O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou, em entrevista exclusiva à TV Record, neste domingo, 23, a deterioração da classe política brasileira ao longo das últimas décadas e o uso nefasto da internet na disputa eleitoral para tentar manipular ou falsear dados e informações. Lula citou como exemplo as postagens recorrentes de adversários sobre os preços dos alimentos em supermercados – estratégia que tem sido usada pela extrema direita e Flávio Bolsonaro (PL) de forma recorrente nas últimas semanas para tentar desgastar o Governo Lula.
“Esses dias vi que um adversário foi mostrar uma picanha, sabe? Eu vou dar um dado aqui. Fiz questão de trazer isso. Enquanto no governo passado, em quatro anos, a inflação teve média 6,2%, a nossa é de 4,5% (a menor inflação média de uma gestão presidencial desde 1989). A inflação de alimentos, no governo passado, chegou nos quatro anos a 56%. A nossa, de 2023 até agora, é de 13,6%. Ou seja, quatro vezes menor. Quatro vezes menor”, destacou Lula.
O presidente recomendou que seus adversários, em vez de irem aos supermercados “fazer pirotecnia”, que acompanhem os dados e índices oficiais de inflação, o IPCA, que mostram qual é o verdadeiro cenário econômico atual em comparação com a gestão passada de Jair Bolsonaro.
Qualidade dos políticos
Político mais experiente do Brasil, Lula admitiu ter saudade de rivais do passado, e lamentou o nível atual do quadro político brasileiro. Lula disse ter saudades de quando disputava a Presidência com pessoas como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mário Covas, Aureliano Chaves, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, e tantos outros políticos que marcaram a história brasileira.
“Tem gente que acha que pode ser candidato por causa da internet. Que lacrar na internet dá a ele direito a ser presidente da República. Ser presidente é diferente, é tomar decisões. Tomar decisões é uma coisa séria, não é brincadeira”, afirmou o presidente.
Sem citar nomes dos adversários, Lula disse que “diminuiu a importância dos políticos que disputam a eleição”, e que qualquer um acha que pode ser candidato por causa da internet. “O nível da política caiu muito”, disse, reforçando que se as pessoas não gostam de política, podem ser governadas por representantes perversos.
Educação financeira é fundamental
Lula citou dados da economia, que são positivos, mas admitiu que há questões que aumentam o endividamento das famílias, como novos hábitos de consumo, os juros altos e a ausência de educação financeira, que faz com que os brasileiros comprometam o seu orçamento além da renda.
“Os números são exitosos. Nós temos a menor inflação acumulada em 4 anos, nós temos aumento do salário mínimo real em todos os anos, eles passaram sete anos sem fazer. Agora, por que a sensação de estar caro? Está caro porque mudou o nosso hábito de comer, porque os juros estão caros e porque a gente está comprando mais coisas, utilizando mais coisas. Por isso que eu acho que nós vamos ter que criar um programa de governo, uma coisa chamada educação de economia popular.”
O presidente lembrou que o desemprego, sob Bolsonaro, chegou a quase 8%, enquanto que em sua gestão foi de 5% – o menor índice da série histórica. “Eles geraram 6 milhões de empregos. Nós geramos 10,6 milhões (considerando vagas com carteira assinada e no setor público). O crescimento econômico: o deles foi de 1,4%. O nosso, em três anos, cresceu próximo de 3%. O dobro deles.”
Ninguém está impune se cometer erro
Lula foi questionado sobre inquéritos da Polícia Federal sobre seu filho Fábio Luiz e reforçou sua postura de defesa das investigações e autonomia da PF e do Judiciário.
“Ninguém está impune se cometer erro. Eu digo para qualquer pessoa: todos somos obrigados a agir corretamente. Se alguém está agindo de forma equivocada, de forma errada, vai ter que ser investigado. E eu não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Eu não ameaço punir delegado. Investiga-se”, comparou.
Lula ponderou que em toda eleição seu filho é alvo de boatos e disse que os vazamentos das investigações ocorrem para provocar desgaste na disputa eleitoral. “Todo mundo tem o direito de provar que é inocente. Se isso acontecer, as pessoas serão perdoadas. Mas se alguém cometer o erro, e esse erro trouxe prejuízo aos cofres públicos, essas pessoas terão que pagar”, enfatizou o presidente.
“Nós temos que tomar cuidado. Ou seja, quando começa a vazar, e você sabe que eu sou vítima disso desde 1989, você não pode perder o equilíbrio”.
Segurança e feminicídio
O presidente disse que sempre em eleições os políticos invocam a tese de que “bandido bom é bandido morto”, mas ressaltou que sua experiência de três mandatos e sua trajetória o fazem enxergar mais profundamente a realidade da segurança pública.
O que é que nós fizemos na Constituição de 88? Nós tiramos um certo controle que tinha Federal, porque a política exigia, e os Estados queriam, e nós passamos toda a responsabilidade para os Estados. A União, ela tem pouco a ver com a segurança pública na medida em que nós transferimos a responsabilidade para o estado. Eu agora quero criar o Ministério da Segurança Pública. Por que eu não criei no começo? Porque eu não tinha o que fazer se eu criasse sem mudar a Constituição”, explicou.
Lula disse que assim que for aprovada a PEC da Segurança Pública será preciso convencer a pasta da Fazenda a destinar recursos para um trabalho alinhado e integrado entre Governo Federal, estados e prefeituras.
“Então o que a gente quer fazer é o seguinte, a gente quer devolver o território da periferia e da cidade para o povo. Ele é o dono do território. E aí o bandido vai ocupar seu espaço na cadeia.”
O presidente voltou a falar da importância do Pacto Brasil contra o Feminicídio, que envolve os Três Poderes, e fez um apelo aos homens: “Faço um apelo às pessoas de bem, aos homens de bem, aos homens que tratam as mulheres de bem. Converse com os seus amigos que são brutos, que são ignorantes, que acham que mulher é escrava dele, para ele parar, sabe, de fazer bobagem e cuidar bem da família”.
Lula destacou, ainda, a importância do processo educacional para levar conscientização a crianças e adolescentes, e coibir a cultura do machismo e da violência.


