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‘Vou votar até o último suspiro’: eleitores 70+ defendem importância de ir às urnas

Voto idoso divulgacao alesp

Divulgação

“Se eu pudesse, eu votava duas vezes: uma por mim e uma pelos que não vão votar”. A fala é de Júlio Neves, 71 anos, bancário aposentado. Ele é um dos 17 milhões de brasileiros com mais de 70 anos para os quais o voto não é mais obrigação, mas um exercício de cidadania. Um gesto que pode no dia 04 de outubro decidir esta eleição. Em 2022, a margem que deu vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi decidida por menos de 2 milhões de votos no segundo turno. 

Apesar de serem os mais interessados em política no Brasil, essa é também a faixa etária de eleitores que registra maior abstenção. Segundo dados agregados das pesquisas Datafolha de 2 de setembro e 19 de agosto, 37% da população 70+ tem grande interesse por política – 12 pontos percentuais acima da média brasileira. Contudo, 58% deles não foram às urnas em 2022. O mesmo levantamento Datafolha mostra que o presidente Lula tem 46% das intenções de voto nessa faixa etária – a mais lulista. É por isso que um dos desafios desta campanha é convencer os idosos a irem às urnas – algo que a extrema-direita não quer.

Júlio Neves conta, ainda, que valoriza o voto a partir da sua própria vivência, pois tinha 9 anos quando o golpe de 1964 roubou dos brasileiros o direito de escolher o presidente da República. Ele lembra que na juventude passou a militar no movimento estudantil e, depois, também no sindicato da sua categoria. 

“Minha vida sempre foi uma militância de estar do lado da população mais carente, dos propósitos mais solidários. […] Não só votar, como convencer as pessoas a votarem, orientar”, afirma.

A memória da ditadura também motiva Mally Freire, 76 anos, a não abrir mão de exercer o direito ao voto. Durante a juventude, participou de passeatas por democracia, mesmo tendo nascido em uma família de direita. 

“O meu pai era da Polícia Federal, olha só, e eu era a única subversiva da família! E desde a primeira vez o meu voto foi só no PT. Eu voto toda vez que tem eleição. Para mim é um prazer! E enquanto tiver pernas e lucidez, vou votar até o meu último suspiro! O Lula não vai ficar para sempre, nem eu, mas espero que esse legado da consciência política, de escolher o lado certo da história, seja para sempre”, declara.

Cidadania e responsabilidade

Já Eva Cardoso, 84 anos, também se diz “a ovelha negra da família”, por sempre ter sido de esquerda. Para Eva, exercer o direito ao voto se tornou particularmente importante nos últimos anos. 

“A gente tem tido uma política com muitos ataques, tudo com muita raiva, muito ódio. Então, eu acho que se você pode fazer alguma coisa, é votando. Eu posso andar, posso ir, graças a Deus. E acho que a gente tem que fazer a escolha certa, para não se arrepender depois, porque a gente já viu muita coisa que não quer ver mais”, afirma.

Júlio considera que a luta atual não é entre direita e esquerda, mas “do bem contra o mal”. Ele afirma que, mesmo sempre tendo sido de esquerda, tem admiração por figuras de direita que defendem a democracia.  Ele lembra o histórico do governo de Jair Bolsonaro, dos mais de 700 mil brasileiros mortos na pandemia, a tentativa de golpe de Estado e a ida de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos conspirar contra o Brasil em busca de “terra arrasada” para livrar seu pai da prisão. 

“A eleição do Lula é fundamental para a nossa busca de um mundo mais equalizado, harmônico, com a natureza preservada. […] Temos que vencer agora, no primeiro turno.”

Mally, por sua vez, defende que os brasileiros não podem deixar a extrema-direita vencer nesta eleição, sobretudo “aquela família peçonhenta” dos Bolsonaro, pois isso significaria “entregar a pátria para os Estados Unidos”. “O negócio está muito sério”, diz ela, que considera ser necessário cada um fazer a sua parte dentro das suas possibilidades para proteger o Brasil e os brasileiros.

“Desde que você possa ir, eu acho que você tem que ir exercer a sua cidadania, porque um voto faz diferença, ainda mais em uma eleição apertada como essa. Todo mundo tem que ir exercer a sua cidadania e votar consciente”, defende Eva.

Rituais do voto

Em dias de eleição, cada um tem sua rotina e, de alguma forma, um ritual a cumprir. Os três, contudo, têm um ritual comum antes do dia da eleição: conversar o máximo que podem com familiares e amigos, trocando figurinha sobre seus candidatos, combatendo os discursos de ódio e defendendo a importância do voto.

Júlio diz que costuma ir votar sozinho, em Taguatinga, região administrativa do Distrito Federal, pois sua família vota no Plano Piloto. Ele vai para a seção eleitoral totalmente paramentado, “de camisa, bandeira, boné e cueca, tudo vermelho”. Depois, sai com sua bandeira tremulando e vai acompanhar a apuração com seus companheiros.

Já Eva, que vota em Divino de São Lourenço, no interior do Espírito Santo (ES), evita adereços, por receio de ser hostilizada. Em 2022, ela foi votar com uma camisa do PT virada do avesso: “O pessoal não viu a estrela, então era uma camisa vermelha normal”. Este ano ela fará o mesmo, mas com uma camisa do MST.

Mally busca ser o mais discreta possível. Eleitora de Vitória (ES), ela prefere votar sempre à tarde, para poder tomar seu café da manhã e almoçar sossegada. Costuma ir sozinha e de Uber, pois a família “é toda dispersa”.

Dificuldade de deslocamento

Um dos pontos que dificulta a presença dos idosos nos colégios eleitorais é a dificuldade de locomoção.

“Até hoje eu ligo para a minha família. Todos os meus irmãos são mais velhos que eu, estão todos na faixa de 75, 78, 79, 82 anos. Então eu chamo: ‘Vamos votar! Se precisar, eu mando o dinheiro para pagar o Uber para levar’”, conta Júlio.

Mally aconselha aqueles que não têm capacidade de ir sozinhos a procurar alguém para acompanhá-los: “Um companheiro, um amigo, um sobrinho, uma neta, um neto… Paga alguém para ir junto, se for o caso, um cuidador. Não podemos perder a nossa independência e a nossa democracia tão suada.”

Júlio conclui com um chamado: “Eu gostaria de convocar as pessoas que são consideradas idosas, mas que têm na alma, na mente e no coração a juventude e a força para mudar esse cenário. Todos nós sabemos que hoje a nossa população de idosos vai chegar em 2030 a quase 40% da população. Então, se esses camaradas, companheiros e cidadãos considerarem a possibilidade de que as novas gerações têm um mundo para herdar, e que eles podem contribuir para um mundo melhor, quero convocar a todos para não deixar de comparecer e votar pelo lado bom da força!”

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