OS MORALISTAS SEM MORAL, por Francisco Chagas

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O falso patriotismo dos Clubes Militares é uma tentativa de impedir a reeleição de Lula

A nota “Os riscos à Nação”, divulgada pelos Clubes Militares, Naval e de Aeronáutica contra o governo Lula, merece ser lida menos pelo que afirma do que pelo que deixa escapar. Por trás do discurso solene sobre Pátria, moralidade, corrupção e soberania, há um evidente desconforto de setores militares diante de um governo que não aceita que interesses corporativos da caserna se confundam com os interesses nacionais.
A nota precisa ser situada no contexto político de 2026. Ao transformar críticas ao governo em uma suposta advertência em nome da Nação, os Clubes Militares entram objetivamente no terreno da disputa política. Seu discurso pode ser compreendido como parte de uma tentativa de desgastar Lula e criar um ambiente político favorável à sua derrota eleitoral.
É preciso, portanto, chamar as coisas pelo nome. O que aparece como patriotismo pode esconder interesses muito menos nobres. O que se apresenta como defesa da soberania pode ser, em determinados setores, a defesa de uma posição privilegiada dentro do Estado brasileiro e de uma relação de dependência externa que também lhes garante poder interno.

O falso patriotismo
Há setores militares que parecem acreditar que defender o Brasil significa preservar seus próprios privilégios.
Durante décadas, construiu-se uma relação peculiar: uma potência estrangeira fornece doutrina, equipamentos, tecnologia e referência estratégica; em troca, setores das Forças Armadas incorporam essa visão de mundo e mantêm uma posição privilegiada dentro da sociedade brasileira.
Não se trata apenas de geopolítica. Existe também uma dimensão material.
Grandes compras militares movimentam bilhões de reais e criam uma cadeia de interesses que envolve fabricantes estrangeiros, intermediários, consultorias, empresas brasileiras e, muitas vezes, oficiais da reserva que passam a atuar no setor privado.
É a conhecida porta giratória: ontem o general de farda, hoje o consultor de pijama e amanhã o representante de uma empresa estrangeira interessada em vender ao Estado brasileiro.
Não se pode afirmar que todo militar da reserva esteja submetido a essa lógica. Mas é legítimo perguntar por que determinados setores resistem tanto à construção de uma política de defesa baseada em soberania tecnológica, transferência efetiva de conhecimento e fortalecimento da indústria nacional.
A resposta pode ser menos patriótica do que parece.

Dependência que produz poder
A dependência externa não é necessariamente percebida como problema por quem dela se beneficia. Ao contrário: ela pode produzir privilégios.
A vinculação a uma potência estrangeira oferece a determinados setores militares não apenas equipamentos e doutrina, mas também prestígio, acesso, influência e uma espécie de reconhecimento externo que reforça seu poder dentro do próprio Brasil.
É uma relação perversa: a potência estrangeira preserva sua influência e setores da elite militar preservam sua autonomia corporativa dentro do Estado brasileiro.
Quem paga a conta é a soberania nacional.
Por isso, a defesa intransigente de determinados alinhamentos internacionais precisa ser examinada com cuidado. Não basta perguntar quem ganha geopoliticamente. É necessário perguntar também quem ganha economicamente e corporativamente.

Moralistas sem moral
A nota fala em corrupção e probidade. Mas a indignação parece seletiva.
Onde estavam os mesmos moralistas quando generais ocupavam postos centrais no governo Bolsonaro? Onde estava a preocupação com a eficiência administrativa durante a pandemia? Onde estava a indignação diante do orçamento secreto, do aparelhamento político e do desmonte de políticas públicas?

A memória seletiva destrói a autoridade moral
Quem escolhe quando a corrupção é grave e quando deve ser ignorada não está defendendo a moral pública. Está fazendo política.
E fazer política é direito de qualquer cidadão. O que não é aceitável é utilizar o prestígio institucional das Forças Armadas para conferir aparência de interesse nacional a uma agenda corporativa.

A disputa de 2026
É justamente nesse ponto que a nota dos Clubes Militares ganha uma dimensão que ultrapassa a crítica circunstancial ao governo.
O Brasil está diante de uma nova disputa presidencial. Lula busca a reeleição, e setores que se opõem ao seu projeto sabem que a disputa não será apenas eleitoral: será também uma disputa sobre o papel do Estado, a soberania nacional, a política externa e o modelo de desenvolvimento.
Nesse cenário, a utilização da autoridade simbólica das Forças Armadas para produzir desconfiança, medo e descrédito em relação ao governo eleito não pode ser tratada como algo politicamente neutro.
Não se trata de negar aos militares o direito de opinião. Oficiais da reserva, como cidadãos, têm pleno direito de participar do debate público. A questão é outra: quando clubes que se apresentam como representantes de segmentos das Forças Armadas divulgam manifestos políticos em nome de valores como Pátria, moralidade e segurança nacional, é necessário perguntar a serviço de que projeto político estão colocando esse discurso.
A tentativa de transformar a eleição de 2026 em um plebiscito moral contra Lula pode esconder, novamente, uma disputa muito mais profunda: quem terá o comando do Estado brasileiro e qual projeto de país prevalecerá.

O incômodo é outro
Talvez o que realmente incomode esses setores não seja o Brasil estar em risco. E sim o fato de que o Brasil esteja tentando recuperar graus de autonomia.
Um governo que fortalece relações com os BRICS, amplia a cooperação com a China, busca transferência tecnológica, valoriza a indústria nacional e afirma uma política externa independente reduz espaços para intermediários, lobistas e interesses corporativos acostumados a operar na zona cinzenta entre o Estado e o mercado.
É isso que parece incomodar.
A questão não é apenas Lula. É a perda de um modelo de poder.

A República não tem donos
As Forças Armadas pertencem à Nação.
Não pertencem a uma corporação. Seu orçamento é público, seus equipamentos são comprados com dinheiro público e sua autoridade deriva da Constituição.
Por isso, nenhum setor militar pode transformar interesses corporativos em interesse nacional.
O Brasil precisa de Forças Armadas fortes, profissionais e tecnologicamente soberanas. Mas precisa também de controle civil, transparência e respeito absoluto ao voto popular.
O verdadeiro patriotismo não está em defender fornecedores estrangeiros, privilégios corporativos ou espaços de poder. Está em defender a autonomia do Brasil.
Por isso, a nota dos Clubes Militares deve ser respondida sem medo e sem eufemismos.
Por trás do falso patriotismo, é preciso enxergar os interesses.
E, diante da disputa eleitoral de 2026, há perguntas que não podem ser evitadas:
Quem afinal está defendendo a Pátria?
Quem está apenas tentando impedir a reeleição de Lula para preservar seus próprios interesses e privilégios em nome dela?

SP 17 agosto 2026
FRANCISCO CHAGAS, cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex-deputado federal e vereador

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