O Brasil vive um daqueles momentos raros em que o futuro parece estar mais aberto do que de costume — mas também mais disputado. As transformações globais, a reconfiguração das cadeias produtivas, a emergência de novas potências e a pressão por desenvolvimento sustentável criam um cenário cheio de possibilidades. Contudo, nossas condições internas continuam atravessadas por uma contradição central: um país com enorme potencial bloqueado por elites econômicas que insistem em agir como vassalas de interesses externos, incapazes de formular ou apoiar um projeto nacional soberano.
O grande desafio brasileiro hoje não é a falta de capacidade produtiva, inteligência técnica ou energia social. É a ausência de comprometimento das camadas dominantes com um futuro que ultrapasse a lógica da dependência. Em vez de investirem na construção de um parque industrial moderno, na tecnologia nacional, na inovação científica ou na integração latino-americana, setores empresariais ainda preferem a rota fácil da importação, da financeirização e do rentismo. Esse comportamento freia o país, aprofunda desigualdades e perpetua a condição de economia subordinada aos centros globais de poder. È isso que explica as enormes taxas de juros adotadas pelo Banco Central privatizado.
A questão não é apenas econômica — é geopolítica. O reposicionamento das potências, sobretudo com o avanço asiático e o declínio relativo do eixo tradicional europeu-americano, abre espaços inéditos para países intermediários como o Brasil. Podemos negociar acordos estratégicos, atrair investimentos produtivos, diversificar parcerias e ampliar nossa presença em organismos multilaterais. Mas isso exige firmeza, clareza de propósito e, sobretudo, coesão interna. Quando parte relevante de nossa elite reclama mais de pressões dos Estados Unidos do que celebram a autonomia conquistada pelo país, algo está profundamente errado.
Do lado das oportunidades, vivemos um momento favorável. A transição energética coloca o Brasil numa posição privilegiada: temos biodiversidade, matriz limpa, potencial eólico e solar, capacidade de desenvolver hidrogênio verde e um agronegócio que, se integrado com ciência e sustentabilidade, pode ser exemplo global. Ao mesmo tempo, a reindustrialização baseada em tecnologias críticas — semicondutores, mobilidade elétrica, biotecnologia — coloca o país no mapa de investimentos estratégicos. Mas para que isso se materialize é preciso que o Estado coordene, planeje e induza. E que o empresariado nacional assuma sua responsabilidade histórica.
O maior entrave continua sendo político e cultural: nossa elite econômica resiste à ideia de soberania porque lucra com a dependência. Resiste à redução das desigualdades porque se beneficia de uma sociedade profundamente desigual. Resiste à construção de um projeto nacional porque prefere servir a interesses externos a comprometer-se com o desenvolvimento interno. Essa postura não é apenas atrasada — é autodestrutiva. Sem um país forte, estável e industrializado, nem o lucro deles é sustentável no longo prazo.
Para avançar, o Brasil precisa unir crescimento econômico com justiça social. Não há soberania possível em um país que convive com fome, desemprego estrutural, educação ainda desigual e violência territorializada. Investir em políticas públicas robustas, ampliar a presença do Estado onde o mercado não chega e fortalecer a democracia são passos indispensáveis. Ao mesmo tempo, é urgente que o debate sobre o papel do Brasil no mundo deixe de ser um tema de nicho e passe a ser pauta central: que projeto queremos? Que aliados buscamos? Que riscos estamos dispostos a enfrentar para defender nossos interesses?
O país tem tudo para ocupar um lugar respeitado no século XXI. Mas isso só será possível se enfrentarmos o velho pacto da submissão econômica. O Brasil não pode continuar de joelhos. É hora de assumir o tamanho que temos — e o futuro que merecemos
São Paulo, novembro de 2025
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT paulista, foi vereador e deputado Federal por SP


