A vitória de Lula, a mobilização popular e os desafios
da democracia brasileira
A Esperança como Decisão Política
Uma eleição não encerra a disputa política. O voto escolhe um governo, mas não resolve, por si
só os conflitos da sociedade e nem garante a realização das expectativas que produziram a
vitória. A questão decisiva não é apenas quem venceu, mas o que faremos com a oportunidade
aberta pelas urnas.
A vitória de Lula em 2026 expressa o confronto entre dois projetos de país. De um lado, um
projeto que reconhece o papel do Estado na redução das desigualdades, na garantia de direitos,
no desenvolvimento nacional e na defesa da soberania, compreendendo a democracia como
participação e ampliação da cidadania. De outro, um projeto que privilegia a lógica do mercado,
restringe a ação pública e tende a tratar direitos sociais como custos e desigualdades como
consequências inevitáveis da ordem econômica. Essa disputa atravessa a economia, o trabalho,
a comunicação, as instituições e a própria ideia de liberdade.
O resultado eleitoral, entretanto, não pode ser explicado por um único fator. A liderança de Lula, a
memória dos governos anteriores, as alianças, a militância, as mobilizações públicas, a
comunicação digital e as escolhas individuais se combinaram em circunstâncias concretas. O
primeiro turno revelou limites, o segundo demonstrou que forças políticas podem se reorganizar.
Compreender essa dinâmica é mais importante do que atribuir a vitória a uma estratégia isolada
ou transformá-la em prova de infalibilidade.
A tese deste ensaio é que uma vitória eleitoral só adquire dimensão histórica quando se converte
em participação democrática, ampliação de direitos e transformação concreta da realidade. A
esperança não é uma recompensa recebida depois da luta, é uma decisão que exige consciência
crítica, organização e responsabilidade coletiva.
1. A virada exige mais do que comemoração
O primeiro turno deveria ser lido como diagnóstico de que a identificação com uma liderança e a
memória das realizações passadas não bastam para responder às inquietações do presente.
Renda, trabalho, segurança, saúde, educação, moradia e perspectivas de futuro são dimensões
decisivas da experiência política.A campanha precisou disputar não apenas informações, mas interpretações da vida cotidiana. As
pessoas votam a partir de interesses, lembranças, expectativas, medos e relações de confiança.
Corrigir uma informação falsa é necessário, mas nem sempre modifica uma convicção.
Apresentar dados também pode ser insuficiente quando não existe confiança em quem os
transmite.
Uma das lições mais exigentes da disputa é reconhecer que a nossa interpretação da realidade
nem sempre coincide com a maneira como ela é percebida por outras pessoas. A política que fala
apenas para quem já concorda pode produzir entusiasmo e, ainda assim, perder capacidade de
ampliar sua base social. Convencer exige escuta, argumentos e disposição para compreender
dúvidas sem desprezar quem as manifesta.
A vitória no segundo turno não apaga as dificuldades reveladas anteriormente. Ela abre a
possibilidade de enfrentá-las. A autocrítica, nesse sentido, não enfraquece um projeto político:
permite identificar limites, rever escolhas e preparar novas formas de diálogo com a sociedade.
2. Rede e Rua: comunicação não é organização
As redes digitais se tornaram espaços decisivos da disputa política. Vídeos curtos, humor,
música, transmissões ao vivo, criadores de conteúdo, comunidades de fãs se aproximam a
política de públicos que os meios tradicionais nem sempre alcançam. A experiência do chamado
Exército do Lula, associado à mobilização digital organizada em torno da candidatura, ajuda a
compreender essa transformação. No entanto visualizações não são votos, interação não
significa necessariamente convencimento e alcance não equivale a participação. Uma mensagem
pode circular intensamente sem mudar uma escolha. A questão central não é apenas quantas
pessoas foram alcançadas, mas o que compreenderam, que diálogo se estabeleceu e que
capacidade de ação foi criada.
A rua continua indispensável. A conversa no bairro, no local de trabalho, na universidade, no
sindicato, na associação ou na porta de casa permite ouvir dúvidas e experiências que os
indicadores digitais não revelam. A presença coletiva torna visível que a política não é uma
atividade solitária. Rede e Rua se fortalecem quando a comunicação convoca encontros e
quando esses encontros produzem confiança, argumentos e vínculos capazes de continuar para
além da campanha.
