MILITÂNCIA PETISTA: para vencer, precisamos falar menos aos iniciados e mais aos desgarrados, por Francisco Chagas

Reprodução IA

“Um homem procurava a chave de casa debaixo de um poste. Um vizinho perguntou: ‘Você perdeu a chave aí?’ O homem respondeu: ‘Não. Perdi lá no escuro.’ Intrigado, o vizinho perguntou: ‘Então por que procura aqui?’ E ouviu a resposta: ‘Porque aqui tem luz.’

Essa pequena história diz muito sobre a política. E, em certa medida, também fala de nós.

A militância petista tem uma tendência compreensível: falar com quem já concorda. Fazemos reuniões com companheiros, debatemos em grupos de afinidade, compartilhamos conteúdos entre pessoas que pensam parecido. É confortável. É acolhedor. É onde encontramos reconhecimento e concordância.

Mas a eleição não será decidida aí.

Se 2026 repetir o grau de polarização que marcou 2022, o resultado será definido por uma parcela relativamente pequena do eleitorado. Não pelos petistas históricos. Não pelos bolsonaristas mais fiéis. A disputa será decidida por milhões de brasileiros que não vivem a política como nós vivemos.

São trabalhadores que passam o dia tentando garantir o sustento da família. São jovens preocupados com oportunidades. São mães e pais preocupados com o preço dos alimentos, a qualidade dos serviços públicos e a segurança dos filhos. Gente que acompanha a política de forma fragmentada e que faz perguntas simples, mas decisivas: minha vida melhorou? Estou trabalhando? Meu salário rende mais? Tenho esperança de um futuro melhor?

É nesse terreno que a eleição será ganha ou perdida.

Enquanto discutimos política dentro das nossas bolhas, existe uma enorme parcela da população que continua avaliando o governo a partir da experiência concreta do dia a dia. E essas pessoas não vão necessariamente procurar a militância. Somos nós que precisamos procurá-las.

Nossa principal tarefa não é convencer quem já está convencido. É dialogar com quem ainda tem dúvidas. É transformar números e indicadores em fatos concretos da vida real. É mostrar como a valorização do salário mínimo, a geração de empregos, os programas sociais e os investimentos públicos impactam a mesa das famílias, o orçamento doméstico e as perspectivas para o futuro.

Mas existe uma condição para que esse diálogo funcione.

Ninguém muda de opinião porque foi humilhado. Ninguém é convencido por ironias ou insultos. Quando tratamos quem pensa diferente com desprezo, fechamos portas que precisaríamos manter abertas. Quem quer conquistar corações e mentes precisa, antes de tudo, compreender as preocupações das pessoas e respeitar suas experiências.

Isso não significa abrir mão das nossas convicções. Significa entender que política é persuasão, não pregação.

Também precisamos abandonar qualquer sentimento de acomodação. A oposição possui presença social, influência nas redes digitais, capacidade de mobilização e uma base política consolidada. Ignorar essa realidade seria repetir erros que a esquerda já pagou caro no passado.

A boa notícia é que a política continua sendo feita por pessoas. Conversas continuam importando. Relações de confiança continuam importando. O diálogo no local de trabalho, na comunidade, na feira, no transporte público, na igreja e na vizinhança continua sendo um instrumento poderoso de convencimento.

Se a eleição for decidida por dois ou três pontos percentuais, como muitos analistas acreditam e eu também, cada conversa pode fazer diferença. Cada ponte construída pode valer mais do que dezenas de discursos feitos para quem já concorda conosco.

Por isso, o desafio da militância não é apenas defender Lula. É ampliar o campo de apoio ao projeto que ele representa. É sair da zona de conforto da concordância e entrar no terreno mais difícil — e mais decisivo — da conquista.

A chave da vitória não está debaixo do poste, onde todos nós enxergamos melhor. Ela está justamente no espaço que ainda precisa ser iluminado: o coração e a consciência daqueles que ainda não convencemos.

São Paulo 11 de Junho de 2026

Francisco Chagas é cientista social vice-presidente do PT Estadual São Paulo, foi vereador e deputado federal

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