FORÇAS ARMADAS, SOBERANIA E PROJETO NACIONAL: A ENCRUZILHADA HISTÓRICA, por Francisco Chagas

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“Toda nação chega a uma encruzilhada: ou constrói poder próprio ou administra sua subordinação.”

O Brasil chegou a um ponto de decisão. Não se trata mais de ajustes pontuais, reformas administrativas ou discursos diplomáticos bem calibrados. Trata-se de definir se o país pretende existir como nação soberana em um mundo que voltou a respeitar apenas a força — ou se aceitará administrar, de forma mais ou menos elegante, a própria dependência.
Ao longo desta série, um fio condutor se impôs com clareza incômoda: as Forças Armadas Brasileiras estão presas a uma contradição estrutural. São chamadas a defender a soberania nacional, mas operam sob limites tecnológicos, doutrinários, orçamentários e políticos que restringem essa missão. Essa contradição não é obra do acaso. Ela é produto histórico de um padrão de subordinação imposto ao Brasil e à América do Sul.
A recusa em nomear o vetor real de ameaça não é neutralidade; é adaptação. A dependência tecnológica não é modernização; é controle indireto. A ausência de dissuasão efetiva não é pacifismo; é vulnerabilidade. A formação militar tutelada não é cooperação; é colonialidade estratégica. Um orçamento inchado e mal orientado não é força; é ineficiência institucionalizada. A separação entre Forças Armadas e povo não é profissionalismo; é fragilidade política. A fragmentação regional não é prudência; é convite à ingerência externa.
Esses elementos, isolados, já seriam graves. Combinados, formam um quadro claro: a soberania brasileira tornou-se condicional. Ela existe no plano formal, mas encontra limites sempre que confronta interesses estratégicos do centro do sistema internacional. E soberania condicional não é soberania — é tolerância provisória.
O mundo atual não oferece abrigo para ilusões. Tratados são ignorados, regras são rasgadas, intervenções são normalizadas e a coerção econômica e tecnológica se tornou arma cotidiana. Potências que falam em democracia no discurso operam, na prática, por meio da força. Nesse contexto, esperar respeito à soberania sem capacidade de defesa é confundir desejo com estratégia.
As Forças Armadas, gostem ou não, estão no centro dessa encruzilhada. Ou se vinculam a um projeto nacional soberano, definido politicamente, com clareza estratégica e base popular, ou continuarão operando como instituição funcional a uma ordem que limita a autonomia do próprio país que deveriam defender. Não existe terceira via duradoura.
Uma doutrina militar soberana não é um capricho ideológico. É uma necessidade histórica. Ela exige: identificação clara das ameaças; autonomia tecnológica; capacidade dissuasória real; formação estratégica brasileira e latino-americana; reforma profunda do orçamento e da estrutura institucional; integração orgânica com o povo; e reconstrução da coordenação regional em defesa. Esses elementos não são opcionais. São interdependentes.
Nada disso se constrói sem decisão política. Controle civil democrático não pode significar apenas formalidade institucional; precisa ser direção estratégica clara. As Forças Armadas devem estar subordinadas não a consensos geopolíticos externos, mas a um projeto nacional legitimado pelo voto popular e sustentado pela sociedade. Fora disso, a instituição corre o risco de ser empurrada, novamente, para zonas cinzentas da história.
O custo da ambiguidade é alto. Países que tentam equilibrar soberania retórica com dependência prática acabam perdendo ambas. Quando a pressão externa aumenta, a margem de manobra desaparece. Quando a crise chega, as limitações se revelam. E, então, a decisão já não está mais em mãos nacionais.
Este é o ponto decisivo. Ou o Brasil enfrenta o debate sobre defesa e soberania com maturidade, coragem e participação popular, ou continuará adiando uma escolha que o mundo já fez por ele. Não se trata de militarizar a política, mas de politizar a defesa. Não se trata de desejar conflitos, mas de impedir que eles sejam impostos.
A história é implacável com nações que terceirizam sua própria defesa. Soberania não se delega. Não se compra pronta. Não se mantém por inércia. Ou se constrói conscientemente — com povo, projeto e poder real — ou se perde sem anúncio formal, mas com consequências duradouras.
O Brasil ainda pode escolher. Mas o tempo da ambiguidade está se esgotando.
São Paulo, Fevereiro de 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal – escreve aqui sobre defesa e soberania nacional

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