A mobilização precisa dialogar com as condições concretas de vida, pois além daqueles que se
motivaram pela defesa da democracia, da soberania, pela redução das desigualdades, respeito a
diversidade, também participaram dessa disputa pessoas cujas trajetórias foram alcançadas por
políticas como o Pé-de-Meia, o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o ProUni entre outros. Paramuitas famílias, essas iniciativas significam renda, acesso a medicamentos, permanência na
escola ou oportunidade de ingressar na universidade. Não se deve reduzir a decisão eleitoral a
um programa específico, mas tampouco ignorar a importância que direitos e oportunidades
assumem na experiência das pessoas.
Esses públicos não formam um bloco homogêneo, nem votam de maneira automática. Suas
escolhas dependem de histórias, necessidades, expectativas e avaliações distintas. A tarefa
política consiste em compreender essa diversidade e demonstrar como as políticas públicas
podem ampliar a autonomia, a dignidade e as possibilidades de futuro.
A comunicação democrática não se limita a repetir mensagens ou disputar atenção. Precisa
conectar a experiência cotidiana a alternativas possíveis, sem abandonar os fatos nem substituir
a reflexão pela propaganda. Seu valor político cresce quando ajuda as pessoas a compreender,
discutir e transformar a realidade.
3. A autocrítica como força política
Uma vitória não absolve os erros de quem venceu. O primeiro turno indicou que havia públicos
pouco alcançados, preocupações insuficientemente compreendidas e uma confiança excessiva
na força da memória política. As conquistas do passado precisam responder às necessidades do
presente, não podem substituir o enfrentamento dos problemas que permanecem.
A autocrítica não deve se transformar em caça aos culpados nem em disputa interna por
prestígio. Seu objetivo é aprender. Isso exige confrontar impressões com evidências, distinguir
alcance de convencimento e ouvir quem não foi convencido. Uma organização que trata toda
crítica como ameaça perde a capacidade de corrigir seus rumos; outra que converte cada
dificuldade em acusação se paralisa.
Essa reflexão vale para os partidos, inclusive o PT. A história sindical e popular do partido é um
patrimônio político, mas não uma garantia perpétua. Só permanece vivo aquilo que se renova. A
militância não pode ser convocada apenas para executar tarefas eleitorais: precisa participar da
elaboração de propostas, da avaliação, das decisões e da renovação das lideranças.
A liderança é importante para dar direção e articular forças. A participação, por sua vez, amplia a
inteligência coletiva e aproxima a política dos problemas reais. Sem liderança, a ação pode se
dispersar; sem participação a liderança corre o risco de confundir apoio com obediência.
A democracia interna não é uma formalidade. É a condição para que uma base política pense,
proponha, critique e contribua para as decisões. A vitória deve servir também para renovar a
relação entre direção, militância e sociedade.4. Da vitória à participação democrática
O voto confere legitimidade para governar, mas não é um cheque em branco. A sociedade
permanece plural, e a democracia exige prestação de contas, diálogo e possibilidade de crítica. A
participação popular precisa existir entre as eleições, nos territórios, nos conselhos, nos
sindicatos, nos movimentos sociais e nos espaços em que as políticas públicas afetam a vida
cotidiana.
Ouvir a sociedade só tem sentido quando a escuta pode influenciar decisões ou quando os limites
de uma escolha são explicados com transparência. Nem toda demanda poderá ser atendida
imediatamente, mas as legítimas merecem consideração e resposta. Participação não pode ser
um ritual destinado a legitimar decisões já tomadas.
Os movimentos sociais também não são extensões automáticas do governo. Sua autonomia é
parte da democracia. Podem defender conquistas, pressionar por avanços e denunciar
contradições. Um governo comprometido com o povo não se fortalece exigindo silêncio de quem
o apoia, mas criando condições para que a crítica responsável contribua para melhorar as
políticas e ampliar direitos.
É no cotidiano que a democracia revela seu conteúdo. A qualidade do SUS, da escola pública, do
transporte, da moradia e da segurança, assim como o acesso à renda, à cultura e ao trabalho
digno, influencia a maneira como as pessoas experimentam o Estado. As instituições ganham
credibilidade quando os direitos deixam de ser promessas abstratas e se tornam realidade.
Transformar a energia eleitoral em participação permanente é, portanto, um desafio para o
governo, os partidos e a sociedade. O povo não deve ser chamado apenas para escolher
representantes ou defender decisões prontas. Precisa ter condições reais de participar da
definição dos rumos coletivos.
5. Juventude, mulheres e diversidade social: uma maioria que precisa se reconhecer
Nenhuma maioria eleitoral é socialmente uniforme. A mobilização envolve pessoas com
experiências, necessidades e expectativas diferentes. Juventude, mulheres, trabalhadores,
beneficiários de políticas públicas, moradores das periferias e populações de diferentes regiões
participam da vida política a partir de condições concretas, que não podem ser reduzidas a
estereótipos.
