Decifra-me ou te devoro
Tarcísio de Freitas: duro com os pobres, mole com o crime, mãe dos ricos e servo do bolsonarismo
Tarcísio de Freitas tem uma imagem cuidadosamente construída: a do gestor técnico, eficiente, que entrega obras e enfrenta o crime. O mercado o adora. A imprensa o trata com luvas. O eleitor moderado o vê como “mal menor” diante do fantasma do petismo.
Mas a Esfinge guarda um segredo. Decifrá-lo é evitar ser devorado pela própria ilusão.
O segredo é este: Tarcísio não é um gestor. É um farsante. Duro com o pobre, mole com o crime, mãe dos ricos e servo do bolsonarismo.
Duro com o pobre
Os jovens que morrem na periferia não são policiais. São pobres. São negros. Entre 2017 e 2024, 99,6% das vítimas de mortes por PMs eram homens. Crianças negras têm 3,7 vezes mais chances de serem mortas pela polícia do que brancas.
Na gestão Tarcísio, a letalidade disparou. Em 2022, a polícia matou 256 pessoas. Em 2025, o recorde: 672 mortes. Em dois meses de 2026, já são 130 — duas por dia. Adolescentes mortos pela PM mais que dobraram, chegando a 77 em 2024. Ryan, 4 anos, baleado em Santos. Gregory, 17 anos, morto com tiros pelas costas. Não eram criminosos. Eram pobres. Eram negros. Eram descartáveis.
Mole com o crime
Quando o assunto é enfrentar o PCC, o “gestor eficiente” some. Seu secretário de Segurança apresentou uma versão do projeto antifacção que subordinava a Polícia Federal ao aval do governador. Traduzindo: a PF não poderia investigar o PCC em São Paulo sem autorização de Tarcísio. A pressão o fez recuar. Mas a intenção ficou registrada.
O corte de R$ 355 milhões no programa anticrime não é erro de planilha. É escolha política. Quem agradece? O crime organizado.
Mãe dos ricos
A Sabesp foi vendida com a promessa de tarifa mais baixa. Em fevereiro de 2026, uma idosa de 82 anos morreu afogada dentro de casa na Vila Prudente. A Sabesp alegou “operação normal”. Moradores dizem que pedidos de manutenção foram ignorados por meses. A concessionária privatizada não tinha equipe para a emergência. A prioridade é o lucro do acionista, não a vida do pobre.
Mas há mais. Tarcísio aprovou a venda de terras devolutas com até 90% de desconto. 720 mil hectares — quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo — foram repassados a latifundiários por um valor irrisório. O prejuízo ao patrimônio público: R$ 7,6 bilhões. O governo federal ofereceu comprar as mesmas terras pelo valor integral para reforma agrária. Tarcísio nunca respondeu. Preferiu dar de mão beijada aos grandes fazendeiros — muitos condenados por desmatamento e investigados por trabalho escravo.
Suspeitas de corrupção
Elas o seguem como sombra. No DNIT, durante o governo Dilma, Tarcísio assinou contratos com a empresa B2T ignorando alertas da AGU. O esquema desviou R$ 40 milhões. Seu nome aparece 17 vezes no inquérito da PF. Em São Paulo, a Operação Ícaro revelou o “Propinão do ICMS”: auditores da Sefaz facilitavam fraudes fiscais para grandes empresas em troca de propina que superou R$ 1 bilhão. O esquema ocorreu sob sua gestão. Tarcísio não é acusado pessoalmente, mas a falta de controle na pasta que ele comanda é um fato.
Indiferente aos prefeitos
Prefeitos do interior relatam falta de atenção e atraso no ICMS. Lula não deixou por menos: “Os prefeitos de São Paulo são mal-recebidos pelo governo do estado”. Tarcísio rebateu com agressividade, mas o governo “demorou a acordar” para o diálogo. Recusou Kassab como vice sem alternativa. Mantém um vice sob investigação internacional. Trata aliados como descartáveis.
Servo do bolsonarismo
Usou o boné MAGA na posse de Trump. Celebrou o republicano mesmo quando suas tarifas prejudicaram o agronegócio paulista. Agora hesita em apoiar Flávio Bolsonaro. O resultado? O bolsonarismo raiz o chama de “traidor”. A esquerda o chama de “vassalo”. Ficou sozinho no ringue.
Decifre-se o segredo: Tarcísio não é um gestor. É um farsante. Duro com o jovem negro da periferia, mole com o PCC, mãe dos ricos (na água privatizada e nas terras doadas a latifundiários), servo de um extremismo que já não sabe se quer servi-lo.
Para os pobres, os pretos, os jovens, os idosos que morrem afogados dentro de casa — resta a bala, a água que mata, a terra que vira esmola e a falta de colete.
Decifre a Esfinge. Ou ela te devora.
SP 27 abril 2026
FRANCISCO CHAGAS, cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex deputado federal e vereador


