Por Eliara Santana (*)
Tudo começou a partir de um temor antigo de grupos católicos; tornou-se um rumor incômodo e se espalhou feito pólvora. De antemão, é preciso esclarecer que o candidato Flávio Bolsonaro não mencionou a intenção de tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Ele não. Mas, no entorno dele, houve muitas manifestações nesse sentido, e até mesmo agressões violentas à imagem da Santa, num passado recente. Tudo isso se potencializou a partir de um fato que levou ao resgate de outro, e a vinculação foi explosiva.
O fato recente: em agosto de 2026, num vídeo justificando a ausência do debate da Band, Flávio Bolsonaro disse que, ao assumir a Presidência da República, o seu primeiro ato seria decretar que a nação pertence a Jesus Cristo. Essa declaração, aparentemente piedosa e inocente, esconde camadas e camadas de cunho teológico ultraconservador e afronta a laicidade do Estado brasileiro, que é prevista pela Constituição. E acendeu, claro, o temor em determinados grupos da Igreja Católica, observadores e estudiosos que são dessas camadas.
O fato passado: o Projeto de Lei 2.623/2007, que foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, sugeria alterar a lei do feriado de 12 de outubro para substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A junção dos dois fatos foi o que bastou para cristalizar a desinformação e a confusão geral sobre a Padroeira, a partir de um medo legítimo e consolidado por várias ocorrências.
Nossa Senhora Aparecida tem um lugar cativo no coração de grande parte dos brasileiros, daí a comoção. Essa história começa em outubro de 1717, quando pescadores encontraram uma imagem quebrada de Nossa Senhora, feita em terracota, no momento em que puxaram a rede jogada no Rio Paraíba do Sul, em São Paulo. Não vieram peixes, mas veio parte da imagem.
Ao jogarem novamente a rede, veio a parte que estava faltando, e com ela, uma quantidade imensa de peixes. Como a Santa “apareceu”, recebeu o nome de Nossa Senhora Aparecida; rapidamente, foi ganhando muitos devotos, que relatavam seus milagres. Em 1745, foi erguida uma pequena capela para guardar a imagem, e teve origem a cidade de Aparecida. Em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio XI, Nossa Senhora Aparecida foi reconhecida como a Padroeira do Brasil.
Agora, numa grande polêmica às vésperas da eleição, alguns pontos que são essenciais para compreender o conjunto dos fatos e o contexto sem ficar fazendo ilações e análises ao sabor do momento.
1 – O temor de retaliações e perseguições existe há muito tempo
Como sinalizou a jornalista Daniela Lima, do UOL. num robusto levantamento, a Igreja Católica já monitorava ataques e perseguições desde 2019. Segundo ela, no programa Pulso Político, “ao longo de sete anos, a Igreja Católica no Brasil foi debatendo internamente o uso do discurso nessas igrejas neopentecostais de colocar pessoas que trabalhem a favor da fé dentro do aparelho do Estado”.
Há estudos e levantamentos documentais sobre intolerância religiosa e ataques a templos, além de estudos aprofundados sobre a Teologia do Domínio. Por tudo isso, a fala de Flávio Bolsonaro despertou todos os alertas na cúpula da Igreja – para além da desinformação sobre a retirada do título de padroeira.
2 – Ataques à Padroeira e à CNBB já ocorreram
Segundo o jornal Brasil de Fato, bispos e outros integrantes da CNBB receberam um relatório, no dia 28/09, elencando 58 ataques da extrema direita contra os católicos do país, desde 2018. O documento foi produzido pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), que é ligada à Igreja Católica, e os ataques foram documentados numa linha temporal.
Segundo o relatório, “os documentos reunidos mostram que, desde pelo menos 2018, a conferência, seus dirigentes e suas campanhas pastorais são alvos de acusações financeiras, de associação ao PT ou ao comunismo e de desqualificação religiosa… A Campanha da Fraternidade aparece repetidamente como ocasião para boicotes e mobilização pública, inclusive com orientações para não contribuir com a coleta”.
Em relação diretamente a Nossa Senhora Aparecida, também houve ataques expressivos e brutos:
– 1978: no dia 16 de maio, o local onde ficava a imagem original de Nossa Senhora Aparecida foi invadido, e a imagem foi quebrada em pedaços. A imagem foi restaurada no MASP (Museu de Arte de São Paulo).
– 1995: em 12 de outubro, o bispo neopentecostal Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem da santa durante o programa “Show da Fé”, exibido pela Rede Record, e proferiu muitos insultos.
– 2012: um monumento com a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi atacado a marretadas em Águas Lindas de Goiás.
– 2014: várias imagens foram destruídas em ataques contra igrejas de Minas Gerais.
– 2018: a pastora Zélia Ribeiro, de Botucatu, destruiu uma imagem de Nossa Senhora a marteladas.
3 – Doutrina Social da Igreja e o posicionamento na eleição
Desde meados de setembro começaram a circular manifestações de grupos católicos chamando a atenção para a necessidade de um voto consciente, sem amarras e sem ódio, o que ganhou projeção com o vídeo divulgado por bispos da CNBB Regional Norte, pedindo o voto pela democracia e ressaltando que “as igrejas não são currais eleitorais”. O vídeo viralizou e ajudou a mobilizar os grupos católicos.
No dia 24, a CNBB publicou um vídeo, com um posicionamento firme pelo voto consciente e pela defesa da democracia, pela voz do Cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência.
