“A pátria não é a terra de ninguém. É a terra de quem a defende.”— Leonel Brizola
Há momentos em que a história se repete como farsa, mas o preço da farsa, no Brasil, sempre foi pago com sangue e soberania violada. Entre 1930 e 1945, o governo Vargas enfrentou a mais organizada quinta coluna que já operou em território nacional: uma rede nazista que financiava escolas, igrejas e clubes no Sul, arrecadava impostos para o Terceiro Reich e informava submarinos alemães que afundaram 34 navios mercantes brasileiros, matando mais de mil civis. A reação veio forte: expulsão do embaixador alemão, fechamento das escolas germânicas, prisão dos líderes, e o Brasil entrou na guerra contra o Eixo. A lição era clara: quem serve ao inimigo estrangeiro não terá espaço na pátria.
Duas décadas depois, Carlos Lacerda, governador da Guanabara, repetiu o gesto com os Estados Unidos. Viajou a Washington, pediu apoio para derrubar João Goulart e articulou o golpe de 1964. A ironia da história, porém, é implacável: o regime que ajudou a fundar o devorou. Em 1968, o AI-5 cassou seus direitos políticos; morreu no ostracismo, sem nunca ter alcançado o poder que tanto servilmente ambicionara. O traidor, ao final, é sempre descartado pelos senhores que serviu.
Agora, o país assiste a uma nova encarnação desse espírito de submissão. Jair Bolsonaro, em março de 2025, declarou-se “informante da equipe de Trump” e afirmou que “o problema do Brasil não vai ser resolvido internamente, tem que resolver com apoio vindo de fora”. Eduardo Bolsonaro disse que “a solução vai vir dos Estados Unidos para resgatar as nossas liberdades” e, em setembro do mesmo ano, defendeu que, diante de um Brasil que se assemelhasse à Venezuela, “valeria a pena” a vinda de “caças F-35 e navios de guerra” americanos. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, subiu ao palco da CPAC no Texas, em março de 2026, e pediu explicitamente que os Estados Unidos apliquem “pressão diplomática” sobre as instituições brasileiras para garantir eleições “baseadas em valores de origem americana”. Para adoçar o pedido, ofereceu em bandeja as reservas de terras raras e minerais críticos do Brasil – as riquezas estratégicas que deveriam servir ao desenvolvimento nacional.
Ao lado deles, aparece agora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Aquele que muitos quiseram vender como a “face moderada” do bolsonarismo não hesita em posar com o boneco do MAGA, empunhando o símbolo do nacionalismo trumpista como se fosse sua própria bandeira. Não se trata de um gesto banal: ao abraçar publicamente os mesmos signos da subserviência, Tarcísio consagra-se como aliado desse projeto de entrega do Brasil ao império. Governar o estado mais rico da federação e, ainda assim, curvar-se a um governo estrangeiro, pedindo-lhe que intervenha no país – isso não é pragmatismo; é a face renovada da quinta coluna.
Diante dessa escalada, a indignação não basta. É preciso institucionalizar a defesa da soberania. Por isso, defendo três medidas concretas. Primeiro: tipificar penalmente a solicitação de intervenção estrangeira por agente público, com pena de perda de mandato e inabilitação para cargos públicos. Segundo: incluir no currículo escolar a história das quintas colunas – do nazismo no Sul à articulação golpista de 1964 – para que as novas gerações aprendam a reconhecer os discursos de submissão travestidos de patriotismo. Terceiro: criar o Museu dos Traidores do Brasil, inspirado no antigo “Museu da Quinta Coluna” de Vargas. Lá, reunir-se-iam os documentos dos planos nazistas, os telegramas de Lacerda, os vídeos dos Bolsonaro pedindo pressão externa, as fotos de Tarcísio com o boneco do MAGA. Não por vingança, mas para que o país nunca mais esqueça o rosto da traição.
A história mostra que os traidores sempre terminam mal. A rede nazista foi desmantelada; Lacerda morreu cassado; os novos apóstolos da subserviência – Bolsonaros e seus aliados – encontrarão o mesmo destino: o repúdio público, a punição legal e, por fim, o lugar no museu da infâmia.
O Brasil já pagou caro demais por aqueles que confundiram patriotismo com aliança externa. É hora de dizer, com todas as letras: no Brasil, traidores do povo brasileiro não se criam. E, se tentarem criar, encontrarão não apenas a condenação moral, mas as instituições fortes, a educação vigilante e a memória implacável de um povo que recusa ser vendido como moeda de troca.
SP 30 mar 2026
FRANCISCO CHAGAS é cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex-vereador de deputado federal


