FORMAÇÃO MILITAR: Romper com a Tutela Ideológica do Império, por Francisco Chagas

PMES

“Não existe neutralidade na formação: toda escola militar forma lealdade”

Nenhuma força armada é mais soberana do que a doutrina que a forma. Armas podem ser compradas, equipamentos podem ser modernizados, mas se o pensamento estratégico permanece subordinado, a dependência se reproduz por outras vias. No caso brasileiro, a fragilidade da soberania militar não se explica apenas por limitações materiais, mas por um problema mais profundo: a tutela ideológica na formação das Forças Armadas.

Durante décadas, oficiais brasileiros foram formados sob forte influência de escolas, manuais e concepções estratégicas produzidas nos centros de poder do Norte global, especialmente no eixo hemisférico liderado pelos Estados Unidos. Essa formação não é neutra. Ela carrega uma visão de mundo, uma leitura específica das ameaças e uma hierarquia implícita entre nações “responsáveis” e países “a serem tutelados”. O resultado é a internalização de uma lógica que naturaliza a subordinação.

Essa tutela se manifesta de várias formas. Na ideia de que o Brasil não tem inimigos externos relevantes. Na crença de que a cooperação militar assimétrica é sempre benéfica. Na dificuldade de reconhecer que a pressão imperialista é um dado estrutural, e não um desvio ocasional. E, sobretudo, na resistência em pensar a defesa a partir dos interesses concretos do povo brasileiro e da América Latina.

Uma formação militar orientada por essa lógica produz um paradoxo perigoso: oficiais que se veem como patriotas, mas operam dentro de um horizonte estratégico definido fora do país. A lealdade simbólica à nação convive com a dependência intelectual em relação ao império. Essa contradição não é individual; é institucional. E seus efeitos se acumulam ao longo do tempo.

A consequência mais grave é a deformação do papel constitucional das Forças Armadas. Ao não identificar com clareza as ameaças externas reais, parte da doutrina desloca o foco para dentro, reeditando, ainda que de forma disfarçada, a lógica do “inimigo interno”. Isso corrói a relação com a sociedade, enfraquece a legitimidade democrática da defesa e cria uma separação artificial entre povo e soberania. Força armada que desconfia do próprio povo dificilmente estará preparada para defendê-lo.

Romper com essa tutela exige uma reforma profunda da formação militar. Não se trata de isolamento ou rejeição do intercâmbio internacional, mas de inverter a lógica da subordinação. Cooperação não pode significar assimilação acrítica. A formação estratégica precisa partir do território, da história, das vulnerabilidades e dos interesses do Brasil e da região. Precisa incorporar uma leitura latino-americana do sistema internacional, marcada pela experiência concreta de intervenção, coerção e dependência.

Isso implica rever currículos, bibliografias, centros de formação e critérios de ascensão. Implica valorizar o pensamento estratégico nacional, a produção acadêmica brasileira e sul-americana e o diálogo com universidades e centros de pesquisa comprometidos com a soberania. Implica, sobretudo, formar quadros capazes de pensar o conflito real, e não apenas administrar consensos impostos.

Uma doutrina soberana não nasce em manuais importados. Ela nasce da capacidade de interpretar o mundo a partir do próprio lugar. Países que não produzem sua própria leitura estratégica acabam aplicando, mesmo sem perceber, a estratégia dos outros. E, em defesa, isso equivale a lutar com o mapa do adversário.

Enquanto a formação militar brasileira permanecer presa a essa tutela ideológica, qualquer esforço de modernização material será incompleto. Autonomia tecnológica sem autonomia intelectual é instável. Dissuasão sem clareza doutrinária é frágil. Soberania exige ruptura também no plano das ideias.

Romper com a tutela ideológica não é radicalismo. É o mínimo exigido de uma força armada que pretenda, de fato, defender seu país. Sem essa ruptura, o Brasil continuará armado, mas condicionado; organizado, mas subordinado; forte em aparência, frágil em essência.

SP/Fevereiro de 2026

Francisco Chagas é cientista social, vice presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal. Escreve aqui sobre soberania nacional, formação e doutrina militar

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