarização política e a ofensiva contra o governo Dilma Rousseff contribuíram para ampliar o espaço de forças conservadoras.
O impeachment de 2016 representou um ponto de inflexão. Mais do que a interrupção de um mandato presidencial, expressou uma mudança na correlação de forças e abriu caminho para uma agenda de restauração neoliberal, redução de direitos e reorganização das alianças entre setores empresariais, políticos e conservadores.
O bolsonarismo se formou nesse terreno. Articulou a insatisfação de parcelas da sociedade, o antipetismo, o conservadorismo moral, o ressentimento de setores médios, a rejeição à política tradicional e a defesa de uma ordem econômica favorável aos interesses dominantes. Encontrou apoio em segmentos do agronegócio, do capital financeiro e empresarial, em setores militares, em grupos religiosos conservadores e em diferentes frações das classes médias.
Essa aliança não foi homogênea. Seus integrantes não compartilhavam necessariamente os mesmos objetivos, mas encontraram no bolsonarismo um instrumento político capaz de reunir interesses distintos em torno de um inimigo comum e de uma promessa de restauração da autoridade, da ordem e das hierarquias sociais.
A força dessa articulação esteve justamente na capacidade de combinar pautas econômicas, morais e políticas. A defesa do mercado foi apresentada ao lado da defesa da família; a crítica ao Estado, associada à promessa de autoridade; o combate à esquerda, transformado em identidade cultural. O resultado foi uma linguagem política capaz de converter insatisfações dispersas em pertencimento coletivo.
O bolsonarismo, portanto, não é apenas uma liderança ou um movimento eleitoral. É uma articulação política e cultural que encontrou condições históricas para se desenvolver e que continua existindo para além das derrotas de seu principal representante.
3. Fascismo à brasileira?
A caracterização do bolsonarismo exige cuidado conceitual. A comparação com o fascismo histórico pode iluminar aspectos importantes de sua atuação, mas a simples transposição de categorias elaboradas para a experiência europeia do século XX não explica suficientemente a realidade brasileira.
O fascismo não se manifesta sempre da mesma maneira. Suas formas históricas dependem das condições econômicas, das instituições, das relações de classe e das tradições políticas de cada sociedade.
No Brasil, o bolsonarismo apresenta componentes neofascistas: a construção permanente de inimigos internos, o culto à autoridade, a desqualificação das instituições democráticas, a mobilização de ressentimentos, a naturalização da violência política e a tentativa de subordinar a diversidade social a uma identidade nacional excludente.
Entretanto, sua composição também reúne interesses econômicos e políticos que não podem ser reduzidos à ideologia de uma organização fascista clássica. Sua relação com o neoliberalismo, com os setores rentistas, com o agronegócio e com grupos empresariais revela uma articulação entre autoritarismo político e interesses econômicos específicos.
Por isso, parece mais adequado compreendê-lo como um autoritarismo de massas, com componentes neofascistas, articulado a interesses neoliberais e a uma restauração conservadora das hierarquias sociais.
Essa formulação permite reconhecer sua gravidade sem perder de vista as particularidades brasileiras. O bolsonarismo não precisa reproduzir integralmente o fascismo histórico para representar uma ameaça à democracia. Sua capacidade de mobilizar setores sociais em torno de uma visão autoritária de sociedade já constitui um problema político de primeira grandeza.
A questão central não é apenas nomear o fenômeno, mas compreender como ele se organiza, quais interesses representa, de que maneira constrói sua base social e quais limites encontra para transformar sua força em direção política nacional.
4. A fabricação do senso comum
Uma das maiores realizações políticas do bolsonarismo foi sua capacidade de produzir e disseminar um senso comum próprio.
Essa construção não se deu exclusivamente por meio dos partidos, das campanhas eleitorais ou das instituições formais. Ela avançou por redes sociais, igrejas, associações, grupos familiares, ambientes de trabalho, influenciadores digitais, meios de comunicação e espaços de sociabilidade cotidiana.
O bolsonarismo conseguiu transformar determinadas interpretações da realidade em referências compartilhadas por parcelas expressivas da sociedade. A desconfiança em relação às instituições, a rejeição à esquerda, a associação entre direitos sociais e privilégios, a defesa de soluções autoritárias para problemas complexos e a ideia de que a política é essencialmente um confronto entre inimigos passaram a integrar o repertório de sua militância.
A comunicação digital teve papel decisivo nesse processo. Não se limitou a transmitir mensagens: organizou comunidades, produziu vínculos de pertencimento, estabeleceu códigos de identificação e criou mecanismos permanentes de mobilização.
A força dessas redes não está apenas na velocidade da informação, mas na capacidade de estabelecer uma interpretação do mundo. A política deixa de ser percebida como disputa entre projetos de sociedade e passa a ser vivida como uma luta moral entre grupos que se consideram mutuamente ameaçadores.
