FORÇAS ARMADAS – DISSUASÃO NÃO É GUERRA: É O DIREITO DE NÃO SER ATACADO E ASSEGURAR A SOBERANIA, por Francisco Chagas

Jornal Opção

A dissuasão não impede a guerra por boas intenções, mas pelo custo que impõe ao agressor.
O maior equívoco no debate sobre defesa no Brasil é confundir dissuasão com belicismo. Essa confusão não é ingênua; ela cumpre uma função política precisa: impedir que países periféricos desenvolvam capacidades reais de defesa. Em um mundo onde a força voltou a organizar as relações internacionais, renunciar à dissuasão é aceitar a coerção como destino.
Dissuasão não é desejo de guerra. É exatamente o contrário. É a capacidade de tornar a agressão cara, incerta e politicamente custosa para qualquer potencial adversário. Países que não dissuadem não são vistos como pacíficos; são vistos como vulneráveis. E vulnerabilidade, na história das relações internacionais, sempre foi convite à intervenção.
O Brasil vive uma contradição perigosa. Possui território continental, riquezas estratégicas e posição geopolítica central, mas não dispõe de uma capacidade dissuasória compatível com esses ativos. Defesa aérea insuficiente, vulnerabilidades cibernéticas, fragilidade na proteção do Atlântico Sul e dependência tecnológica crônica formam um conjunto que reduz drasticamente a capacidade de negar uma agressão externa.
A defesa aérea é um exemplo claro. Um país com infraestrutura energética, industrial e de comunicações dispersa e estratégica não pode depender de sistemas limitados, condicionados ou interoperáveis apenas sob autorização externa. Sem controle efetivo do próprio espaço aéreo, não existe soberania territorial plena. O céu é a primeira fronteira — e hoje o Brasil não a controla como deveria.
No domínio marítimo, a situação é igualmente grave. O Atlântico Sul não é apenas rota comercial; é espaço estratégico onde se concentram reservas energéticas, cabos de comunicação e linhas vitais para a economia nacional. A fragilidade da frota naval, a limitação de meios de vigilância e a dependência logística reduzem a capacidade de proteger esse espaço. Soberania marítima não se declara; se exerce.
A guerra contemporânea, no entanto, não começa apenas com aviões ou navios. Começa nos sistemas. O Brasil segue exposto no campo cibernético, onde ataques podem paralisar comunicações, energia, finanças e comando militar sem um único tiro. Dissuasão moderna exige capacidade de defesa e resposta nesse domínio, algo incompatível com dependência de plataformas e códigos estrangeiros.
É nesse contexto que surge o debate interditado sobre capacidades dissuasórias avançadas. Em um sistema internacional que já não respeita tratados quando eles se tornam inconvenientes, tratar certos temas como tabu não é prudência — é ingenuidade estratégica. Nenhum país que pretende ser soberano pode abrir mão, por princípio, de discutir todos os instrumentos necessários à sua defesa, inclusive nuclear. O silêncio não protege, apenas expõe.
A resistência a esse debate costuma vir acompanhada de um discurso moralizante seletivo. Espera-se que países periféricos sejam “responsáveis”, enquanto potências centrais ampliam arsenais nucleares, bases militares e doutrinas de intervenção. Essa assimetria moral não é ética; é política. Serve para preservar a hierarquia internacional existente.
Sem dissuasão, a política externa perde sustentação. Diplomacia sem respaldo estratégico é retórica. Autonomia sem capacidade de defesa é concessão temporária. Países que não podem se defender acabam calibrando suas posições para evitar retaliações, abrindo mão, na prática, da autodeterminação.
Construir dissuasão exige decisão política, investimento e ruptura com ilusões. Exige integrar defesa aérea, marítima, cibernética e tecnológica sob uma estratégia clara de negação da agressão. Exige também controle civil democrático e debate público franco, pois dissuasão não pode ser projeto de gabinete ou de corporação.
A lição histórica é simples e dura: ninguém respeita a soberania de quem não pode defendê-la. Dissuasão não é guerra. É o direito elementar de existir sem pedir licença. Em um mundo que voltou a respeitar apenas a força, renunciar a esse direito é aceitar a tutela como destino.

São Paulo, janeiro de 2026

Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal. Escreve sobre Soberania, Defesa e Forças Armadas

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