Ato em São Paulo reúne cerca de 500 em defesa do direito à migração e da soberania nacional.

Cerca de 500 pessoas participaram, na tarde do sábado, 14 de março, em São Paulo, da Jornada Continental em Defesa do Direito à Migração e da Soberania Nacional. O ato ocorreu nas escadas do Teatro Municipal, na praça Ramos de Azevedo, e contou com mais de 25 entidades e partidos, com o deputado federal Rui Falcão (PT) e as vereadoras paulistanas Luna Zarattini (PT) e Luana Alves (PSOL).

Ao final, os participantes adotaram uma declaração, que – após apresentar o terrível cenário aberto com a ofensiva bélica de Donald Trump contra os imigrantes nos EUA e contra outros povos e países do mundo, e retomar as propostas da Conferência Continental pelo Direito à Migração, realizada no México em 2025 – conclui: “A defesa dos migrantes é inseparável da defesa da autodeterminação dos povos. Hoje, levantamos a voz para convidar e convocar todas organizações populares, sindicais, comunitárias e de direitos humanos a se integrarem nessa luta. A luta continua! Não à Guerra! Extinção do ICE! Migrar não é crime, é um direito!”

Ato plural

Após uma semana de chuvas em São Paulo, o sábado amanheceu ensolarado, propiciando um ato colorido, vibrante e combativo. Ele começou com a apresentação de dois grupos musicais de imigrantes. O primeiro foram as Lakitas Sinchi Warmis, grupo de música andina. Depois, apresentou-se o Dueto Mala Yerba, com músicas latino-americanas.

A condução do ato político ficou a cargo de Bárbara Corrales, a Babi, do PT-SP, de Patrícia Prudêncio Torrez, militante do DAP Associação (Diálogo e Ação Petista), e de Constance Salawe, vice-presidente do Conselho Municipal do Imigrante (CMI). Para Babi, “a atividade foi muito representativa e potente, dando base para unirmos os diversos grupos e ampliarmos a campanha de apoio aos imigrantes e da defesa da soberania nacional”.

A presença de diversas entidades sindicais marcou a atividade. O companheiro Pipoka, da CUT-SP, destacou a importância da Jornada Continental frente “à violação de direitos promovida pelo governo Trump”. Juliana Salles, da CUT Nacional e do Sindicato dos Médicos de SP, destacou a greve histórica dos trabalhadores estadunidenses contra o ICE (polícia antimigratória dos EUA), que obrigou Trump a recuar, e alertou para a disseminação da política trumpista, como nos casos das prefeituras de São Paulo e Florianópolis, que perseguem imigrantes. Luiza Owhoka, dos Condutores de Guarulhos, defendeu a liberdade plena para a migração: “O mundo foi criado livre. Quem criou as fronteiras foi o homem.” Para Thiago Tanji, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, “a voz dos oprimidos tem de ser mais forte do que a de meia dúzia de poderosos”.

A difícil situação dos imigrantes em São Paulo apareceu em diversas falas. O companheiro Dito, da Central de Movimentos Populares, lembrou do assassinato, há um ano, de um ambulante senegalês Ngagne Mbaye pela polícia, e denunciou que o Ministério Público pediu arquivamento do processo, afirmando que a PM agiu em legítima defesa. “Estamos hoje aqui expressando nosso repúdio a essa violência”. Bélgica, imigrante venezuelana do MTST, citou a luta por acesso à educação e saúde.

Roque Pattussi, do Cami (Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante), reforçou a ideia de que imigrantes e refugiados são todos trabalhadores. “Querem nos dividir. Temos de resistir.”. O presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Adilson Sousa, propôs, em sua fala, a organização de uma grande audiência pública para discutir as condições dos imigrantes no Brasil. “Somos todos imigrantes”, afirmou.

“Imigrantes têm de ser liberados”

Ao criticar a política do governo de Trump (“usa a linguagem da guerra”), salientando que o Brasil está na mira, o ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP) manifestou apoio à decisão do governo Lula de cancelar o visto de entrada no país de Darren Beattie, conselheiro do presidente dos EUA. Abdul Jarour, da Identidade Humana, denunciou “a violência que atravessa fronteiras para criminalizar a migração, quando as pessoas só buscam uma vida digna”.

Luana Alves, vereadora do PSOL, afirmou que a prefeitura paulistana “tem um projeto racista”. “Na cidade dos mil povos, enfrentamos uma PM e uma guarda municipal com discurso e ação fascistas e xenófobos contra os imigrantes”, disse. A vereadora petista Luna Zarattini ressaltou a importância do “ato de denúncia contra a violência que atinge os imigrantes” e disse, que diante dos embates colocados, “reeleger Lula neste ano é dar um recado internacional: Fora Trump! Fora ICE!”

O deputado federal Rui Falcão (PT) partiu da atualidade do conceito de “imperialismo”, citando as milícias do ICE, o Escudo das Américas (Trump e presidentes de direita da América Latina) e a proposta de muralha antimigração no Chile. “Fizemos audiência pública pelo acolhimento e inserção dos imigrantes, e há um programa com duração de um ano. Temos de repeti-la”, declarou. Criticando o sistema político no Brasil, defendeu também uma Constituinte Soberana.

“O Brasil tem acolhimento, mas também tem discriminação”, afirmou Markus Sokol, do DAP Associação. Em sua fala, destacou a amplitude da Jornada, com atividades nos EUA, oito países do Caribe e outros seis da América Latina, incluindo o Brasil – com atividades organizadas em 11 Estados. Em seguida, explicou: “Nos dirigimos aos governos para que acolham os imigrantes”, incluindo o brasileiro, que adotou em 2025 uma política dirigida a receber imigrantes. “Nossa ação contou, mesmo se fomos um grão de areia”. E prosseguiu: “Os imigrantes do Haiti retidos em Guarulhos têm de ser liberados” (todos os haitianos foram liberados para entrar no Brasil no início da noite).

