DAVI VENCEU GOLIAS. O QUE A GUERRA DE 40 DIAS ENSINA AOS EUA E ISRAEL

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Há uma velha máxima militar de que nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. O conflito de 40 dias entre EUA/ISRAEL e IRÃ — prestes a ser formalmente encerrado por um cessar-fogo mediado pelo Paquistão — eleva essa sabedoria a uma escala geopolítica constrangedora para Washington. Não porque os americanos tenham perdido batalhas no campo., pelo contrário: sua máquina de guerra continuou sendo a mais letal do planeta. A derrota que se desenha é de outra natureza, mais sutil e, por isso mesmo, mais devastadora: uma derrota estratégica, daquelas que livros de relações internacionais explicam por décadas.

A ironia do título — Davi venceu Golias. — Não é apenas uma provocação retórica. Ela traduz uma verdade incômoda: o Irã, com um PIB equivalente ao do estado da Louisiana e um orçamento militar que mal alcança 5% do americano, conseguiu ditar os termos do fim da guerra. Golias gastou cerca de US$ 1 bilhão por dia em mísseis de precisão, porta-aviões e bombas inteligentes. Davi respondeu com uma arma primitiva, mas cirúrgica: o bloqueio do Estreito de Ormuz. Não precisou lançar todo seu estoque de mísseis hipersônicos. Bastou ameaçar o fluxo de 20% do petróleo mundial para que a economia global entrasse em choque, os preços da gasolina disparassem nos postos americanos e a Casa Branca percebeu que a paciência do eleitor tem limite.

O custo financeiro direto declarado pelos EUA já é conhecido: aproximadamente US$ 40 bilhões, treze soldados mortos, centenas de feridos, um radar avançado de US$ 1,1 bilhão destruído, quase 40 aeronaves perdidas, munições estratégicas esgotadas. Mas o verdadeiro preço não está no balanço contábil do Pentágono, está no mapa geopolítico que emerge após o cessar-fogo.

Ao aceitar a mediação paquistanesa e suspender o ataque planejado para as 20h daquele dia, Trump — que sempre se apresentou como o presidente que não iniciaria novas guerras — tornou-se o presidente que não consegue terminá-las sem ceder ao adversário. Os termos do acordo são reveladores: o Irã obteve a remoção total das sanções econômicas, a liberação de bilhões em ativos congelados e, o mais surpreendente, o direito de cobrar uma taxa de US$ 2 milhões por navio que atravessar Ormuz. Na prática, Teerã legalizou o que antes era um bloqueio ilegal e o transformou em pedágio.

E Israel? O aliado histórico, que nos bastidores pressionava por uma ação mais dura contra o programa nuclear iraniano, viu-se obrigado a aceitar o cessar-fogo de duas semanas. Mas Israel não costuma cumprir acordos. Para um país cuja doutrina de segurança sempre foi a autossuficiência militar, depender da mediação paquistanesa e da anuência de Teerã é mais do que um revés diplomático — é um golpe simbólico profundo. A mensagem enviada ao Hezbollah, ao Hamas e às milícias xiitas no Iraque é inequívoca: a aliança EUA-Israel não é mais invencível. Um país de 85 milhões de habitantes, com uma economia asfixiada e mísseis de precisão limitada, resistiu 40 dias e saiu com sanções removidas. Quantos outros Davi aprenderão essa lição? Resta saber se Israel irá cumprir o cessar fogo.

Há, claro, quem argumente que os EUA cumpriram seu objetivo imediato: reabrir o Estreito e evitar uma guerra prolongada. O problema é que os americanos controlavam o estreito antes do conflito. Gastaram US$ 40 bilhões, perderam vidas e viram sua inflação doméstica disparar para recuperar exatamente o status quo antes da guerra, mas agora quem controla é o Irã. Em que universo isso é vitória?

O legado desta guerra de 40 dias, se confirmado o acordo, será a consagração de uma nova lógica nas relações internacionais: a superioridade tecnológica não garante mais vitória política. Golias pode ter a melhor armadura e a lança mais afiada, mas se Davi souber mirar na testa — no caso, no preço do petróleo e na paciência da opinião pública — a pedra continua derrubando gigantes. O Irã não venceu só porque bombardeou melhor. Venceu porque entendeu que, no século XXI, as guerras são ganhas ou perdidas também nas cadeias de suprimento globais e nos índices de aprovação dos presidentes, não apenas no controle das zonas de exclusão aérea.

Restará aos estrategistas de Washington uma lição amarga: por mais mísseis que se tenha, não se pode ignorar a geografia. E Ormuz, estreito de 54 quilômetros, continua sendo o pescoço do mundo. O Irã aprendeu a apertá-lo sem sufocar completamente — apenas o suficiente para que a superpotência aceitasse um acordo que, há 40 dias, seria impensável. Davi venceu Golias. Não com uma funda/fundibulo, mas com um tanque de gasolina a US$ 4,10 o galão. E essa é uma derrota que dói mais do que qualquer bombardeio.

SP 08 ABRIL 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal – escreva aqui sobre estratégia geopolítica e geoeconomia.

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