O que os números nos dizem, e o que eles não dizem, por Pedro Além

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Reprodução

Companheiras e companheiros,

Vou começar por onde é mais difícil começar, porque militância que se respeita não é tratada como criança.

As pesquisas divulgadas nesta última semana são ruins. Não são “não tão boas quanto gostaríamos”. São ruins. Um levantamento coloca Tarcísio com 52% contra 35% de Fernando Haddad no primeiro turno, com chance de decisão já na primeira volta. Outro aponta 50% contra 32%. O terceiro, mais apertado, marca 40% contra 27%. Nas simulações de segundo turno, a diferença se mantém entre dezessete e dezenove pontos. A gestão estadual é aprovada por 60% dos eleitores e desaprovada por 33%. E, o dado mais duro de todos, 48% do eleitorado paulista afirma hoje que não votaria em Haddad de jeito nenhum, quase o dobro da rejeição registrada pelo governador.

Quem chegou até aqui e continuou lendo é exatamente com quem eu quero conversar.

Porque a pergunta que interessa não é se os números são ruins. É o que eles descrevem. E o que eles descrevem, quando a gente lê com atenção e não com o coração apertado, é uma eleição que ainda não começou.
O que 2022 provou
Em 2022, nós perdemos o estado e ganhamos a cidade. Haddad fez 54,41% dos votos válidos na capital, três milhões quinhentos e sessenta e cinco mil novecentos e vinte votos, vencendo em 44 das 58 zonas eleitorais paulistanas no primeiro turno. No conjunto do estado, Tarcísio venceu em 566 municípios contra 79 nossos.

Essa é a fotografia que interessa: a derrota estadual não foi construída aqui. Foi construída no interior, nos polos agrícolas e industriais onde a nossa presença organizada é frágil e onde a máquina dos prefeitos operou em bloco no segundo turno. Nossa cidade cumpriu a parte dela. Cumpriu com folga.

E dentro da cidade, esta região cumpriu ainda melhor. Na Zona Eleitoral 251, Pinheiros e Perdizes, a votação de Haddad ficou na faixa de 58% a 62% dos votos válidos. Não é reduto conquistado por acaso. É voto de opinião, construído em anos de disputa cultural, universitária e de serviços, num território de renda e escolaridade altas que decidiu, olhando para os dois projetos, ficar do nosso lado.

Guardem esse número.
O que 2024 ensinou, e é a lição mais importante deste artigo
Em 2024, na eleição municipal, aconteceu o seguinte na Zona 251: no primeiro turno, a candidatura de esquerda venceu com folga, 27.884 votos contra 20.715. No segundo turno, perdemos o mesmo território por 52,33% a 47,67%, 37.423 votos contra 34.090.

Agora prestem atenção no dado que deveria estar pregado na parede de todos os comitês desta cidade.

A abstenção na Zona 251, naquele segundo turno, foi de 33,63%. Trinta e oito mil setecentos e treze eleitores registrados simplesmente não foram votar. Esse contingente de gente que ficou em casa foi maior, sozinho, do que a votação total do candidato que venceu ali.

Leiam de novo. Quem ficou em casa foi mais numeroso do que quem elegeu o vencedor.

Na capital inteira, a abstenção bateu 31,54%. E o primeiro turno daquele ano foi decidido por uma margem de menos de 82 mil votos entre o segundo e o terceiro colocados, numa cidade com quase seis milhões de votantes.

Aqui está a tese central deste artigo, e eu peço que ela seja discutida em cada núcleo de base, em cada reunião de equipe, em cada roda de conversa: nós não fomos derrotados na Zona Oeste por conversão ideológica. Fomos derrotados por ausência. O eleitorado progressista de opinião não mudou de lado em massa. Ele ficou em casa. Uma parte do eleitor moderado migrou para o governismo, é verdade, e isso precisa ser enfrentado com argumento. Mas o buraco maior, o buraco decisivo, tinha nome e endereço: quase quarenta mil pessoas que já eram nossas e não apareceram.

Isso muda tudo. Rejeição consolidada se enfrenta em anos. Abstenção se enfrenta em cinco semanas de trabalho de rua bem feito.
O que temos em mãos
Vamos ser justos com o nosso próprio patrimônio, porque a autocrítica sem fazer as contas é só desânimo com vocabulário sofisticado.

Fernando Haddad teve mais de 10,9 milhões de votos neste estado em 2022. Isso não evaporou. Está represado, desmobilizado, desanimado, mas está lá.

Ele é o ministro que aprovou a Reforma Tributária sobre o consumo, coisa que quatro décadas de governos anteriores não conseguiram fazer. É quem construiu o novo arcabouço fiscal e viu o Brasil recuperar nota de crédito soberano nas três principais agências internacionais. Isso abre portas em setores do PIB paulista que nunca nos ouviram antes.

