O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o fortalecimento do multilateralismo e de relações baseadas na soberania entre os países durante entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, nesta segunda-feira (21/09). Às vésperas de seu discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Lula afirmou que o mundo vive uma “guerra econômica desnecessária” e criticou o avanço de relações comerciais baseadas em decisões unilaterais.
Ao ser questionado se a articulação do Brasil com Canadá, União Europeia e Quênia em defesa do multilateralismo representaria uma tentativa de desafiar os Estados Unidos, Lula respondeu que o objetivo é garantir a soberania dos países.
“Não se trata de desafiar os Estados Unidos. Se trata de dizer que todo país tem soberania, cuida dos seus interesses. Os Estados Unidos não podem impor regras a ninguém”, afirmou.
Para o presidente, o multilateralismo é o caminho para preservar uma relação equilibrada entre as economias.
“É muito perigoso, porque aí sempre há possibilidade da predominância do mais forte: quem tem a mais forte economia, quem tem mais armas, quem tem mais conhecimento tecnológico”, afirmou.
Para Lula, o comércio deve funcionar como uma via de mão dupla, com equilíbrio entre compra e venda entre os países.Ele disse também que o governo brasileiro quer manter relações comerciais e políticas com diferentes países, incluindo os Estados Unidos, mas sem aceitar interferências.
Sobre a relação com Trump, o presidente afirmou que prefere a negociação ao confronto.
“Eu não sou de fazer bravata, eu não sou de ficar blefando muito, mas o que eu acho é o seguinte: eu gosto de respeito e gosto de ser respeitado. É assim que eu quero a minha relação com os Estados Unidos”, disse.
Tarifaço e Lei da reciprocidade
Lula voltou a criticar as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros e afirmou que as medidas foram baseadas em uma justificativa que não corresponde à realidade da relação comercial entre os dois países.
O presidente destacou, ainda, que o Brasil vem ampliando relações comerciais com outros mercados e citou os resultados após a aplicação das tarifas. De acordo com Lula, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 9% neste ano, enquanto as importações recuaram 8,5%. No mesmo período, houve crescimento médio de 10,5% nas relações comerciais com 57 países.
Lula citou ainda aumentos de 20% no comércio com a China, 18% com o Japão, 16% com a Alemanha, 14% com o Vietnã e 23% com a União Europeia.
O presidente brasileiro ressaltou, contudo, que as negociações com o governo norte-americano foram retomadas após conversa com Trump e que o Brasil continuará buscando um acordo.
“Enquanto tiver na mesa de negociação, eu não preciso fazer a lei da reciprocidade. Eu posso aguardar e ter paciência”, afirmou. “Eu não quero guerra tarifária nem com os Estados Unidos, nem com ninguém, porque eu quero negociar. Eu sou de negociação, na minha vida sindical, aprendendo a negociar.”
Por eleições soberanas e democráticas
Durante a entrevista, Lula também afirmou estar tranquilo em relação às eleições e disse que a disputa de 2026 envolve, em sua avaliação, diferentes projetos para o país.
“Eu tenho consciência que eu vou ganhar as eleições. Tenho certeza que eu vou ganhar as eleições. Porque o Brasil precisa da democracia e por isso nós vamos ganhar as eleições”, declarou.
Lula também defendeu a segurança do sistema eleitoral brasileiro e destacou a rapidez da apuração. “A democracia vai ser mais democrática. A nossa urna é uma urna muito séria. Aliás, o mundo inteiro deveria adotar o sistema eletrônico do Brasil”, afirmou.
Ao abordar a influência dos Estados Unidos sobre a política latino-americana e a possibilidade de interferência nas eleições brasileiras, Lula pediu que o governo norte-americano respeite a autonomia do processo eleitoral do país.
“É muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil. É muito importante porque nós temos uma relação diplomática de 203 anos. É uma relação muito sólida. E o Brasil não é um país anti-americanista”, declarou.
O presidente ainda lembrou que cada povo é soberano para eleger com liberdade seus líderes, de forma democrática.
“As eleições brasileiras são de interesse do povo brasileiro. As dos americanos são de interesse do povo americano. Portanto, é o povo que vota, é o povo que acerta, o povo que erra, mas é da responsabilidade do povo”, disse.


