O Estádio 1º de Maio, a histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, foi escolhido para o lançamento da campanha de Lula em 2026. Não é só uma questão de local. É história, é memória, é o mesmo chão onde Lula se projetou como liderança sindical antes de virar liderança nacional. O ato está marcado para 16 de agosto de 2026.
Para entender essa escolha, é preciso saber o que aconteceu ali, e por que essa história segue tão viva hoje, mais de quarenta anos depois, quando o país voltou a enfrentar uma tentativa de golpe.
Quando os trabalhadores deixaram de ser espectadores
No final da década de 1970, o Brasil vivia sob uma ditadura militar. Não havia liberdade política plena, os sindicatos sofriam intervenção do governo, as greves eram duramente reprimidas e muitos brasileiros foram perseguidos, presos, torturados ou obrigados a deixar o país.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores enfrentavam salários corroídos pela inflação, jornadas pesadas e pouca chance de participar das decisões que afetavam suas próprias vidas. Dentro da fábrica, cada trabalhador sozinho tinha pouca força diante das grandes empresas e do Estado autoritário.
Foi nesse contexto que os metalúrgicos do ABC começaram a se organizar.
Em maio de 1978, os trabalhadores da fábrica da Scania entraram, bateram o cartão, vestiram o uniforme, mas não ligaram as máquinas. Aquele gesto simples tinha uma força enorme. As máquinas dependiam do trabalho humano. Quando os trabalhadores cruzaram os braços, mostraram que a produção, a riqueza e o funcionamento da sociedade dependiam deles.
A mobilização se espalhou pelas fábricas da Ford, Mercedes-Benz, Volkswagen e por dezenas de empresas do ABC. Em março de 1979, cerca de 200 mil metalúrgicos entraram em greve. A sede do sindicato não comportava mais as assembleias, e foi assim que os trabalhadores passaram a se reunir no Estádio de Vila Euclides, como registram o Instituto Lula e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Ali, sem grandes estruturas, sem palco adequado e, em alguns momentos, debaixo de chuva, Lula falava de cima de uma mesa para milhares de trabalhadores. Mas a importância da Vila Euclides não vem só dos discursos de uma liderança. O que tornou aquele lugar histórico foi a presença organizada do povo. Aquelas assembleias transformaram trabalhadores tratados apenas como mão de obra em sujeitos políticos, capazes de discutir salários, direitos, democracia e o futuro do país.
Em 1980, a repressão aumentou. O sindicato sofreu intervenção, Lula e outras lideranças foram presos com base na Lei de Segurança Nacional, e a ditadura tentou impedir as mobilizações. Mesmo assim, mais de cem mil pessoas foram às manifestações daquele período, segundo o Memorial da Democracia e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O estádio, que chegou a carregar oficialmente o nome do general Costa e Silva, presidente do período mais duro da ditadura, passou a se chamar Estádio 1º de Maio. Um espaço batizado em homenagem a um governante da ditadura foi ressignificado pela luta dos trabalhadores e recebeu o nome do Dia Internacional da Classe Trabalhadora.
A democracia também nasceu nas portas das fábricas
Aprendemos, muitas vezes, que democracia se faz no parlamento, nos tribunais, nas eleições. E se faz mesmo. Mas a democracia brasileira também foi reconstruída nas fábricas, nos bairros, nas comunidades, nas igrejas, nos sindicatos, nas grandes assembleias populares.
A Vila Euclides mostrou algo simples: a democracia começa quando as pessoas param de enfrentar seus problemas sozinhas e passam a reconhecê-los como problemas coletivos. Um salário insuficiente pode parecer um problema particular de cada família. Quando milhares de trabalhadores percebem que sofrem a mesma exploração e se organizam, o problema deixa de ser individual e vira questão política.
Essa é uma das lições que a Vila Euclides deixou: a consciência política nasce quando o povo entende que sua situação não é só destino, nem só esforço individual, mas também resultado das relações econômicas, das decisões do Estado, da forma como o poder está distribuído na sociedade.
A Vila Euclides e o nascimento do PT
Vale uma distinção. A fundação formal do Partido dos Trabalhadores aconteceu em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo. Mas o PT só foi possível por causa das lutas que cresceram nas fábricas, nos sindicatos, nas comunidades e em lugares como a Vila Euclides.
O partido nasceu da união entre o novo sindicalismo, movimentos populares, comunidades ligadas à Igreja, intelectuais, artistas, militantes que enfrentaram a ditadura e gente que acreditava que os trabalhadores precisavam construir uma organização política própria, como registra o Partido dos Trabalhadores.
Por isso, a Vila Euclides não deve ser apresentada apenas como o lugar onde Lula começou sua trajetória. É um dos lugares onde trabalhadores comuns descobriram que podiam ocupar a política, apresentar suas próprias reivindicações e disputar os rumos do Brasil. Lula não surgiu acima ou separado daquela luta. Sua liderança foi construída dentro de uma experiência coletiva. A multidão reunida na Vila Euclides não era plateia. Era a verdadeira protagonista da história.
O Brasil mudou, a disputa não
O Brasil de hoje é diferente do Brasil de 1979. A classe trabalhadora também mudou. Não está mais só nas grandes fábricas. Está nas escolas, nos hospitais, nos transportes, nos aplicativos, nos pequenos comércios, nos serviços terceirizados, no trabalho doméstico, nas universidades, nos escritórios, nos bairros populares, nas periferias. São trabalhadores com carteira assinada, autônomos, pequenos empreendedores, servidores públicos, desempregados, entregadores, motoristas, cuidadoras, professores, profissionais da saúde e milhões de pessoas que vivem do próprio trabalho.
