7 DE SETEMBRO: INDEPENDENTES PARA DECIDIR O QUÊ?, por Francisco Chagas

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Em 1822, independência significava romper
formalmente com Portugal e afirmar a existência do
Brasil como Estado soberano. Quase dois séculos
depois, a questão mudou. Um país pode ter
território, bandeira, Constituição e governo próprio e, ainda assim, ter sua
capacidade de decisão limitada por forças que não controla.


Independência política não significa, necessariamente, soberania plena.
Aprendi isso muito antes de conhecer o conceito. Nasci no sertão, numa família
pobre. A seca, a falta de trabalho, a migração e a luta pela sobrevivência
ensinaram que a liberdade não é apenas um direito escrito: depende das
condições materiais que permitem exercê-la. Quem não controla minimamente
as condições da própria existência tem sua liberdade condicionada pela
necessidade.
O mesmo princípio vale para uma nação.
No século XXI, soberania significa, antes de tudo, capacidade de decidir sobre
o próprio futuro. E essa capacidade se sustenta em sete dimensões
inseparáveis.
A primeira é a soberania econômica: poder definir um projeto de
desenvolvimento, estabelecer prioridades e fazer escolhas que não estejam
permanentemente subordinadas a interesses externos.
A segunda é a soberania financeira: controlar instrumentos de crédito,
investimento e financiamento capazes de sustentar as decisões estratégicas do
país. Sem recursos para financiar suas escolhas, a autonomia política se torna
limitada.
A terceira é a soberania industrial: preservar e ampliar a capacidade de
produzir, inovar e gerar conhecimento. Um país que depende de outros para
bens essenciais, máquinas, insumos e tecnologias estratégicas reduz sua
margem de decisão. Desindustrialização também é perda de soberania.
A quarta é a soberania energética: Petróleo, gás, eletricidade,
biocombustíveis e novas fontes de energia não são apenas mercadorias. São
instrumentos de poder. Controlar a energia é controlar parte das condições do
desenvolvimento.
A quinta é a soberania tecnológica: talvez a fronteira mais decisiva do nosso
tempo. Inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, computação,
sistemas digitais e dados já definem poder econômico e geopolítico. A
dependência tecnológica cria uma forma de subordinação que não precisa de
ocupação territorial.
A sexta é a soberania militar e estratégica: capacidade de proteger território,
recursos, fronteiras e interesses nacionais. Defesa não é militarização. É
condição para que um país possa sustentar suas decisões diante de pressões
externas.
E há uma sétima dimensão, cada vez mais determinante: a soberania cultural
e informacional.
Quem controla tecnologias, plataformas, algoritmos e fluxos
de informação possui capacidade de influenciar não apenas mercados, mas
percepções, comportamentos e escolhas políticas. Uma sociedade que perde
autonomia sobre a produção e circulação do conhecimento pode perder parte
de sua capacidade de decidir sem perceber.
Essas dimensões não existem isoladamente. Não há soberania tecnológica
sem indústria; não há indústria forte sem financiamento; não há
desenvolvimento sem energia; não há autonomia estratégica sem defesa; e
nenhuma soberania se sustenta quando uma sociedade perde a capacidade de
produzir conhecimento e interpretar criticamente a realidade.
É por isso que a soberania pode ser perdida sem que um soldado estrangeiro
atravesse a fronteira.
Ela pode se dissolver lentamente pela dependência financeira, pela
desindustrialização, pela transferência de ativos estratégicos, pela submissão
tecnológica, pela fragilização da infraestrutura nacional ou pelo controle externo
de informações e dados.
Mas soberania não é apenas aquilo que podemos perder. É também
aquilo que podemos reconstruir
.
O Brasil reúne condições excepcionais: território, população, recursos naturais,
energia, agricultura, indústria, ciência, universidades, biodiversidade e um
grande mercado interno. Temos potencial para ser uma potência econômica,
tecnológica e ambiental.
O desafio é transformar potencial em projeto nacional.
Por isso, o 7 de Setembro deveria ser mais do que uma celebração do
passado. Deveria ser uma pergunta sobre o futuro.
Somos independentes. Mas temos poder para decidir sobre aquilo que
determina nosso destino? Essa é a questão da soberania no nosso tempo.
A verdadeira independência não termina quando uma nação rompe seus
vínculos coloniais. Ela se completa quando um povo conquista as
condições para decidir com liberdade o seu próprio caminho.


SP 7 de setembro 2026
FRANCISCO CHAGAS
cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex-deputado federal e vereador

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