A juventude trouxe linguagens, repertórios culturais e formas de circulação digital que alteraram a
dinâmica da campanha. Mas não existe uma juventude única, assim como não há uma opinião
uniforme entre mulheres, trabalhadores ou beneficiários de programas sociais. As condições detrabalho, estudo, renda, segurança e acesso à cultura interferem de maneiras distintas nas
escolhas políticas.
A participação das mulheres, por exemplo, está ligada não apenas à representação, mas também
à autonomia econômica, ao cuidado, à segurança, aos serviços públicos e à divisão do trabalho.
Para os jovens, educação, emprego, mobilidade e perspectivas de futuro podem definir a
distância ou a aproximação em relação à política. Para as famílias de baixa renda, a estabilidade
material e a possibilidade de ascensão social são questões imediatas.
O Nordeste tem importância histórica na formação das maiorias eleitorais de Lula, mas a região
não deve ser tratada como uma realidade homogênea. A relação entre memória política, políticas
públicas, identidade e expectativas precisa ser compreendida sem simplificações. Isso vale para
outras regiões e segmentos sociais.
A presença de diferentes grupos numa campanha é um começo, não uma garantia de
participação efetiva. O desafio é transformar diversidade em capacidade de decisão,
incorporando experiências distintas à elaboração das políticas e à construção de um projeto
comum. Uma maioria se torna mais consistente quando as pessoas reconhecem suas diferenças,
identificam interesses compartilhados e encontram espaço para agir.
6. A disputa de hegemonia: construir uma maioria social
A disputa política não acontece apenas nas eleições. Ela atravessa o trabalho, a escola, a família,
os meios de comunicação, as redes digitais e as ideias que a sociedade passa a considerar
naturais. O poder também se sustenta na capacidade de definir o que parece possível, justo ou
inevitável.
Por isso, uma maioria eleitoral não se transforma automaticamente em maioria social organizada.
Essa passagem exige construir interpretações da realidade que relacionem experiências
individuais a problemas coletivos e apontem alternativas capazes de mobilizar interesses
diversos.
Não basta repetir palavras de ordem ou desqualificar quem pensa diferente. É necessário
compreender por que determinadas ideias conquistam adesão, como as pessoas interpretam
suas dificuldades e quais experiências podem ampliar a confiança na ação coletiva. O diálogo
não significa renunciar a convicções, mas colocá-las à prova da realidade e construir argumentos
que possam ser compartilhados.
A hegemonia democrática nasce da combinação entre ideias, organização, cultura e experiência
concreta. Uma política que promete igualdade, mas não enfrenta desigualdades; que defendeparticipação, mas não escuta; ou que fala em soberania sem ampliar a capacidade nacional de
decidir seus rumos compromete a própria credibilidade.
Construir uma maioria social duradoura significa ligar o discurso às práticas, as políticas públicas
às necessidades populares e a liderança à participação. Não se trata de eliminar diferenças, mas
de construir um horizonte comum no qual a maioria possa reconhecer sua capacidade de
transformar o país.
7. Um projeto de país: soberania, desenvolvimento e justiça social
A esperança precisa de conteúdo. A soberania significa a capacidade de o Brasil definir suas
prioridades, proteger seus recursos estratégicos, desenvolver ciência e tecnologia e decidir seus
próprios rumos. Mas não pode permanecer como abstração diplomática: seu sentido está em
ampliar direitos, oportunidades e bem-estar para a população.
Isso exige enfrentar a dependência tecnológica, fortalecer a capacidade produtiva e preparar o
país para as transformações do trabalho. Reindustrializar não é reconstruir mecanicamente o
passado, mas articular inovação, formação profissional, sustentabilidade e empregos de
qualidade. A inteligência artificial e as plataformas digitais tornam ainda mais urgente desenvolver
conhecimento, regular tecnologias e proteger dados, direitos e condições de trabalho.
O desenvolvimento só tem sentido democrático quando reduz desigualdades e distribui seus
benefícios. Isso implica fortalecer os serviços públicos, ampliar oportunidades, enfrentar as
desigualdades de classe, raça, gênero e território e garantir que o lugar de nascimento ou a renda
familiar não determinem o acesso a direitos fundamentais.
A transição ecológica também deve fazer parte desse projeto. Proteger os biomas, desenvolver
fontes limpas de energia e preparar cidades e comunidades para os efeitos das mudanças
climáticas são tarefas inseparáveis da justiça social. Os custos e benefícios dessa transformação
não podem recair sempre sobre os mesmos grupos.