Essa construção cultural ajuda a explicar por que o bolsonarismo sobrevive às derrotas eleitorais e às crises de suas lideranças. Sua identidade não depende exclusivamente de um programa de governo ou de resultados administrativos. Ela se alimenta também de vínculos afetivos, ressentimentos, crenças e antagonismos.
Mas é justamente aqui que aparece uma de suas limitações. Produzir um senso comum próprio não significa conseguir transformá-lo em um senso comum nacional. Uma visão de mundo pode ser muito influente dentro de uma comunidade política e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para se tornar referência para a sociedade em seu conjunto.
O bolsonarismo conseguiu organizar uma parcela expressiva da sociedade em torno de sua identidade. Ainda não conseguiu converter essa identidade em um projeto capaz de representar, de maneira convincente, a diversidade de interesses e expectativas do país.
5. Por que não se tornou hegemônico
A hegemonia não se confunde com a capacidade de vencer eleições, ocupar instituições ou mobilizar multidões. Ela pressupõe algo mais complexo: a capacidade de apresentar interesses particulares como interesses gerais, construir alianças sociais duradouras e oferecer uma direção política, econômica e cultural reconhecida por parcelas amplas da sociedade.
É nesse ponto que o bolsonarismo encontra seu teto de vidro.
Sua identidade política depende intensamente da produção de antagonismos. A presença de inimigos é parte constitutiva de sua mobilização. O problema é que uma política organizada permanentemente em torno da negação encontra dificuldades para formular um projeto nacional que ultrapasse os limites de sua própria base.
A lógica do confronto pode ser eficiente para mobilizar, mas não necessariamente para governar. A política exige capacidade de negociação, construção de maiorias, reconhecimento da pluralidade e formulação de respostas para problemas concretos. A transformação de adversários em inimigos permanentes reduz o espaço para essas possibilidades.
Outra limitação está na dependência da família Bolsonaro. A concentração simbólica do movimento em torno de uma liderança familiar dificulta a formação de uma direção política mais ampla e autônoma. A existência de lideranças regionais, parlamentares e digitais não elimina essa dependência. Pelo contrário, frequentemente produz disputas internas por reconhecimento e legitimidade.
Há também contradições entre o discurso e a prática. A defesa da liberdade convive com a intolerância à divergência; o discurso de combate aos privilégios convive com a preservação de interesses econômicos concentrados; a promessa de ordem pode se transformar em instabilidade institucional. Episódios como a saída de Flávio Bolsonaro do país, apresentada publicamente em meio a uma disputa política e judicial, expõem a distância entre a retórica de enfrentamento e as exigências concretas da responsabilidade pública.
Essas contradições não significam que sua base social desapareça automaticamente. Muitas vezes, são reinterpretadas e absorvidas pela própria comunidade política. Mas dificultam a construção de uma legitimidade mais ampla.
Existe ainda um limite econômico e social. O bolsonarismo não conseguiu apresentar um projeto de desenvolvimento nacional capaz de articular crescimento, trabalho, renda, inovação, soberania e redução das desigualdades. Sua agenda econômica, frequentemente subordinada a interesses específicos, não responde de forma convincente às necessidades de uma sociedade marcada pela desigualdade estrutural.
A defesa de hierarquias sociais também restringe sua capacidade de universalização. Uma sociedade plural, atravessada por diferenças de classe, raça, gênero, território e geração, dificilmente encontrará um projeto comum em uma política que transforma essas diferenças em motivos de exclusão ou conflito permanente.
O bolsonarismo pode, assim, conservar uma força eleitoral expressiva e exercer influência sobre o Estado sem conquistar a direção moral e intelectual da sociedade. Sua mobilização é real; suas limitações também.
O teto de vidro não representa uma barreira definitiva ou uma garantia de enfraquecimento. É uma contradição histórica que pode ser superada, deslocada ou agravada conforme a disputa política e social.
6. O que fazer: a guerra de posição
Se a força do bolsonarismo foi construída para além das instituições formais, a resposta democrática também precisa ultrapassar os limites da disputa eleitoral.
Gramsci oferece uma contribuição importante para compreender esse desafio. Em sociedades complexas, a transformação política não se realiza apenas pela conquista do governo ou pelo controle do aparelho estatal. Ela exige uma disputa prolongada pela direção intelectual e moral da sociedade, pela organização de interesses e pela construção de novos valores e referências coletivas.
É o que Gramsci denomina guerra de posição.
Essa perspectiva não significa abandonar a disputa eleitoral, parlamentar ou institucional. Significa compreender que essas dimensões são insuficientes quando não estão articuladas a uma presença social permanente.