Em todas essas manifestações oficiais, a Doutrina Social da Igreja (DSI), mencionada inclusive por Dom Jaime Spengler, é um fio condutor discursivo comum. A DSI é um conjunto de ensinamentos sobre a vida do homem e da sociedade, que articula o conhecimento das ciências humanas e os ensinamentos do Evangelho e da Tradição da Igreja; ela foi apresentada pelo Papa Leão XIII, em 1891, na Encíclica Rerum Novarum, que trazia um posicionamento contra a exploração dos trabalhadores na Revolução Industrial. A Doutrina Social da Igreja reforça o posicionamento a favor da justiça e do bem comum.
4 – Teologia do Domínio e entrelinhas
A afirmação recente de Flávio Bolsonaro sobre entregar o Estado ao Senhor Jesus aguçou os ouvidos e os olhos de quem já estava atento àquilo que fica nas entrelinhas. Como deixou claro o bispo Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da diocese de Campos e que integra a Pastoral da Saúde e a Comissão para o Laicato da CNBB, em entrevista à coluna de Monica Bergamo sobre a declaração de Flávio. Segundo o religioso: “O candidato disse que este será o seu primeiro ato de governo. É uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões. O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos? Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar. A liberdade religiosa e de crença é um dos princípios da Constituição brasileira e interessa a todas as religiões. Se um não é respeitado em sua religião, ninguém mais será”.
É claro que Flávio Bolsonaro não tem estofo para entender as prerrogativas e as bases complexas da Teologia do Domínio, mas parte do seu entorno tem e é embasada por ela. Isso, sem dúvida, já está no radar da Igreja Católica, que tem um conjunto de teólogos e pesquisadores brilhantes e densos.
Em linhas bem gerais, a Teologia do Domínio é um conjunto teórico que tem origem em movimentos evangélicos ultraconservadores dos EUA. Grosso modo, essa teoria prega o domínio do mundo por esse cristianismo extremista – é uma corrente político-religiosa que prevê a submissão das leis civis e do Estado à autoridade cristã ultraconservadora e fundamentalista. Ela se expressa em certo ativismo político e na expansão das bancadas religiosas, ocupando os espaços de poder.
5 – Medo de princípios cristãos orientadores do voto?
Segundo a Revista Forum, a Diocese de São João da Boa Vista, em São Paulo, distribuiu aos fiéis uma cartilha, cujo tema é “Como preservar a democracia?” Que traz “orientações diocesanas” para o voto nesta eleição de 2026. A cartilha preconiza os valores cristãos e se alinha à defesa da democracia, dos mais pobres e do meio ambiente.
O material despertou o ódio dos bolsonaristas, que dizem que ele prega o voto em Lula. A cartilha divulgada pela Diocese mostra os “critérios para escolhas de candidatos com base em valores cristãos”, todos fundamentados nas passagens bíblicas. São os listados a seguir:
“Um Projeto fundamentado no amor – “O amor é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13, 10). Não votem em candidatos que propagam ódio, defendem pena de morte, armas indiscriminadas, discriminam mulheres, negros, indígenas e pobres ou que neguem a crise climática.”
“Um Projeto fundamentado no perdão e na misericórdia –“Todos vocês são irmãos” (Mt 23, Não votem em pessoas que defendam projetos que incentivam a violência como solução, pois isso aumenta a insegurança e atinge principalmente os mais vulneráveis.”
“Um Projeto fundamentado na promoção da VIDA, maior dom que Deus nos deu – “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Votem em pessoas que defendam a vida desde a concepção até a morte natural, rejeitando aborto, redução da maioridade penal, eutanásia e injustiças sociais que causam morte evitável. Valorize aqueles e aquelas que defendem a moradia como direito inalienável e não como mercadoria.”
“Um Projeto fundamentado no serviço aos mais pobres – “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40). Priorizem candidatos com compromisso genuíno com os mais necessitados, refletindo a opção preferencial pelos pobres, proposta por Jesus no Evangelho.”
“Um projeto que respeite o meio ambiente. Apoiem projetos que combatem desmatamento, poluição e perda de biodiversidade, garantindo justiça ambiental e proteção dos biomas, especialmente em favor dos mais vulneráveis.”
Sinceramente, não entendo a raiva dos bolsonaristas: se o candidato Flávio Bolsonaro pratica e difunde todos esses preceitos, então, não há motivos para preocupações…
6 – A jornalista jogada aos leões bolsonaristas
De modo covarde, a jornalista Maria Cristina Fernandes foi jogada aos leões. Num programa da GloboNews, ela disse que grupos católicos tinham o temor de grupos evangélicos que estariam mobilizando um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Não mentiu, não divulgou fake news e não mencionou Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, a Rede Globo fez uma nota e desautorizou o que a jornalista disse.
Flávio Bolsonaro, num ato em Goiânia, atacou a CNBB e disse que o que estava sendo divulgado foi produzido por setores da Conferência em conluio com o PT. Perdeu a máscara de “moderado”, tão bem construída pela mídia.
Por que pedido de voto cristão e humanitário da CNBB incomoda?
Feito esse compilado para entender a questão complexa e polêmica, que extrapola era muito a abordagem “fato ou fake?”, deixo perguntas que permanecem sem esclarecimento:
Por que o pronunciamento da CNBB e dos bispos católicos em prol de um voto consciente, que se baseie em valores cristãos e humanitários, sem disseminar o ódio, incomodou tanto Flávio Bolsonaro e sua campanha?
Por acaso, os valores cristãos não são universais? A campanha de Flávio não contempla valores como o bem comum e o compromisso com a verdade e a defesa da vida?
O temor dos católicos não nasceu por acaso, nem foi fruto de “fake news”: ele é bem fundamentado e tem raízes no ódio e no desrespeito disseminados diuturnamente pelo bolsonarismo no Brasil.