Educação, ciência e cultura são condições para que o país produza conhecimento, amplie a
autonomia de seu povo e participe das mudanças mundiais sem se subordinar passivamente a
interesses externos. A soberania nacional ganha força quando a população tem acesso às
ferramentas materiais e intelectuais necessárias para participar das decisões.
Existem limites fiscais, institucionais e produtivos, além de conflitos entre interesses legítimos e
interesses concentrados. Reconhecê-los não elimina a necessidade de escolhas políticas; torna
ainda mais importante explicitar prioridades, custos e beneficiários. A pergunta decisiva é a quem
serve o desenvolvimento e quem participa da definição de seus rumos.Um projeto de país democrático precisa unir soberania e justiça social. Não basta que o Brasil
seja capaz de produzir mais: é preciso que essa capacidade se converta em liberdade, dignidade,
oportunidades e melhores condições de vida para seu povo.
8. Esperança organizada: a responsabilidade de construir o futuro
A história não está inteiramente sob nosso controle, mas tampouco é um destino fechado. Agimos
em circunstâncias herdadas, enfrentamos relações de força e convivemos com contradições que
não desaparecem por vontade. Ainda assim, as instituições podem mudar, os interesses podem
se reorganizar e as pessoas podem construir alternativas.
É nesse espaço entre os limites do presente e as possibilidades do futuro que situo a esperança.
Ela não é otimismo ingênuo, promessa de vitória garantida ou espera por uma solução que venha
de cima. É a disposição de reconhecer as dificuldades sem aceitá-las como destino e de
transformar a reflexão em ação.
A condição humana é histórica, relacional e contraditória. Criamos instituições que podem
proteger direitos e reproduzir dominação; produzimos conhecimento que amplia a liberdade e
pode ser usado para controlar; construímos solidariedade enquanto convivemos com exclusões.
Enfrentar essas contradições exige pensamento crítico, organização e capacidade de aprender
com a experiência.
A esperança organizada não deposita todo o futuro numa liderança, num governo ou num partido.
Depende de pessoas capazes de avaliar resultados, construir alianças, formular propostas e
intervir nas decisões. O povo não deve ser chamado apenas para defender um projeto pronto,
mas para participar de sua elaboração e acompanhar sua realização.
É assim que a vitória eleitoral pode se transformar em responsabilidade histórica: quando a
mobilização não termina com a apuração dos votos, quando a crítica contribui para corrigir os
rumos e quando a democracia amplia a capacidade coletiva de decidir.
A esperança como compromisso com o Brasil
A vitória de Lula abre uma possibilidade, mas não determina o que faremos com ela. A liderança
pode dar direção, a comunicação pode ampliar o alcance e a mobilização pode produzir
presença. Nenhuma dessas forças, isoladamente, substitui a organização democrática. O desafio
é converter a energia eleitoral em participação duradoura, ampliação de direitos e transformação
concreta da vida.Isso exige partidos abertos ao debate, governos dispostos a prestar contas, movimentos sociais
autônomos e cidadãos com condições reais de influenciar decisões. Exige também um projeto de
país que articule soberania, desenvolvimento, liberdade e justiça social.
Escrevo este ensaio porque a política precisa preservar a coragem de pensar, inclusive contra as
próprias certezas. Sem pensamento crítico, a esperança vira propaganda; sem organização, vira
espera; sem ação, perde sua força transformadora.
A esperança com a qual estou comprometido é aquela que imagina e pavimenta um futuro de
Brasil democrático, justo, livre e soberano. Não se trata de esperar que esse futuro apareça
pronto, mas de trabalhar para construí-lo. Imaginar é recusar que as desigualdades e as
limitações do presente sejam eternas. Pavimentar é transformar essa possibilidade em ação
política, organização popular, participação cidadã e políticas públicas capazes de mudar a
realidade.
É nesse sentido que compreendo a vitória eleitoral: não como ponto de chegada, mas como
oportunidade e responsabilidade histórica. O futuro não pertence exclusivamente aos
governantes, aos partidos ou às lideranças. Sua construção depende também das pessoas
comuns, de sua capacidade de se reconhecerem como sujeitos da história e de agir
coletivamente.
Não ignoro os obstáculos nem considero a vitória antecipadamente garantida. Mas recuso a
resignação. A esperança em que acredito não elimina as contradições: mobiliza forças para
enfrentá-las e abrir caminhos para uma vida coletiva mais digna.
O futuro não está pronto à nossa espera. Está em disputa.
E meu compromisso é contribuir para pavimentar o caminho de um Brasil democrático, justo, livre
e soberano.
SP 27 out 26
FRANCISCO CHAGAS
Cientista Político, Vice-Presidente do PT São Paulo, foi Deputado Federal e
Vereador na Capital pelo PT