A disputa precisa acontecer nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades, nos bairros, nas associações, nas comunidades religiosas, nos movimentos sociais e nas redes digitais. É nesses espaços que se formam interpretações da realidade, relações de confiança, identidades coletivas e expectativas de futuro.
O desafio das forças democráticas é reconstruir vínculos sociais e políticos que não dependam exclusivamente dos períodos eleitorais. Não basta responder à desinformação com informações corretas, embora isso seja indispensável. É necessário construir relações de confiança, escutar as experiências concretas da população e demonstrar, na vida cotidiana, a importância da democracia e dos direitos.
Isso exige também uma renovação das práticas partidárias. Os partidos precisam recuperar sua capacidade de organização, formação política e presença territorial. Precisam abrir espaço para novas lideranças, especialmente entre jovens, mulheres, trabalhadores e representantes da diversidade social brasileira.
A formação dessas lideranças não deve ser pensada como a simples substituição de uma figura por outra. O desafio é construir uma pluralidade de lideranças, articuladas em torno de um projeto coletivo. Retomando a imagem gramsciana do moderno príncipe, o partido pode cumprir esse papel quando deixa de ser apenas uma estrutura eleitoral e se torna um instrumento de organização, elaboração política e construção de vontade coletiva.
Também é necessário apresentar um projeto material de futuro. A democracia precisa demonstrar sua capacidade de melhorar a vida das pessoas. Trabalho digno, renda, educação, saúde, moradia, segurança, desenvolvimento tecnológico e soberania nacional não podem aparecer como temas separados. Precisam integrar uma proposta de país que combine crescimento econômico, justiça social e ampliação de direitos.
A disputa cultural não se vence apenas denunciando o adversário. É preciso produzir valores, ideias e experiências que permitam à sociedade reconhecer-se em um projeto democrático. A esperança, nesse sentido, não pode ser apenas uma disposição subjetiva ou uma palavra de campanha. Precisa adquirir forma concreta na organização social e nas políticas públicas.
7. O interregno e a disputa pelo futuro
A derrota eleitoral do bolsonarismo em 2026 não encerra o conflito político que marcou a última década. O resultado expressa uma correlação de forças, não uma solução definitiva para as contradições que atravessam a sociedade brasileira.
A reflexão de Gramsci sobre os períodos de crise conserva aqui sua atualidade: quando o velho está morrendo e o novo ainda não conseguiu nascer, abre-se um interregno no qual diferentes forças disputam a direção do futuro. É um tempo de instabilidade, no qual as formas tradicionais de representação perdem força, mas novas referências ainda não se consolidaram.
O bolsonarismo é uma expressão dessa crise, mas não sua única causa. Sua permanência revela que as forças democráticas ainda não conseguiram construir uma hegemonia alternativa suficientemente sólida e abrangente.
A vitória eleitoral de Lula oferece uma oportunidade política importante, mas não substitui essa tarefa. O governo precisa transformar conquistas em direitos duradouros, políticas públicas em participação social e crescimento econômico em melhoria concreta das condições de vida. O PT e os partidos aliados precisam compreender que a vitória nas urnas não resolve automaticamente a crise de representação nem reconstrói os vínculos entre política e sociedade.
O desafio é construir uma democracia que não se limite à defesa das instituições, embora essa defesa seja indispensável. É necessário ampliar a participação popular, democratizar os espaços de decisão, formar novas lideranças e fortalecer organizações capazes de sustentar um projeto nacional.
O bolsonarismo continuará disputando a sociedade. Sua força não pode ser subestimada, assim como suas limitações não devem ser confundidas com uma derrota definitiva. O teto de vidro existe, mas não se rompe sozinho.
A disputa pela hegemonia é, portanto, uma disputa pelo sentido do futuro. Não basta impedir que o autoritarismo avance. É preciso construir uma alternativa democrática capaz de oferecer respostas às necessidades materiais, culturais e políticas da população.
A democracia não se consolida apenas pela derrota de seus adversários. Consolida-se quando consegue produzir novas formas de participação, ampliar direitos, reduzir desigualdades e fazer com que a maioria reconheça no projeto democrático uma possibilidade concreta de futuro.
O que está em jogo depois de 2026 não é apenas quem ocupará o governo ou qual força terá a maior bancada parlamentar. É a capacidade de construir uma direção política para o Brasil. Uma direção que transforme a resistência em organização, a vitória eleitoral em participação e a esperança em projeto coletivo.
O teto de vidro do bolsonarismo revela seus limites. Mas a superação desses limites depende, sobretudo, da capacidade das forças democráticas de construir uma alternativa que seja mais forte, mais abrangente e mais convincente do que aquilo que pretende superar.
Francisco Chagas, cientista social, vice-presidente do PT, foi vereador e deputado federal
Sérgio Ribeiro e mestre em ciências Sociais PUC-SP, vice-presidente do PT Paulista, foi prefeito de Carapicuiba.


