O ALMIRANTE E A MIOPIA ESTRATÉGICA, por Francisco Chagas

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Quem não identifica o inimigo é capaz de promover a defesa?

A recente entrevista do Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, Comandante da Marinha do Brasil, à CNN, merece uma reflexão que vá além da cordialidade de suas declarações. Ao afirmar que não vê ameaças ao Brasil por parte dos Estados Unidos e que a relação entre as Forças Armadas dos dois países é pautada pela confiança e pela cooperação, o Almirante parece confundir cooperação operacional com convergência estratégica.
O Brasil pode cooperar militarmente com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, preservar uma visão crítica sobre seus interesses estratégicos. Uma coisa não exclui a outra.
Na política internacional, países não têm amigos permanentes. Têm interesses permanentes.

Um passado que não pode ser esquecido
A história das relações entre Brasil e Estados Unidos recomenda cautela.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Nordeste brasileiro tinha enorme valor estratégico para Washington. Sua posição permitia controlar as rotas do Atlântico Sul e aproximar as forças americanas da África.
Foi nesse contexto que, em dezembro de 1941, os Estados Unidos elaboraram o Plano Rubber, um plano militar para invadir e ocupar o Nordeste brasileiro caso as negociações não produzissem o resultado desejado. A operação previa o desembarque de tropas americanas em Natal e ações sobre outros pontos estratégicos do litoral.
O plano não foi executado. A diplomacia prevaleceu, e o governo brasileiro acabou permitindo a utilização de bases estratégicas no Nordeste. Parnamirim, em Natal, tornou-se uma das principais bases aéreas americanas do Atlântico Sul.
Mas o fato de a invasão não ter ocorrido não elimina seu significado histórico. A ocupação militar foi planejada como alternativa caso a via diplomática fracassasse.
A lição não é que os Estados Unidos sejam necessariamente inimigos do Brasil, mas que quando os interesses estratégicos de uma grande potência estão em jogo, a soberania de outros países podem ser submetida a pressões econômicas, diplomáticas e, em determinadas circunstâncias, militares.
É justamente por isso que existem Forças Armadas: não para fabricar inimigos, mas para garantir que a segurança nacional não dependa da boa vontade de outros Estados.
Cooperação não elimina interesses divergentes.
Duas forças armadas podem realizar exercícios conjuntos, manter intercâmbios e compartilhar experiências. Isso é positivo. Mas nenhuma dessas ações elimina a possibilidade de divergência entre os interesses nacionais de seus respectivos países.
A ausência de uma ameaça militar imediata não significa ausência de riscos estratégicos. No século XXI, a pressão sobre um país pode ocorrer por meio de sanções econômicas, restrições tecnológicas, guerra cibernética, operações de inteligência ou pressão diplomática. O conflito moderno não começa necessariamente com tanques atravessando fronteiras.
Por isso, identificar o inimigo não significa escolher um país para odiar. Significa identificar quem possui capacidade e interesse de ameaçar o Brasil em determinadas circunstâncias.
Essa é a função da estratégia.

O paradoxo do orçamento
Aqui está o ponto mais preocupante da declaração do Almirante Olsen. Sua queixa inicial é justamente a falta de apoio da sociedade a maiores investimentos em defesa. Mas existe uma contradição evidente: se a sociedade não percebe riscos à segurança nacional, dificilmente apoiará o aumento do orçamento militar. E se o próprio comandante da Marinha afirma que não vê ameaças, como esperar que a sociedade compreenda a necessidade de investir mais na defesa do país?
É um círculo vicioso. A sociedade não pressiona por mais recursos porque não percebe ameaças; e as ameaças deixam de ocupar o debate público porque as próprias autoridades responsáveis pela defesa não as apresentam como possibilidades concretas.
O papel das Forças Armadas não é alarmar a população. É explicar os riscos, antecipar cenários e demonstrar porque a capacidade de defesa é necessária mesmo em tempos de paz.
Uma Força Armada preparada não trabalha com certezas confortáveis. Trabalha com cenários.

Conclusão
O Almirante Olsen não é ingênuo. Sua declaração merece, portanto, ser analisada como uma visão estratégica.
Não se trata de transformar os Estados Unidos em inimigos. Trata-se de reconhecer uma verdade elementar da geopolítica: cooperação não elimina competição, e amizade diplomática não elimina interesses divergentes.
O Brasil tem uma Amazônia Azul a proteger, um pré-sal a defender e um papel próprio a exercer no mundo.
Para isso, precisa de Forças Armadas capazes de cooperar, mas também de identificar, antecipar e dissuadir ameaças.
Defender a soberania exige vigilância.
Porque, na geopolítica, quem não consegue enxergar um possível inimigo dificilmente estará preparado para enfrentá-lo quando ele deixar de ser apenas uma possibilidade.

São Paulo, 05 agosto de 2026.
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT Paulista, foi vereador da cidade de São Paulo e deputado federal.

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