Donald Trump e as eleições, por Charles Gentil

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Em Wisconsin, na sexta-feira (05.06), em entrevista para a emissora NBC, no programa Meet The Press ( conforme vídeo abaixo), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofendeu a jornalista Kristen Welker e, em seguida, abandonou a entrevista.

Nada surpreendente, sobretudo, tratando-se de Donald Trump. Algo, aliás, absolutamente previsível, o que por sua vez, não significa que seja aceitável, tal descompostura exibida por alguém que se diz republicano.

Donald Trump, mais uma vez, menos republicano do que nunca, revela assim um traço muito característico dos autoritários: a incapacidade de conviver com a crítica e, portanto, com a liberdade de expressão e que é um dos fundamentos que sustentam a democracia.

A liberdade de expressão, inclusive, a de exercer a crítica livremente ou de pensar criticamente com liberdade uma afirmação ou contexto dado é condição sine qua non, para assegurar a saúde do sistema democrático por oposição a adoção de um pensamento único, acrítico e autoritário e que assim é por não admitir ser contrariado.

Diante da jornalista Kristen Welker, Trump se apequenou, ao mostrar não ter argumentos, nem provas que confirmassem a suposta fraude alegada nas eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2020 ( ocasião em que foi derrotado para Joe Biden) e, agora, nas eleições para o governo da Califórnia, cuja suspeita de idoneidade assenta-se sobre a morosidade para o cômputo dos votos.

A jornalista Kristen Welker questionou a afirmação de fraude nas eleições esclarecendo Trump que autoridades estaduais e locais reconhecem a demora na contagem dos votos e pressionam para agilizar, mas que a contagem dos votos é assim.

No entanto, a alegação de Trump de que há fraude nas eleições da Califórnia baseia-se no que ele diz ouvir do processo eleitoral, o que foi questionado pela jornalista Kristen, de que isso não constitui prova de fraude.

Ainda mais inconsistente é a afirmação de Trump de que, em 2020, derrotou Joe Biden nas eleições presidenciais.

Porém, a jornalista Kristen insistiu e disse à Trump, que ele nunca apresentou provas sobre a suposta fraude nas eleições presidenciais de 2020 que alçou Joe Baden à presidência dos Estados Unidos.

Desta forma, Donald Trump busca desacreditar o sistema democrático eleitoral norte-americano lançando, mas sem apresentar provas, dúvidas sobre a escolha dos seus mandatários.

A gravidade das declarações de Donald Trump quanto a lisura do processo eleitoral nos Estados Unidos é patente e constitui sinal de alerta às democracias do mundo inteiro.

Isso porque, se a própria democracia norte-americana não é respeitada, se o próprio presidente dos Estados Unidos (eleito pelo sistema eleitoral que ele acusa de fraudulento), não reconhece o resultado das urnas quando lhe é ou pode ser desfavorável, há, então, um grande perigo porvir.

Pois, por essa lógica, então, para Donald Trump, a urna deixa de ser importante e só terá, de fato, valor, ou seja, só será idônea se assegurar o resultado esperado; logo, a própria vitória ou de alguém que lhe seja vinculado.

Porém, essa garantia da derrota certa do adversário, não só se constituiria em autêntica fraude do pleito, mas também expressaria que, na prática, o sistema de votação, teria sido abolido.

Ocorre que a alternância de poder e que tanto incômoda Donald Trump é, justamente, um pressuposto do regime democrático.

Com isso, Trump ao mostrar-se indignado com a derrota em 2020, ao protestar contra a possibilidade de que as eleições californianas possa, em 2026, não atender seus interesses e, por isso, de forma leviana, sem apresentar provas, busca inspirar suspeitas quanto a honestidade do sufrágio, então, isso evidencia que Donald Trump, enquanto autoritário, coopera dentro e fora dos Estados Unidos para colocar em risco o regime democrático no mundo.

O método é simples. Donald Trump critica o sistema eleitoral norte-americano acusando-o de fraudulento sem apresentar provas. Com isso, espera-se que a suspeita de fraude eleitoral se instale em um número cada vez maior de cidadãos.
Em seguida, que os resultados das urnas, desfavoráveis ao que se deseja, seja questionado pelo maior número possível de seguidores.
Até que não se admita nenhum resultado diferente do que a derrota dos oponentes.
E por fim, que esse método seja replicado fora dos Estados Unidos.

Assim, os autoritários buscam corroer a democracia por dentro. Pacientemente, ao longo dos anos, enquanto disputam as eleições, disseminam a inverdade quanto a fraude no escrutínio e, afirmando uma mentira mil vezes, à semelhança dos nazistas, buscam torná-la verdade inculcando nos cidadãos, o desprezo pelos valores democráticos entre eles, a escolha legítima de seus representantes.

Trump, ataca permanentemente a democracia norte-americana. No Brasil, o papel sujo de atacar a ordem democrática coube a Jair Bolsonaro e, hoje, tem sua continuidade por meio da atuação criminosa e antipatriótica de seus filhos: Flávio e Eduardo Bolsonaro.

A entrevista dada a Kristen possui ainda dois elementos a ser considerados: a menção feita por Trump, ao que será feito quanto às eleições na Califórnia e a referência genérica às eleições em países do Terceiro Mundo.

Quanto às eleições na Califórnia, Donald Trump, ao afirmar de forma irresponsável, que está sendo fraudada porque escuta pessoas dizerem isso, arremata ” e escuto as pessoas e vamos ver o que acontece”.

