Soberania nacional não se negocia. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou na segunda-feira, 6, nos Estados Unidos para participar de audiência pública sobre o tarifaço imposto de 25% colocado pelo governo Trump às exportações brasileiras. A viagem ocorre em meio ao aumento das críticas à atuação da família Bolsonaro contra os interesses nacionais e reforça as contradições do discurso adotado pelo parlamentar. Ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, pediram a taxação, consequentemente afetando o país e o povo brasileiro.
As novas tarifas propostas por Trump sobre as exportações brasileiras podem se somar e parte das exportações passa a pagar uma alíquota de importação de 37,5%. Esse percentual se refere à taxa de 25% imposta aos produtos nacionais em detrimento do que o presidente dos EUA chamou de práticas “injustas” brasileiras com a utilização do PIX.
Diante do desgaste da atuação favorável apenas aos EUA, Flávio Bolsonaro, agora, afirma que busca impedir prejuízos ao Brasil e pede a suspensão temporária das tarifas. Porém, deixou claro: que sejam cobradas somente depois das eleições brasileiras. Ou seja, não há um interesse genuíno em proteger a produção nacional. A correspondência trocada entre o senador e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, explicitou o que pensa o pré-candidato. Ele apenas defendeu o adiamento do tarifaço por acreditar que a cobrança poderia beneficiar Lula, que critica abertamente a atuação do governo Trump e disse que a família Bolsonaro é traidora da pátria.
De acordo com o presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, a família Bolsonaro trabalhou durante meses e ainda continua conspirando contra o país, estimulando medidas contra autoridades e instituições brasileiras, atuando contra nossa economia em busca de interesses pessoais.
“Agora, diante das consequências econômicas e políticas dessa atuação, Flávio Bolsonaro tenta reescrever a história e se apresentar como defensor dos interesses nacionais, quando a própria resposta do governo Trump demonstra que sua atuação é de subserviência e contra os interesses nacionais”, afirma.
A carta bomba
No início de junho, Flávio enviou uma carta ao governo dos Estados Unidos solicitando que Washington reconsiderasse a adoção das tarifas. A resposta veio dias depois, mas não atendeu ao pedido do senador. Rubio reafirmou a posição oficial do governo Trump, manteve o apoio ao tarifaço e sustentou que persistem divergências comerciais entre os dois países.
Além de manter as tarifas, Rubio aproveitou a resposta para reiterar críticas ao Brasil na área comercial e sinalizar disposição para trabalhar com o governo que vier a ser eleito em 2026, sem oferecer qualquer concessão imediata ao pedido feito por Flávio.
Segundo o líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (PT-SC), a carta foi reveladora das intenções reais de Flávio Bolsonaro quando ele solicita ao governo Trump que o tarifaço seja implementado contra o Brasil após as eleições. “O que ele não percebe é que já ocorreu repercussão negativa da postura dele. Como foi negativo, ele tenta construir uma outra narrativa para diminuir o impacto do seu posicionamento político e ideológico de um serviçal, de um vira-lata, de um patriota entreguista”, diz Uczai.
Mudança tardia de narrativa
Ao não conseguir convencer o governo Trump a recuar, Flávio Bolsonaro passou a defender uma suspensão temporária das tarifas por cerca de 180 dias, argumentando que um adiamento evitaria impactos eleitorais e permitiria negociar o tema após o pleito brasileiro para privilegiar a sua candidatura.
Para Pedro Uczai, Flávio, desde o ano passado, pede tarifas contra o Brasil, diminui a força do PIX, se dispõe a entregar as terras raras para os Estados Unidos.
“Mais do que ele interferir no comércio, solicitando Tarifaço, reduzir o papel do PIX ou acabar com o PIX para fortalecer as empresas dos Estados Unidos, ele comete um crime de lesa pátria quando comete um crime contra a soberania nacional. Cabe, na minha leitura, inclusive uma iniciativa judicial nesse sentido”, afirma o líder do PT.
Resposta dos EUA desmontou estratégia
A resposta oficial do secretário Marco Rubio desmontou a narrativa de que bastaria uma interlocução política da família Bolsonaro para convencer Washington a recuar.
Mesmo após o apelo formal encaminhado por Flávio, o governo Trump manteve integralmente sua posição sobre o Tarifaço e reiterou as críticas à política comercial brasileira.
Na prática, a viagem desta semana ocorre depois de o próprio governo norte-americano rejeitar os argumentos apresentados pelo próprio Flávio Bolsonaro.
Defesa da soberania
Enquanto Flávio Bolsonaro atua contra o Brasil, o governo do presidente Lula mantém a posição de negociar institucionalmente com os Estados Unidos, por meio dos canais diplomáticos e comerciais, defendendo os interesses nacionais e rejeitando medidas que afetem trabalhadores, empresas e exportadores brasileiros.
A última viagem de Flávio Bolsonaro novamente nos EUA escancara uma diferença política fundamental: a defesa da soberania brasileira não pode estar subordinada a interesses eleitorais nem depender da boa vontade de governos estrangeiros.
De acordo com a líder do Governo no Senado, a senadora Teresa Leitão (PT-PE), o presidente Lula, sempre se posicionou contra (a taxação), de maneira soberana e altiva. Enquanto os emissários do Governo Lula conduziram uma boa negociação, Flávio Bolsonaro tenta voltar atrás.
“Mas a carta dele, de entrega da soberania nacional aos Estados Unidos, e a resposta que foi dada por Rubio demonstram que essa fala [de defesa da soberania] é simplesmente uma narrativa”, pontua.
PT aciona a Justiça
O Partido dos Trabalhadores enviou uma notícia-de-fato ao Ministério Público Eleitoral e protocolou uma representação criminal junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra os ataques à soberania nacional perpetrados por Flávio Bolsonaro.
O PT pede que Flávio seja investigado pelos crimes de espionagem, corrupção passiva e violação de sigilo funcional. Também solicita que seja requisitado o inteiro teor das cartas dele e de Rubio e de eventuais comunicações mantidas entre o senador bolsonarista e autoridades estrangeiras, além da apuração sobre possível uso do cargo de senador da República para acessar informações sigilosas e transferi-las para o governo norte-americano.


