É preciso preservar, recuperar, ampliar, projetar e unificar
Não basta liderar as pesquisas. É preciso construir a maioria capaz de vencer.
A eleição de 2026 não será uma repetição de 2022. O eleitorado mudou, a direita se reorganizou e a disputa tornou-se mais fragmentada.
Lula chega competitivo e mantém vantagem em diferentes cenários de primeiro turno, mas os números também mostram que uma eventual disputa de segundo turno será muito mais apertada.
A conclusão é simples: liderar não é vencer.
O desafio do campo progressista é transformar uma base eleitoral sólida em uma maioria social e política, que ainda precisa ser construída.
O primeiro movimento é preservar. A força de Lula no Nordeste e entre setores populares continua sendo fundamental, mas nenhum eleitor pode ser considerado definitivamente conquistado. Voto não é patrimônio. É uma decisão que precisa ser renovada. Mobilizar a base, combater a desinformação e mostrar resultados concretos são tarefas permanentes.
O segundo movimento é recuperar. Existe um eleitor que votou em Lula em 2022 e hoje demonstra dúvidas ou distanciamento. Não devemos tratá-lo como adversário. É preciso compreender suas razões e reconstruir confiança. Isso exige reconhecer problemas, mostrar o que mudou e explicar o que ainda precisa mudar. Credibilidade não nasce da afirmação de que tudo está bem, mas da capacidade de mostrar resultados e enfrentar aquilo que ainda não foi resolvido.
O terceiro movimento é ampliar. Há uma parcela do eleitorado que não está inteiramente identificada com Lula nem com a direita. Esse eleitor será decisivo. Não é necessário transformá-lo em petista, é preciso convencê-lo de que existe um projeto capaz de melhorar sua vida.
Uma maioria presidencial não se constrói pela uniformidade ideológica, mas pela convergência em torno de um projeto de país.
A economia será decisiva nessa disputa. Não basta apresentar indicadores. É preciso transformar números em experiência concreta: emprego, salário, preço dos alimentos, crédito, saúde, educação e qualidade dos serviços públicos. O eleitor precisa perceber como o desempenho da economia chega à sua casa.
O quarto movimento é disputar o futuro. Lula tem história e resultados para apresentar, mas eleição não é apenas julgamento do passado. É escolha sobre o que vem pela frente. A campanha precisa responder: que Brasil queremos construir de 2027 a 2030?
Desenvolvimento, reindustrialização, tecnologia, inteligência artificial, transição energética, infraestrutura, empregos de qualidade, redução das desigualdades e soberania nacional deve compor uma visão de futuro. O passado dá legitimidade. O presente dá credibilidade. Mas é o futuro que mobiliza.
Há ainda uma questão territorial. O Nordeste continuará sendo fundamental, mas o resultado nacional passa pelo Sudeste, especialmente São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Não se trata necessariamente de transformar esses estados em redutos lulistas. Trata-se de reduzir perdas, ampliar competitividade e impedir que uma vantagem adversária regional determine o resultado nacional.
Por fim, é preciso unificar. A fragmentação da direita no primeiro turno não pode produzir falsa sensação de segurança. No segundo turno, diferentes candidaturas podem convergir para um mesmo campo político. A campanha precisa estar preparada para duas eleições dentro de uma: a primeira exige ampliação; a segunda, unificação.
O PT será indispensável para organizar essa caminhada, mas a maioria necessária para eleger Lula precisa ser maior que a coligação O Brasil Pronto Para Mais.
É essa compreensão que deve orientar a estratégia: preservar, recuperar, ampliar, projetar e unificar.
A eleição não será vencida apenas pelo candidato que tiver a maior base. Será vencida por aquele que conseguir transformar sua base em maioria, sua liderança em confiança e seu projeto em esperança de futuro.
Esperança não é esperar a vitória. É organizar as condições para conquistá-la.
SP 27 ago 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice-presidente do PT Paulista, foi vereador e deputado federal
Escreve aqui sobre estratégia e eleições 2026