E o que pode acontecer? Das duas, uma. Ou a expectativa de Donald Trump pode ser contrariada ou pode não ser contrariada.

Se sua expectativa não for contrariada para Donald Trump a eleição terá sido idônea. Se sua expectativa for contrariada terá sido fraudada.

No entanto, há uma terceira possibilidade e que não faz parte da lógica autoritária de Donald Trump: a de que a eleição seja honesta, ainda que lhe contrarie a expectativa. E é bem provável que seu desejo nas urnas seja mesmo contrariado considerando-se o despropósito furioso de seu receio antecipado de eventual frustração ou em outras palavras: é provável que Donald Trump considere a possibilidade real que sua preferência eleitoral não logre êxito e queira interpretar tal eventual derrota como fraude no escrutínio.

E isso expõe o autoritarismo de Donald Trump, uma vez que, se seus interesses nas urnas não forem confirmados, então, o sistema democrático de escolhas dos representantes dos mandatários norte-americanos é, obrigatoriamente, uma farsa.

Nesse ponto, evidencia-se que o interesse individual de Donald Trump e do grupo de multimilionários que representa, isto é, a minoria, pretendem sobrepor-se à maioria da sociedade, na hipótese do voto majoritário não endossar-lhes as pretensões de vitória, motivo pelo qual, assim, já que a democracia pode impor-lhes derrota passa a ser, por isso, passível de ser assassinada.

O outro elemento, diz respeito às eleições nos países de Terceiro Mundo, que de acordo com Trump são fraudadas.

Em um contexto em que haverá eleições presidenciais no Brasil, ainda que nossa pátria não possa ser designada pelo termo obsoleto de Terceiro Mundo, e considerando-se que o nível de desenvolvimento atual de nosso país dista das nações mais pobres, o fato é que, nem por isso, a menção de Donald Trump às supostas eleições fraudadas em países anacronicamente considerados terceiro mundistas, deve deixar de chamar nossa atenção.

Isso porque, a alegação de fraude em eleições, ocorridas supostamente em países desenvolvidos ou não, requer por parte de quem aventa tais crimes, no mínimo, a apresentação de fatos que comprovem o ilícito cometido.

Nem Donald Trump, nem Jair Bolsonaro puderam sustentar as acusações feitas e reiteradas quanto a idoneidade do sistema eleitoral, de modo que, tais acusações sem a devida materialidade e feitas assim, portanto, à revelia de dados comprováveis, se configuram como prática criminosa pelo caráter sistemático que visa mobilizar a desconfiança e revolta dos cidadãos contra o legítimo regime de escolha de representantes populares em seus diferentes níveis de atuação (local,municipal, estadual e federal).

A conduta de Donald Trump diante da jornalista Kristen Welker deve ser repudiada tanto pela ofensa a profissional da comunicação, quanto pela ofensa a democracia.

E é lamentável que o presidente dos Estados Unidos tenha designado a jornalista como “desonesta ou estúpida” porque Kristen Welker não corroborou a afirmação gratuita de que as eleições na Califórnia também estão sendo fraudadas.

Kristen Welker, enquanto jornalista, ao colocar-se criticamente diante de uma afirmação infundada e que diz respeito a um dos pilares da democracia recuperou, ao menos naquele episódio específico, o bom e velho jornalismo: imparcial, objetivo, crítico e informativo.

De fato, Kristen foi maltratada ( e não deveria), mas ossos do ofício a parte, isso expôs a face autoritária de Donald Trump incapaz não só de divergir com civilidade e respeito, mas também de apresentar argumentos sólidos que eventualmente pudessem convencer alguém das teses de fraude que alude.

Na ausência de argumentos, Donald Trump lança na entrevista um bombardeio de xingamentos, tanto buscando desestabilizar emocionalmente a jornalista Kristen Welker, quanto para retirar do foco o fato de não ter apresentado provas relativas às fraudes eleitorais.

Desta forma, o xingamento puro e simples, o rebaixamento da conversa,enfim, a violência verbal e o abandono da entrevista por Donald Trump, apenas consistem em mera cortina de fumaça e que sob a aparência de uma personalidade forte, convicta e séria oculta a fragilidade de suas declarações irresponsáveis contra a democracia e os crimes que daí se seguem.

Talvez, por isso, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos mais do que abandonar a entrevista com Kristen Welker, na verdade, diante da liberdade de expressão da jornalista, fugiu com medo da oportunidade de fornecer provas das acusações que faz contra a lisura das eleições.

Nesse sentido, sua fuga foi também dos órgãos de imprensa que considera fazer-lhe oposição (NBC, ABC,CBS e CNN, por exemolo) redes aos quais designou como tendenciosas.

Daí porque, em ano eleitoral aqui no Brasil é bem provável que Flávio Bolsonaro e demais autoritários e extremistas de direita busquem imitar o jogo de cena de Donald Trump, sobretudo, durante os debates à presidência ou entrevistas de ocasião e com seus rompantes autoritários também queiram, jogar cortina de fumaça por aqui.

Com efeito, espera-se que a Justiça Eleitoral esteja de prontidão e não permita que candidatos assaquem inverdades sobre o sistema eleitoral brasileiro ou produzem fake news, a pretexto de fazerem uso da liberdade de expressão.

Até porque, se a liberdade de expressão comporta um raciocínio crítico vinculado a provas, já é hora de perguntarmos, no Brasil, afinal: quem tem medo e deve temer a liberdade de expressão?

Charles Gentil
Secretário de Finanças, PED 2025
Ex-presidente do Diretório Zonal PT do Centro, PED 2019

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