UM CHAMADO À SOBERANIA Aos parlamentares do PT e dos partidos progressistas, às candidatas e aos candidatos que se apresentam para servir ao Brasil e aos patriotas sinceros de todas as convicções.
A soberania de uma Nação não se limita às suas fronteiras físicas. No século XXI, ela também se estende às redes, aos dados, às tecnologias e ao conhecimento. Defender o Brasil é garantir que nenhum poder externo possa decidir por nós o que devemos produzir, conhecer, proteger ou escolher. Que este seja um chamado para colocarmos a soberania brasileira no centro do projeto de futuro que queremos construir.
O alerta feito pelo general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), deveria ecoar forte na sociedade brasileira: O Brasil está sob ataque constante no mundo digital.
Enquanto o país reconstrói sua presença internacional e busca recuperar protagonismo global, uma guerra silenciosa acontece todos os dias nos computadores, celulares e sistemas que movimentam a nação.
Segundo dados apresentados pelo CIE, foram registradas mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão em sistemas brasileiros ao longo de 2025. O número impressiona. Mas, mais importante que o número, é compreender o que ele revela: a cibersegurança deixou de ser assunto restrito a especialistas em tecnologia. Tornou-se uma questão de segurança nacional, desenvolvimento econômico e soberania.
A disputa tecnológica que se trava no mundo também é uma disputa geopolítica. Estados Unidos e China competem pela liderança em inteligência artificial, semicondutores, computação avançada, redes de comunicação e infraestrutura digital. Outras potências, como Rússia, União Europeia e Índia, também buscam ampliar sua capacidade tecnológica. Por trás dessa corrida está uma questão decisiva: quem dominar as tecnologias estratégicas do século XXI terá enorme poder sobre a economia, a segurança e o futuro das nações.
Nesse cenário, o Brasil não pode aceitar o papel de mero consumidor de tecnologia. Precisa ser produtor, desenvolvedor e, sobretudo, soberano.
Não se trata apenas de instalar firewalls ou comprar sistemas sofisticados. A questão é mais profunda: garantir que o Brasil possa tomar suas próprias decisões sem ser vigiado, ameaçado ou condicionado por interesses externos. É assegurar a autonomia necessária para escolher o próprio caminho.
É aqui que entra a metáfora das raposas.
Imagine o Brasil como um grande galinheiro. Temos os ovos — nossos dados, nossas riquezas, nossas empresas e nossas informações estratégicas. Mas muitas das cercas, portas e ferramentas que protegem esse galinheiro são produzidas por outros países. E algumas raposas já conhecem muito bem os caminhos de entrada.
Não significa afirmar que todo ataque tenha origem em determinado país. A realidade é mais complexa. Estados, empresas e organizações criminosas disputam tecnologia, informação e poder. Mas seria ingenuidade imaginar que as grandes potências não utilizem suas capacidades tecnológicas para ampliar sua influência estratégica.
Hoje, dados sobre saúde, previdência, segurança, energia, finanças e infraestrutura circulam por sistemas digitais. Informações sobre empresas e cidadãos podem valer tanto quanto petróleo. Algoritmos influenciam mercados. A inteligência artificial transforma relações de poder. Semicondutores determinam capacidades industriais e militares.
A nova fronteira da soberania passa por aí.
Por isso, a cibersegurança precisa estar no centro da construção do Lula 4. Não como tema técnico ou secundário, mas como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento e soberania.
O Brasil tem universidades, pesquisadores, empresas e profissionais capazes de enfrentar esse desafio. Temos inteligência, criatividade e capacidade de formar talentos. O que falta é escala, investimento e coordenação. Precisamos desenvolver tecnologia nacional, fortalecer centros de pesquisa, formar e valorizar especialistas, proteger dados estratégicos e reduzir dependências externas em áreas críticas, como semicondutores, computação avançada e armazenamento de dados.
Também precisamos aproximar governo, universidades, empresas e instituições de defesa. A segurança digital não pode depender de uma única estrutura do Estado. Exige uma política permanente, com orçamento, metas, inteligência e capacidade de resposta.
O Lula 4 pode transformar esse desafio em uma agenda estratégica: criar uma estrutura nacional de coordenação da soberania digital; ampliar investimentos em pesquisa e inovação; proteger infraestruturas críticas; formar profissionais; fortalecer a inteligência digital; desenvolver tecnologias próprias e construir uma diplomacia capaz de defender os interesses brasileiros no mundo cibernético.
O Brasil deve cooperar com todos, mas não pode depender de ninguém para proteger aquilo que é essencial à sua soberania.
Não se trata de ser contra os Estados Unidos, a China, Israel ou qualquer outro país. Trata-se de ser a favor do Brasil. Não é isolamento. É autonomia. Não é rejeição à cooperação internacional. É capacidade de cooperar sem entregar o controle sobre nossas decisões estratégicas.
O Brasil tem uma posição singular no mundo. É uma das maiores economias, possui recursos naturais estratégicos, enorme mercado consumidor, capacidade energética, biodiversidade e uma diplomacia reconhecida. Em um mundo marcado pela disputa entre grandes potências, preservar essa autonomia será decisivo.
Por isso, soberania digital também é soberania nacional.
O general fez o alerta. Agora é preciso transformar o alerta em política de Estado.
Porque um país que não protege suas fronteiras digitais corre o risco de perder, silenciosamente, o controle sobre suas próprias decisões.
As raposas estão rondando o galinheiro.
E o Brasil precisa aprender a proteger seus ovos.
Soberania não se pede emprestada. Soberania se constrói. E, no século XXI, ela começa também pela capacidade de proteger o mundo digital em que o Brasil vive, trabalha, produz e decide seu futuro.
São Paulo, 27 de julho de 2026.
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT Paulista, foi vereador da cidade de São Paulo e deputado federal.
O GENERAL E AS RAPOSAS: POR QUE O LULA 4 PRECISA PRIORIZAR A CIBERSEGURANÇA, por Francisco Chagas

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