E, aqui na nossa região, ele é outra coisa ainda: é o criador do ProUni, o reformulador do Enem, o expansor da rede federal e técnica. Numa zona eleitoral cujo maior colégio eleitoral é o campus da PUC-SP em Monte Alegre, com cerca de 17.700 eleitores distribuídos em 36 seções, isso não é biografia. É programa vivo, com nome e sobrenome de gente que entrou na universidade por causa dele.
Os riscos, ditos com todas as letras
A oposição construiu uma narrativa eficiente: a de que Haddad é o “arrecadador”. Cada medida de justiça tributária, a taxação de fundos exclusivos, de offshores, das compras internacionais, foi traduzida como imposto sobre o cidadão comum. É mentira, mas é uma mentira bem contada, e mentira bem contada não se derrota com indignação. Derrota-se com resposta rápida, simples e repetida.

Há também o desgaste real do contingenciamento junto à nossa própria base social e aos movimentos organizados. Não adianta fingir que não existe. Companheiro que sentiu o corte na pele não quer ouvir dado macroeconômico, quer explicação honesta.

E há o problema de fundo: a distância entre o indicador e a geladeira. Enquanto a economia melhora nas planilhas e não melhora visivelmente no fim do mês, o discurso técnico não converte voto. Nossa tarefa é traduzir estabilidade em poder de compra, crédito acessível e juro possível, na linguagem de quem faz feira.
O que isso significa para a nossa base territorial
Nossas duas zonas exigem coisas diferentes, e tratar as duas do mesmo jeito é desperdiçar militância.

Na Zona 251, nós não temos que convencer. Temos que trazer. A prioridade é comparecimento, e só. O eixo da PUC-SP em Monte Alegre, com seus 17.700 eleitores, e o eixo comercial e cultural da Avenida Pedroso de Morais com a Rua João Moura, representado pela E.E. Fernão Dias Paes e pela E.E. Godofredo Furtado, somando outros 16.500 eleitores, concentram um contingente que, mobilizado, decide a região sozinho. Trabalho de lembrete, de transporte, de compromisso pessoal assumido no olho. Cada eleitor confirmado ali vale mais do que uma hora de debate ideológico.

Na Zona 250, a Lapa, o quadro é de disputa aberta e a conversa muda de rua para rua. Não existe um discurso único para um território onde condomínio de alta renda, comércio tradicional e comunidade vulnerável dividem o mesmo CEP. Na Lapa central, zeladoria e comércio de rua. No Jaguaré, saúde primária e custo de vida nos conjuntos habitacionais. Na Jaguara, onde a rejeição ideológica é mais dura, o caminho é zeladoria e assistência de bairro, chegando pelo concreto e não pela sigla. E os dois maiores locais de votação da zona, a ETEC Basilides de Godoy na Vila Leopoldina e a E.E. Pereira Barreto na Lapa Centro, concentram juntos mais de 13.000 eleitores e merecem presença permanente, não visita de véspera.
O que eu peço a vocês
De 1º de setembro a 3 de outubro nós temos que cobr principais locais de votação É pouco tempo e é muita rua. Então quatro pedidos objetivos:

Primeiro: parem de discutir pesquisa em grupo de WhatsApp. Pesquisa de agosto mede desânimo, não mede resultado. Quem gasta energia debatendo ponto percentual está gastando a energia que faltaria no Mercado Municipal no sábado.

Segundo: tratem a abstenção como o adversário principal, porque ela é. Trinta e oito mil pessoas em uma única zona eleitoral. Nosso trabalho não é converter bolsonarista, é encontrar o nosso que desistiu.

Terceiro: falem de vida concreta. Preço, remédio, posto de saúde, creche, ônibus, faculdade do filho. Quem quiser falar de arcabouço fiscal na fila da feira vai perder o eleitor e a manhã.

Quarto: não terceirizem a esperança. Ninguém vai vir de fora resolver a a Lapa e arredoires. Quem faz a Lapa somos nós, com panfleto na mão e sapato gasto.

Vamos perder alguma coisa nesta eleição? Provavelmente vamos perder muita coisa. Dezessete pontos não desaparecem por otimismo. Mas eu já vi este partido sair de trás, e sei distinguir uma parede de uma porta emperrada.

A Zona Oeste de São Paulo não virou território adversário. Ela ficou em casa. E gente que fica em casa não precisa ser convencida, precisa ser chamada.

Vamos chamar.

Pedro Alem Santinho
Diretório Municipal do PT, Zona Oeste, Lapa

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