Sobre Bolsonaro e a tática da camuflagem, por Charles Gentil

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E, de repente, foi só fracassar o golpe de Estado e sentir pousar na cabeça a espada da Justiça, que Bolsonaro, antes, o mito supostamente todo-poderoso, cai em desgraça e, então, adoece?

De fato, hoje, como ontem, Bolsonaro não passa de um autoritário, mas, agora, politicamente morinbundo, em franca decadência, que em uma espécie de piada insossa – agora a todo custo precisa chamar a atenção – e colocar-se no papel de vítima ( mas, saibam que depois deste declínio, deste crepúsculo longo virá, enfim, a inevitável noite do mito que, então, acompanhado de seus crimes, dormirá soterrado, enterrado, esquecido, na prisão).

Assim, presenciamos um espetáculo soberbo, magnânimo, pois, diante de nossos olhos, descortina-se todo um mundo de atrocidades que vai ficando para trás, sendo engolido pelas instituições democráticas e que tragando, todo o mal, de forma irresistível, em um redemoinho de Justiça poderoso, impiedoso com os criminosos que participaram, do levante antidemocrático do 8 de Janeiro.

Por isso, em agonia plena, extrema e no mais completo desespero, Bolsonaro, o mito decadente, que aos poucos, vai afundando-se na lama das consequências dos crimes praticados, busca, no entanto, resistir a esse vibrante e intenso, hoje, irreversível, movimento democrático em curso.

Daí porque, Bolsonaro, enquanto um militar, adota, em combate, o movimento de resistência e objetiva – mesmo em cenário adverso – , encontrar uma solução para reverter seu encarceramento na Superintendência da Polícia Federal ou melhor, atualmente, está na Papudinha, na ante-sala de seu destino: a Papuda.

Enquanto isso, Bolsonaro crê com toda a farda da alma, que o soluço é a solução.Ou seja, como o mar não está pra peixe, o negócio, neste momento, é colocar-se no papel de pescador e a partir daí aguardar com paciência, que a opinião pública – mais cedo ou mais tarde – morda a isca, por se comover com o suposto estado crítico de saúde que busca apresentar, sendo,por isso, necessário que seja-lhe concedida a indulgência dos crimes cometidos ( Bolsonaro é tão autoritário que, sob a alegação de suposta enfermidade, até o perdão quer obter na marra, seja mediante a atenuação da pena com o PL da Dosimetria ou por manobras que levem-no a ser anistiado).

Porém, será que não ocorreu a Bolsonaro pensar que, talvez, esteja, ele, acometido só de um solucinho?.Que, talvez, haja um exagero de sua parte (e há), em pretender que crises de soluço, sejam tão ou mais relevantes, que as crises Institucionais que ele promoveu – trazendo insônia aos progressistas, esquerdistas e democratas, bem como medo do futuro – quando à época, ele, o capitão especialista em matar, estrategicamente, tensionou e desharmonizou a relação respeitosa entre os Três Poderes, uma vez que, seu objetivo último era atear fogo na República e liquidar o Estado Democrático de Direito.

Logo, se naquela circunstância política favorável a estratégia de Bolsonaro era vencer a democracia, hoje, neste momento político relativamente adverso para o grupo extremista a que pertence, Bolsonaro (não esqueçam, no entanto, que ele é um militar.E militares adotam: táticas, para cumprir objetivos de curto prazo e estratégias, para alcançar objetivos de longo prazo), por isso, adota, neste novo contexto, a busca por anistia ou dosimetria, taticamente, como objetivo primário.

Aliás, motivo pelo qual, vende a ideia de que está doente, que é um injustiçado, um idoso fragilizado com intermináveis crises de soluço, que necessita de cuidados especiais no conforto de uma prisão domiciliar, enfim, assistimos, neste novo cenário, Bolsonaro abrigar-se na trincheira da vitimização para, assim, atingir-se o alvo tático que é obter clemência, isto é, a anistia ou até mesmo, se não perdoado, ao menos, a redução da pena e, então, reconsiderado na Justiça o peso de seus atos antidemocráticos ( após esse recuo tático em combate) voltar, com toda a carga, a infernizar o Brasil com sua falta de escrúpulos para, pacificamente, abandonar o poder.

Que fique claro: Bolsonaro continua em guerra. Acontece que o capitão apenas mudou o tom e o método, porque o cenário e as circunstâncias para a luta também mudaram.

E isto ocorre porque, hoje, encontra-se caminhando no terreno minado dos valores democráticos que se restabelecem.Com isso, o capitão precisa adaptar seus recursos e munições ao meio que atua e o teatro de operações atual requer, então, que nesta selva exuberante da democracia, o capitão possa disfarçar-se, em linguagem militar trata-se da tática da camuflagem.

Assim, a camuflagem funde a roupa com o ambiente e disfarça o soldado para que não seja visto e é, exatamente, o que Bolsonaro faz, neste novo cenário em que a democracia desponta com vigor; o capitão para não ser visto funde-se com o meio e assume o disfarce de cidadão debilitado.

