Antes de responder, vale lembrar um fato. Nos Estados Unidos, a defesa da soberania nacional é tratada como um valor inegociável. A Constituição define o crime de traição de forma extremamente restrita, e a legislação prevê penas severas para quem for condenado por esse delito, inclusive a pena de morte.
Sou frontalmente contra a pena de morte. Menciono essa previsão apenas para mostrar a importância que os Estados Unidos atribuem à defesa de sua soberania nacional, jamais como defesa desse tipo de punição.
Agora imagine a seguinte situação.
Um senador americano elabora um documento de 86 páginas e o entrega a um governo estrangeiro. Nesse documento, pede que medidas econômicas prejudiciais ao seu próprio país sejam adiadas para depois das eleições, para que não fortaleçam politicamente seu adversário.
Como a imprensa reagiria? Como reagiria o Congresso? Como reagiriam os eleitores? E como se posicionariam as instituições americanas diante de uma atitude como essa?
Essa não é uma hipótese inventada.
Foi exatamente isso que ocorreu no Brasil. O senador Flávio Bolsonaro encaminhou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) um documento defendendo que a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros fosse adiada por 180 dias. O motivo alegado não foi proteger a economia nacional, mas evitar que uma medida prejudicial ao Brasil fortalecesse politicamente o presidente Lula durante o processo eleitoral.
A lógica do documento é estarrecedora.
Ele parte do reconhecimento de que as tarifas prejudicam o Brasil. Se não causassem prejuízo, não haveria razão para pedir seu adiamento. O problema, portanto, não seria o dano à economia brasileira, mas apenas o momento politicamente mais conveniente para que esse dano ocorresse.
É difícil imaginar demonstração mais explícita de que interesses eleitorais foram colocados acima dos interesses nacionais.
Quem paga a conta de tarifas impostas aos produtos brasileiros não é um partido político. São trabalhadores, produtores rurais, empresários, exportadores e milhões de famílias que dependem do crescimento da economia.
Infelizmente, esse episódio não parece ser um fato isolado. Nos últimos anos, integrantes da família Bolsonaro têm buscado apoio de autoridades estrangeiras para pressionar instituições brasileiras, defender sanções contra o país e internacionalizar conflitos que deveriam ser resolvidos exclusivamente pelo povo brasileiro e por suas instituições.
Cada cidadão tirará suas próprias conclusões sobre esse comportamento. A minha é clara: soberania nacional não pode ser objeto de barganha política nem instrumento de disputa eleitoral.
Também causa indignação a ausência de respostas institucionais compatíveis com a gravidade desses fatos. Muitos brasileiros se perguntam por que, até agora, não foram adotadas medidas investigativas mais rigorosas em relação a esse caso. Essa percepção alimenta dúvidas sobre a igualdade de todos perante a lei e reforça a necessidade de uma Justiça que seja, além de independente, percebida como verdadeiramente imparcial.
Não defendo perseguições. Defendo igualdade. Se a lei vale para uns, deve valer para todos.
O Brasil precisa recuperar um princípio que deveria unir pessoas de todas as correntes políticas: a defesa incondicional da soberania nacional.
Podemos divergir sobre economia, políticas públicas, ideologias ou eleições. O que não podemos aceitar é que brasileiros recorram a governos estrangeiros para pressionar o próprio país ou para tentar obter vantagens políticas às custas de prejuízos para a Nação.
A democracia se fortalece quando as disputas são resolvidas pelo voto, pelo debate e pelas instituições brasileiras — nunca pela intervenção ou pela pressão de interesses externos.
No fim, a pergunta continua de pé.
Se isso acontecesse nos Estados Unidos, como essa atitude seria tratada?
Talvez a resposta ajude a explicar por que a defesa da soberania nacional deve estar acima de qualquer projeto de poder.
SP 07 julho de 2026
FRANCISCO CHAGAS, cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex deputado federal e vereador


