NOMEAR O INIMIGO: SOBERANIA EXIGE CLAREZA ESTRATÉGICA

Site do PT São Paulo

“Na era da guerra hibrida, a neutralidade estratégica é apenas outra forma de submissão.”

Uma nação que não identifica com clareza quem ameaça sua soberania já aceitou, ainda que silenciosamente, algum grau de submissão. Em matéria de defesa, a ambiguidade não é prudência: é fraqueza. E o Brasil sofre, há décadas, de um problema central que atravessa sua doutrina militar, sua diplomacia e parte de sua elite política — a recusa em nomear o vetor real de ameaça à sua autonomia.

Não se trata de retórica ideológica nem de belicismo. Trata-se de realismo estratégico. A América Latina nunca deixou de ser tratada como área de influência por parte dos Estados Unidos. Isso não é interpretação militante: está registrado em documentos oficiais de defesa, em políticas econômicas coercitivas, em intervenções diretas e indiretas e na permanente tentativa de moldar governos, Forças Armadas e sistemas políticos aos interesses do império. Fingir que isso não existe não preserva a paz; apenas desarma o país politicamente.

A doutrina militar brasileira insiste em falar de “ameaças difusas”, “riscos transnacionais” e “cooperação internacional”, enquanto evita qualquer referência concreta às estruturas de poder que condicionam nossa soberania. Essa escolha não é neutra. Ela produz efeitos práticos: impede o planejamento estratégico real, bloqueia a construção de capacidades dissuasórias e naturaliza a dependência tecnológica e doutrinária.

Nenhuma potência organiza sua defesa com base em abstrações. Todas identificam interesses, riscos e adversários. Apenas países periféricos são estimulados a acreditar que nomear o inimigo é provocação. Na verdade, essa interdição é parte do próprio mecanismo de dominação. Um país que não pode sequer dizer quem o ameaça já perdeu parte de sua soberania antes mesmo de qualquer conflito.

O discurso da neutralidade cumpre papel semelhante. Em um sistema internacional estruturalmente desigual, neutralidade é ficção conveniente para quem domina. Países que controlam tecnologia, finanças, cadeias produtivas e poder militar não são neutros — impõem seus interesses. Aos demais, resta escolher entre autonomia ou alinhamento disfarçado. O Brasil, ao se esconder atrás de uma neutralidade abstrata, acaba operando como peça funcional de uma ordem que o subordina.

A recusa em nomear o vetor de ameaça também produz confusão interna. Ao não reconhecer pressões externas reais, parte da doutrina desloca o foco para dentro, reativando — ainda que de forma implícita — a lógica do “inimigo interno”. Isso corrói a relação entre Forças Armadas e sociedade, enfraquece a legitimidade democrática da defesa e distorce o papel constitucional dos militares. O resultado é uma força preparada para vigiar o próprio povo, mas hesitante diante da coerção externa.

Nomear o inimigo não significa declarar guerra. Significa orientar a dissuasão. Significa planejar defesa aérea, marítima, cibernética e tecnológica com base em riscos concretos. Significa saber de quem precisamos ser independentes para decidir soberanamente. Significa, sobretudo, romper com a ilusão de que a soberania brasileira será respeitada por boa vontade ou afinidade retórica.

Enquanto documentos estratégicos de potências centrais afirmam explicitamente seu direito de intervir, condicionar economias e impedir alianças que contrariem seus interesses, o Brasil insiste em um vocabulário evasivo. Essa assimetria discursiva não é detalhe: ela revela quem planeja o poder e quem apenas reage a ele.

Uma doutrina militar soberana começa com um ato político elementar: dizer a verdade. Reconhecer que a maior ameaça à autonomia brasileira não vem de inimigos imaginários, nem do nosso povo, nem dos nossos vizinhos, mas de estruturas reais de dominação que operam no plano econômico, tecnológico, diplomático e militar. Sem esse reconhecimento, qualquer discurso sobre defesa será apenas retórico.

Soberania exige clareza. Quem não nomeia o inimigo acaba se adaptando a ele. E, na história das nações, adaptação à dominação nunca foi sinônimo de paz — apenas de dependência administrada.

SP 17 jan 26
FRANCISCO CHAGAS – cientista social e vice-presidente PT Estadual Foi Deputado Federal e vereador da cidade de SP

Posts recentes:

Acessar o conteúdo