Desta forma, camuflado de civil, idoso, adoecido, que necessita de auxílio à sua saúde precária busca, com isso, comover a opinião pública de que foi vítima de uma perseguição atroz; como atriz, sua mulher, disfarçados, todos, como atores, seus filhos, sua família, unidos, em sagrada comunhão e desta forma, buscam sensibilizar as pessoas com infundadas denúncias de que se comete um crime contra o marido, uma injustiça contra um pai; ou seja, a tropa do núcleo familiar é arregimentada primeiro, na expectativa de que outros soldados se alistem, se mobilizem e se somem ao combate, à campanha, à luta para resgatar o comandante, o capitão,preso, capturado pelo adversário.

Mas, esta operação militar para lograr êxito deve manter-se, até o fim, sob o manto das boas intenções ( ainda que sob as supostas boas intenções se oculte apenas o uniforme e a missão da qual estão incumbidos); por isso, a tropa mais próxima deve ser vista tão somente como família, o capitão está e deve permanecer, simplesmente, camuflado de cidadão injustiçado; o cárcere deve ser interpretado como castigo e martírio, ao invés, de justa punição.

Assim, está roupagem do vitimismo de Bolsonaro é, justamente, o disfarce, a camuflagem adotada em um relativo ambiente inóspito de combate, de modo que, não se deve esquecer que sendo o propósito da camuflagem o de tornar, no combate, o soldado invisível ao fundir-se com o meio trata-se, portanto, de uma tática militar, que tem como objetivo principal enganar o inimigo quanto à posição correta e intenções das forças militares.

Motivo pelo qual, apesar de Bolsonaro estar em franca decadência, nem por isso, deve ser subestimado.

Isto porque, quando Bolsonaro substitui uma imagem por outra, ou seja, apresenta-se como um cidadão adoecido, ao invés, de mostrar-se como um militar, um capitão, com invejável vigor físico; quando apresenta-se inerte, fragilizado, em um leito de hospital, ao invés de exibir na vitrine, a imagem de status e poder como, antes, quando mostrava-se em atividade de lazer conduzindo jet ski.

Ao apresentar-se agora em silêncio, enfermo, em luta particular contra uma moléstia, no lugar daquele presidente que, em peleja pública contra seus adversários e desafetos, vociferava – sem papas na língua – a torto e direito,falando grosso e, autoritariamente, rasgando mesmo o verbo, inclusive, com jornalistas; quando Bolsonaro, agora, apresenta-se assim: simples, humilde, frágil, doente e, por meio de terceiros, pedindo perdão ( notem que ele mesmo nunca pede perdão, para o autoritário tal pedido deve ser terceirizado porque tal ato no imaginário popular, não seria interpretado como humildade,mas,sim, humilhação), portanto, em pleno exercício de guerra, Bolsonaro, busca, camuflado, enganar seus oponentes.

E entre um soluço e outro (quase sempre um solucinho, embora por vezes, algum solução) busca-se convencer a opinião pública de que Bolsonaro, logo após ter tumultuado a República, é um coitado, um indefeso, uma vítima, quando, na verdade, a molestia de Bolsonaro é a sede doentia de poder absoluto.

Porém, para evidenciar a atual forma de combate de Bolsonaro, pergunto:

O que aconteceria se Bolsonaro fosse, por exemplo, anistiado? Será que iria operar-se um verdadeiro milagre e, então, tão repentinamente quanto ficou “enfermo” teria sua saúde restaurada?

Certamente, em um novo cenário que lhe fosse favorável, Bolsonaro, esse tirano incorrigível, não só voltaria a infernizar o Brasil com sua sede doentia de poder, mas também adotaria outras táticas para consumar sua estratégia: a de possuir plenos poderes; logo, tornar-se um ditador.

Daí porque, qualquer laudo médico privado que refira gravidade de saúde recomendando, por isso, para Bolsonaro cuidados e tratamento domiciliar deve, a fim de evitar-se fraudes, ser, de forma transparente e técnica, devidamente, escrutinado.

Isto porque, a seriedade dos crimes vinculados a Bolsonaro, não devem dar azo para que, mediante sua influência e poder político e financeiro, haja alguma manobra que por meio de eventual fraude em laudo médico, possa o criminoso furtar-se de pagar os crimes nos termos da lei, antes, aliás, crimes, tão vigorosamente, praticados.

Desta forma, se mesmo sem razão Bolsonaro se deu ao luxo de suspeitar de fraude nas urnas eletrônicas e, com isso, pretendeu afetar a credibilidade na democracia e no sistema de votação, então, eu, esse antiautoritário declarado, com razão dou-me, plenamente, ao direito de vir a suspeitar de possível eventual fraude em futuros laudos médicos privados visando, e eu suspeitarei ( e o país inteiro suspeitará), de politicamente beneficiar-se Bolsonaro, se porventura esses laudos não forem técnica e devidamente escrutinados e esclarecidos pelas autoridades competentes.

Charles Gentil
Secretário de Finanças, PED 2025
Ex-presidente do Diretório Zonal PT do Centro, PED 2019

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