A tragédia da operação policial no Rio expõe o fracasso do modelo de segurança baseado no confronto e na retórica da guerra. É hora do Brasil aprovar a PEC 18/2025 e adotar uma política de segurança cidadã e integrada.
Uma tragédia que se repete
A operação policial realizada em 28 de outubro de 2025, no Rio de Janeiro, supostamente voltada ao combate ao Comando Vermelho, terminou em tragédia: mortes de policiais e de pessoas inocentes, destruição e pânico nas comunidades. Mais do que um erro tático, o episódio expõe a falência de um modelo de segurança pública baseado na guerra e no espetáculo da violência, que serve mais à autopromoção política do que à proteção da população.
Conduzida pelo governador Cláudio Castro, a operação ocorreu sem articulação com o Governo Federal, revelando improviso e descoordenação. Num momento em que a extrema-direita enfrenta declínio — com a prisão de Jair Bolsonaro e de militares envolvidos em atos golpistas, e a retomada do diálogo diplomático entre Brasil e Estados Unidos, consolidada na reunião entre Lula e Donald Trump —, a ação policial parece ter sido um gesto político de resistência ao novo cenário nacional.
O espetáculo da violência
O resultado é o mesmo de sempre: vidas perdidas, comunidades aterrorizadas e nenhuma solução estrutural. A espetacularização da violência enfraquece as instituições e aprofunda o abismo entre o Estado e o povo. Quando a segurança pública vira instrumento eleitoral, o Estado abdica de sua função civilizatória e transforma a polícia em vítima e algoz ao mesmo tempo.
Os números do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) revelam o paradoxo. Em 2024, foram registradas 3.428 mortes violentas, o menor número desde 1991, mas ainda alarmante. Nos primeiros meses de 2025, os homicídios dolosos cresceram 3,1%, com aumento expressivo na capital (+7,2%) e na Baixada Fluminense (+8,7%). Segundo estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF), mulheres foram 56,6% das vítimas de crimes e 71,7% das lesões corporais, sendo mais da metade negras ou pardas. A desigualdade continua a definir quem morre e quem tem direito à segurança.
Um modelo falido e violento
O que se vê no Rio é a persistência de uma política repressiva, descoordenada e ineficaz, que não enfrenta as causas estruturais da criminalidade: desigualdade, desemprego, ausência de políticas sociais e avanço do crime organizado. O confronto armado é apenas o sintoma de um Estado que chega às favelas não como protetor, mas como inimigo.
A tragédia da operação de outubro deve servir como ponto de inflexão. O país precisa abandonar o improviso, porque mesmo que as autoridades digam que foi planejado o resultado mostra uma catástrofe que nos leva a acreditar que não houve planejamento suficiente, e também o discurso do medo para construir um modelo de segurança pública integrado, planejado e comprometido com a vida.
Recentemente em agosto de 2025 foi deflagrada a Operação Carbono Oculto, uma operação conjunta que além de integrar as forças policiais teve a participação da Receita Federal, COAF, Ministérios Públicos e órgãos estaduais, sendo um divisor de águas no enfrentamento do crime organizado. Que sem derramar uma gota de sangue foi sequestrado mais de 3,2 bilhões em bens e valores, desarticulou o esquema sofisticado de fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Um duro golpe no crime organizado. Mais do que o resultado imediato, a operação demonstrou o potencial de uma resposta de Estado articulada, baseada em inteligência e cooperação, sem a necessidade de disparar um único tiro.
PEC 18/2025: um novo caminho para o Brasil
Nesse contexto, é urgente recolocar na ordem do dia a PEC 18/2025, proposta pelo Governo Lula, atualmente parada no Congresso Nacional. A chamada PEC da Segurança Pública propõe:
- Inserir o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) na Constituição, promovendo integração entre União, estados e municípios;
- Ampliar as competências da Polícia Federal no combate a milícias e crime organizado;
- Incluir as guardas municipais como órgãos de segurança pública;
- Constitucionalizar o Fundo Nacional de Segurança Pública, impedindo o contingenciamento de recursos.
Mais do que uma reforma administrativa, a PEC 18/2025 é um novo paradigma: substitui o modelo do “tiro, porrada e bomba” por uma política de segurança cidadã, baseada em inteligência, prevenção e valorização profissional das forças policiais
Pela segurança e pela vida
A tragédia do Rio não é fato isolado, mas o retrato de um modelo que fracassou. O Brasil precisa decidir se continuará refém da violência como espetáculo político ou se terá coragem de construir um novo pacto pela paz, pela dignidade e pela segurança de todos.
A aprovação da PEC 18/2025 é o primeiro passo para romper com o passado e iniciar uma nova era na segurança pública — uma era em que o Estado proteja vidas, e não manche sua história com mais sangue e tragédias anunciadas
29 outubro/2025
Francisco Chagas é cientista social e vice-presidente do PT paulista,
foi vereador e deputado federal pelo PT/SP,


