A semana que pode reordenar o século
O 28 de fevereiro de 2026 pode ser lembrado como o dia em que o tempo se tornou protagonista da geopolítica. A operação coordenada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, culminando na morte do líder supremo Ali Khamenei, não foi apenas uma ação militar de alto impacto. Foi uma aposta estratégica sem zona intermediária: vitória rápida ou desgaste prolongado. Ao conclamar os iranianos a “retomarem seu país”, o presidente Donald Trump deixou claro que o objetivo ultrapassa a dissuasão. Trata-se de mudança de regime — e mudanças de regime não admitem meio-termo.
O elemento central dessa guerra não é territorial. É temporal. Se o Irã colapsar em poucos dias, a narrativa será de supremacia tecnológica e precisão cirúrgica. Se resistir por uma semana, a equação estratégica se altera profundamente. Em conflitos desse tipo, sobreviver é vencer politicamente.
A decisão de atingir diretamente o topo da hierarquia iraniana insere-se na doutrina do “choque decisivo”: produzir desorganização sistêmica antes que o adversário consiga reagir. Contudo, a história recente mostra que a decapitação de lideranças raramente garante implosão estatal. Ao contrário, pode gerar coesão nacionalista. O Irã não é um Estado improvisado. Desde 1979, construiu um aparato híbrido de poder institucional, ideológico e militar, ancorado na Guarda Revolucionária Islâmica. Essa estrutura não depende exclusivamente de uma figura, por mais central que fosse Khamenei.
Há ainda o fator logístico americano. Autoridades como o senador Jack Reed já haviam alertado para o impacto de conflitos simultâneos sobre os estoques de munições. Estudos do Center for Strategic and International Studies apontam que guerras de alta intensidade consomem mísseis de precisão mais rapidamente do que a indústria consegue repor. Se a campanha aérea se prolongar além da primeira semana sem produzir colapso, Washington enfrentará o dilema clássico: ampliar custos ou reduzir ritmo, oferecendo ao adversário tempo para adaptação.
Para Israel, o cálculo é existencial. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sempre definiu o programa nuclear iraniano e o apoio a grupos como Hezbollah e Hamas como ameaça estratégica central. A ofensiva abre a possibilidade de enfraquecer definitivamente o chamado “eixo da resistência”. Contudo, Israel carece de profundidade estratégica para uma guerra longa e multifrontal. Sua dissuasão repousa na rapidez e na contundência. Um conflito arrastado expõe vulnerabilidades civis e econômicas que nenhum governo deseja administrar por meses.
No centro dessa equação está o relógio nuclear. O programa iraniano sempre funcionou como instrumento de sobrevivência do regime. A lição histórica é simples: Estados percebidos como vulneráveis tornam-se alvos; Estados com capacidade nuclear tornam-se problemas. Se o regime concluir que apenas a dissuasão explícita pode garantir sua continuidade, poderá acelerar decisivamente seu programa. O paradoxo é evidente: uma ofensiva destinada a impedir a bomba pode transformá-la em prioridade absoluta.
Rússia e China observam com cautela estratégica. Moscou condena, mas evita envolvimento direto. Pequim teme a instabilidade energética, já que depende significativamente do petróleo iraniano. Contudo, ambos compartilham um interesse implícito: um envolvimento prolongado dos Estados Unidos no Oriente Médio reduz sua margem de manobra no Indo-Pacífico. O tempo, novamente, torna-se variável estratégica global.
Para o Brasil, os efeitos são ambivalentes. A alta do petróleo pode beneficiar exportações e empresas como a Petrobras, mas o fortalecimento do dólar pressiona o câmbio e alimenta inflação importada. Se a crise persistir, o impacto sobre a China pode reduzir a demanda por commodities brasileiras. Em crises sistêmicas, não há neutralidade econômica perfeita.
No fim, esta guerra é menos sobre o primeiro ataque e mais sobre o que permanece após ele. Se o regime iraniano desmoronar em dias, testemunharemos uma reafirmação do poder militar concentrado. Se resistir por uma semana, provará que a capacidade de absorver o choque pode ser mais decisiva do que a capacidade de produzi-lo.
Guerras modernas não são definidas apenas pela potência de fogo, mas pela duração do esforço político, econômico e industrial. Quando o tempo decide, a força inicial deixa de ser veredito. E às vezes, para reordenar um século, basta que sete dias não terminem como se imaginava.
SP março 2026
Francisco Chagas Vice- Presidente do PT Estadual
Ex-Dep Federal e Vereador da Capital


