Há momentos em que a guerra deixa de ser apenas confronto armado e se converte em linguagem histórica. Não inaugura necessariamente as transformações — mas as revela. Expõe tensões que vinham se acumulando nas estruturas de poder, nas cadeias produtivas, na psicologia das sociedades e na arquitetura da ordem internacional. O conflito que envolve Estados Unidos, Israel e Irã deve ser lido sob essa chave: menos como episódio isolado e mais como sintoma de uma transição histórica.
O chamado “espírito do tempo” — essa atmosfera invisível que condiciona decisões políticas e molda percepções coletivas — hoje é marcado por três vetores convergentes: insegurança estratégica, fragmentação econômica e polarização interna nas grandes potências. Não se trata apenas de rivalidade regional no Oriente Médio. Trata-se de uma ordem internacional sob tensão, onde a hegemonia já não opera com a naturalidade de outrora.
Após o fim da Guerra Fria, consolidou-se uma estrutura predominantemente unipolar. O dólar como eixo financeiro, cadeias globais integradas sob liderança ocidental, instituições multilaterais com forte influência norte-americana e supremacia militar praticamente incontestável criaram a impressão de estabilidade duradoura. A história, porém, raramente concede permanências.
As fissuras tornaram-se visíveis com a crise financeira de 2008, a ascensão asiática, o desgaste industrial interno dos próprios Estados Unidos e a intensificação da polarização política doméstica. Nesse contexto, sob a liderança associada a Donald Trump, ganhou força uma interpretação específica: se a hegemonia está sob contestação, a resposta não deve ser retração estratégica, mas demonstração inequívoca de poder. A projeção de força externa funciona também como mecanismo de recomposição de autoridade interna.
A guerra deixa de ser apenas instrumento de política externa. Converte-se em mensagem doméstica. Demonstração de capacidade, reafirmação de liderança, tentativa de restaurar confiança em um centro que já não é indiscutível.
Do outro lado, o Irã — embora distante do status de superpotência — atua como peça relevante em um tabuleiro mais amplo. Sua capacidade de mobilizar atores regionais e explorar vulnerabilidades assimétricas revela que a competição contemporânea não se mede apenas em toneladas de aço ou número de porta-aviões. Mede-se em resiliência, custo relativo e capacidade de desgaste prolongado.
Já a liderança de Benjamin Netanyahu expressa outra dimensão desse espírito histórico: a lógica da segurança permanente. Israel vive sob ameaças concretas, e sua doutrina estratégica é moldada por essa realidade. No entanto, em um ambiente internacional fragmentado, a intensificação contínua da defesa pode produzir paradoxos. A guerra moderna é altamente tecnológica — sistemas antimísseis sofisticados, inteligência artificial, drones, mísseis de precisão — mas é também intensiva em orçamento, reposição industrial e coesão social.
Quanto mais o conflito se prolonga, mais o centro da disputa se desloca do campo de batalha para a fábrica e para o Tesouro. Quem produz mais rápido? Quem sustenta cadeias de suprimento sob pressão? Quem mantém estabilidade interna diante de inflação energética e desgaste fiscal?
Nesse ponto, o Estreito de Ormuz assume papel simbólico e concreto. Não é apenas corredor marítimo: é nó geopolítico da energia global. Qualquer instabilidade ali reverbera nos preços internacionais, reorganiza fluxos comerciais e impõe custos políticos a governos em todos os continentes. O sistema internacional, já fragilizado por crises sanitárias e rupturas logísticas recentes, opera com margens reduzidas de absorção de choques.
Uma escalada prolongada no Golfo não produziria apenas alta no petróleo. Aceleraria processos de reindustrialização defensiva, busca por autonomia energética e fortalecimento de alianças fora do eixo tradicional. A fragmentação das cadeias globais deixaria de ser tendência e se tornaria política explícita.
O elemento novo desta transição hegemônica é a assimetria econômica dos meios de combate. Drones de baixo custo confrontam interceptadores caríssimos. Mísseis relativamente acessíveis pressionam sistemas de defesa de altíssima complexidade. A vitória deixa de ser apenas territorial e passa a ser matemática: quem consegue sustentar o conflito com menor custo relativo?
Transições de poder raramente são suaves. Historicamente, envolvem fricção, competição tecnológica e conflitos indiretos. A diferença, agora, é a velocidade com que os choques se propagam em um mundo interdependente e financeiramente integrado.
O conflito atual pode ser contido e absorvido como mais um episódio regional. Mas pode também consolidar tendências profundas: fortalecimento de blocos geopolíticos, erosão da confiança em instituições multilaterais, reorganização da arquitetura energética e redefinição das estratégias industriais.
O espírito do tempo não aponta para estabilidade confortável. Aponta para reorganização. A hegemonia não desaparece de forma abrupta; ela se transforma sob pressão, redistribuindo poder enquanto tenta preservá-lo. A guerra, nesse sentido, não é a causa fundamental da crise da ordem internacional — é o seu sintoma mais visível.
O que está em jogo não é apenas a vitória circunstancial de um lado sobre outro. É a forma da ordem que emergirá desta transição. E, como em toda encruzilhada histórica, as escolhas feitas agora — sob tensão, medo e cálculo estratégico — moldarão o equilíbrio do sistema internacional por décadas.
SP março 2026
Francisco Chagas Vice- Presidente do PT Estadual
Ex-Dep Federal e Vereador da Capital


