DEFESA É POVO: SOBERANIA SEM PARTICIPAÇÃO NÃO SE SUSTENTA, por Francisco Chagas

“Nenhuma soberania se sustenta sem o povo organizado para defendê-la”
Não existe soberania sem povo. Essa afirmação é simples e óbvia em qualquer leitura histórica séria, mas é sistematicamente ignorada no debate sobre defesa no Brasil. As Forças Armadas seguem tratadas como um corpo separado da sociedade, enquanto a população é mantida distante — quando não vista com desconfiança. Essa separação não é apenas um erro político; é uma fragilidade estratégica.
Nenhuma nação se defendeu apenas com quartéis, equipamentos ou hierarquias. Todas as experiências históricas de resistência bem-sucedida tiveram como base o envolvimento consciente do povo na defesa do território, das riquezas e do projeto nacional. Forças Armadas isoladas da sociedade podem até manter a ordem interna, mas dificilmente sustentam a soberania diante de pressões externas prolongadas.
No Brasil, essa distância tem raízes profundas. Parte da doutrina militar ainda carrega a herança da lógica do “inimigo interno”, segundo a qual a principal ameaça não vem de fora, mas da própria sociedade organizada. Essa concepção distorce o papel constitucional das Forças Armadas, corrói sua legitimidade democrática e enfraquece sua capacidade real de defesa. Um país que treina suas forças para vigiar o povo não se prepara adequadamente para enfrentar a coerção externa.
Essa lógica também contribui para o esvaziamento do debate público sobre defesa. Temas estratégicos permanecem restritos a círculos fechados, tratados como assuntos técnicos ou secretos demais para a sociedade. O resultado é um povo desinformado, afastado e, portanto, incapaz de participar conscientemente da construção da soberania. Silenciar o debate não protege a defesa nacional; apenas a fragiliza.
Defesa é política pública. Como tal, deve ser discutida, disputada e compreendida pela sociedade. O orçamento militar, as prioridades estratégicas, as alianças internacionais e as doutrinas de emprego da força dizem respeito diretamente ao futuro do país. Um povo excluído dessas decisões não desenvolverá compromisso com a defesa nacional — e sem esse compromisso, qualquer estratégia é instável.
Além disso, a ausência de participação popular facilita a captura da política de defesa por interesses corporativos ou externos. Quando a sociedade não acompanha, não fiscaliza e não debate, a dependência tecnológica, o alinhamento automático e a subordinação doutrinária avançam sem resistência. A soberania se perde não apenas por imposição externa, mas por omissão interna.
Uma doutrina militar soberana exige a reconstrução do vínculo entre Forças Armadas e povo. Isso passa por transparência, educação política, debate público e inserção do tema da defesa nos espaços de formação cidadã. Passa também pelo reconhecimento de que o povo organizado não é ameaça, mas base da soberania. País algum se defende contra potências externas desconfiando permanentemente de sua própria população.
Esse vínculo não significa militarização da sociedade, nem culto à guerra. Significa consciência nacional. Significa compreender que soberania não é um dado abstrato, mas uma construção permanente, que envolve escolhas econômicas, tecnológicas, diplomáticas e políticas. Significa entender que a defesa do território está ligada à defesa do trabalho, das riquezas naturais e da democracia.
Enquanto o Brasil mantiver a defesa como um tema interditado ao povo, continuará vulnerável. Forças Armadas sem base social são frágeis diante da pressão externa. Democracia sem soberania é decorativa. E soberania sem povo é apenas uma palavra nos documentos oficiais.
Ou o Brasil reconstrói a relação entre defesa e sociedade, ou continuará apostando em uma soberania formal, incapaz de se sustentar quando realmente for colocada à prova. Em um mundo que voltou a respeitar apenas a força, a força mais decisiva continua sendo a de um povo consciente, organizado e politicamente comprometido com seu próprio destino.

São Paulo, fevereiro de 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal – escreve aqui sobre soberania e defesa nacional.

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