Organização

Em São Paulo, o ato foi organizado pelo Comitê Paulista da Jornada Continental, composto por CUT, PT, DAP, Condepe, pelos sindicatos dos Jornalistas, dos Médicos, dos Padeiros, dos Servidores Municipais, SindSaúde e Sinpro Osasco; centros de apoio a migrantes – como o Cami, a Federação Bolivianos Unidos do Brasil, a União Social de Imigrantes Haitianos, a Rede dos Trabalhadores Imigrantes Refugiados e Apátridas, a União Africana Alkeebulan, a Identidade Humana, o Instituto Missão Batista de Guaianazes, a Associação de Mulheres Imigrantes Luz e Vida – e dirigentes do Conselho Municipal dos Imigrantes de São Paulo; pelo Fórum dos Ambulantes, pelo Círculo de Comunicadores Imigrantes (CCI) e pela Rede MILBI+ (Rede de Apoio a Migrantes Internacionais LGBTQI+ Brasil).

Barbara Babi Corrales, Paulo Zocchi

Manifesto

Em seu encerramento, o ato aprovou o Manifesto que trazemos a seguir.

Declaração de São Paulo da Jornada Continental pelo Direito à Migração e a Soberania Nacional

Caras companheiras e companheiros,
Trump já deportou 600.000 migrantes, e estima-se que 1,9 milhão se auto-deportaram fugindo do terror das prisões “sob custódia” do ICE, polícia migratória dos Estados Unidos. O número de brasileiros deportados em 2025 foi o maior dos últimos anos, com mais de 3 mil pessoas e, segundo o Itamaraty, mais de 2,5 mil se encontram em prisões em função de situação migratória.
Ele fez do ICE um aparato para caçar, emboscar e sequestrar migrantes em locais de trabalho e porta de escolas. Nas prisões do ICE, milhares são submetidos a um tratamento desumano, inclusive menores de idade. Pelos menos 36 já morreram nessas prisões no último ano.
Hoje nos reunimos nas escadarias do Teatro Municipal nesta Jornada Continental pelo Direito à Migração e a Soberania Nacional. Sua origem é uma Conferência Continental que, nos dias 27 e 28 de setembro de 2025, reuniu 127 delegados de nove países do continente na Cidade do México, que decidiu promover esta atividade, com atos simultâneos em várias cidades do continente. Esta jornada ocorre em uma situação muito grave no mundo.
O ICE, com esses métodos fascistas, assassinou Renée Good e Alex Pretti em Minneapolis, quando eles se manifestavam em defesa dos migrantes e de seus direitos, como fazemos aqui hoje. A sua luta nos inspira, como a de milhares de jovens e trabalhadores, militantes dos movimentos populares e sindicais que se levantaram em mais de 300 cidades dos Estados Unidos contra Trump, por “Fora ICE” e “Extinção do ICE!”
Essa “guerra ao inimigo interno” que Trump promove dentro dos Estados Unidos é a continuação da sua política de guerra no exterior, que sustentou o genocídio em Gaza, promovido por Israel, e agora leva a morte e a destruição ao Irã, que sustenta a guerra sem fim na Ucrânia, que multiplica os conflitos armados em todos os continentes.
É a política do imperialismo predatório que ataca a soberania das nações da América Latina e do Caribe. No início do ano, bombardeou a Venezuela e sequestrou o presidente Maduro – um ato de guerra – para controlar o petróleo daquele país. Tenta “asfixiar” Cuba impedindo a entrada de petróleo. Ameaça a Colômbia, o México, e mantém uma enorme armada no mar do Caribe em nome do combate ao “narcoterrorismo”.
A política imperialista é a principal causa das migrações forçadas: as políticas de “livre comércio”, de “ajustes estruturais”, de “guerra ao narcoterrorismo” e de “sanções”. São políticas que deslocam populações inteiras e são utilizadas sistematicamente contra a soberania nacional.
No Brasil, o governo Lula criou o positivo programa “Aqui é Brasil”, mas precisa ter mais recursos para o atendimento das necessidades dos brasileiros retornados. Em novembro, uma delegação desta campanha esteve numa audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara que discutiu propostas, inclusive com o governo. Agora é preciso voltar lá com uma nova audiência para acompanhar os resultados concretos.
Neste momento, Trump levanta uma ameaça contra o Brasil para combater o suposto “narcoterrorismo”, com os quais se pretende classificar o PCC e o Comando Vermelho, aprofundando uma política de ataque à soberania nacional no famigerado “Escudo das Américas”, que reuniu nos Estados Unidos na última semana os presidentes “alinhados” a Trump.
Mas Trump não pode tudo. A verdade é que o imperialismo estadunidense está em uma profunda crise. Ele é rejeitado em seu próprio país. Estadunidenses, negros e brancos, mulheres e homens, jovens saem às ruas em defesa dos migrantes e contra sua política.
A defesa dos migrantes é inseparável da defesa da autodeterminação dos povos. Hoje levantamos a voz para convidar e convocar todas organizações populares, sindicais, comunitárias e de direitos humanos a se integrarem nessa luta. A luta continua!
Não à Guerra!
Extinção do ICE!
Migrar não é crime, é um direito!

São Paulo, 14 de março de 2026. Comitê Paulista da Jornada Continental

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