Apesar das mudanças, a questão central permanece: quem produz a riqueza precisa participar das decisões sobre o destino dessa riqueza. A luta de hoje passa pela valorização dos salários, pela redução da jornada de trabalho, pela criação de empregos dignos, pela regulamentação do trabalho por aplicativos, pela proteção da Previdência, pelo fortalecimento do SUS e da educação pública, pela retomada da indústria nacional, pela defesa do meio ambiente e por uma tributação mais justa, em que os mais ricos paguem proporcionalmente mais. É também luta pela defesa permanente da democracia, porque em 2022 e 2023 o Brasil descobriu, mais uma vez, que essa defesa não pode ser dada como garantida.
O 8 de Janeiro: quando o mesmo projeto tentou voltar
Em 8 de janeiro de 2023, o Brasil viu esse projeto autoritário tentar voltar. Não voltou de farda dessa vez. Voltou de multidão vestida de verde e amarelo, quebrando vidraças no Congresso, no Planalto e no STF, exigindo intervenção militar contra um presidente eleito com votos. Não foi um dia de fúria isolado. Foi a ponta visível de um plano que vinha sendo arquitetado havia meses, dentro do próprio governo que acabava de perder a eleição.
Ao longo de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal julgou 31 acusados envolvidos na trama golpista que culminou nos atos de 8 de janeiro. Foram 29 condenações e duas absolvições. A pena mais alta coube a quem estava no topo da cadeia de comando: o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado, pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A condenação transitou em julgado no fim de novembro, depois que a Polícia Federal o prendeu por violar a tornozeleira eletrônica, e hoje ele cumpre pena na Superintendência da PF em Brasília.
O que talvez ainda não tenha chegado com toda a força à conversa cotidiana é o tamanho do plano que a Corte revelou. Não foi só invasão de prédio público. Um dos núcleos julgados foi condenado especificamente por arquitetar o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. O plano tinha nome: “Punhal Verde e Amarelo”. Foi redigido pelo general Mário Fernandes e levado pessoalmente a Bolsonaro. Segundo o ministro Flávio Dino, que presidiu parte dos julgamentos, o país “chegou à beira do precipício” de ver assassinados, ao mesmo tempo, um presidente, um vice-presidente e um ministro do Supremo. Não foi conversa de bar. Foi plano com nome, com autor, com destinatário.
A mesma ditadura, outro uniforme
A geração da Vila Euclides enfrentou perseguição sindical, censura e prisão política com base na Lei de Segurança Nacional. O que a trama golpista de 2022 e 2023 tentou fazer segue o mesmo roteiro, só que atualizado: deslegitimar o resultado das urnas, mobilizar acampamentos golpistas em frente a quartéis pedindo intervenção militar, produzir uma minuta de decreto para instalar estado de exceção e, quando isso não bastasse, eliminar fisicamente quem estivesse no caminho.
A diferença entre 1964 e 2023 não está no projeto. Está em quem resistiu a ele. Em 1964, os comandantes militares aderiram ao golpe. Em 2022, não aderiram, e é por isso que o “Punhal Verde e Amarelo” ficou no papel. Mas a intenção golpista foi julgada, provada e condenada pelo próprio Supremo Tribunal Federal, com voto unânime da Turma nos núcleos mais graves. Não é uma leitura política de um lado. É o que consta no processo.
Bolsonarismo sem Bolsonaro: Flávio na linha de frente
Bolsonaro está preso e inelegível até 2033. Mas o projeto que ele liderou não foi condenado junto com ele. Continua, agora com o nome do filho.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é hoje o pré-candidato do bolsonarismo à Presidência em 2026, lançado justamente porque o pai não pode mais concorrer. Na véspera da prisão do ex-presidente, foi Flávio quem convocou a militância para uma vigília em frente ao condomínio onde Bolsonaro morava. Depois da prisão, voltou a reafirmar publicamente que segue “firme” na candidatura, com o aval direto do pai. Não é herança simbólica. É continuidade de projeto, de discurso e de base eleitoral, com o mesmo desprezo pelas instituições que produziu o 8 de Janeiro.
Tarcísio de Freitas: o mesmo campo, outra função
Enquanto Flávio carrega a bandeira nacional do bolsonarismo, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cumpre outro papel na mesma engrenagem. Foi ministro da Infraestrutura de Bolsonaro entre 2019 e 2022, ou seja, esteve dentro do governo durante o período em que a trama golpista foi arquitetada. Hoje, já governador, garantiu publicamente lealdade ao ex-presidente e disputa a reeleição em São Paulo em 2026 em vez de tentar o Planalto, justamente para preservar sua base e, ao mesmo tempo, sustentar Flávio na disputa nacional. Setores do mercado financeiro torcem para que ele seja o nome da direita em 2026. Mas Tarcísio segue, até aqui, dentro da mesma aliança que sustentou o golpismo, não fora dela.
Não é preciso que cada um desses nomes tenha assinado a minuta do decreto golpista para que representem o mesmo campo autoritário. Fazem parte da mesma engrenagem política que tentou, e vai tentar de novo, colocar o resultado das urnas abaixo da vontade de um grupo.
O que está em jogo com o novo governo Lula
Desde 2023, o governo Lula tem devolvido ao país políticas que o bolsonarismo tentou desmontar: a valorização real do salário mínimo, o fortalecimento do SUS depois de anos de sucateamento, a retomada de programas de habitação e transferência de renda, a reconstrução de uma política de proteção ao trabalhador. Nenhuma dessas conquistas está garantida para sempre. Todas dependem de disputa permanente, inclusive nas urnas.
É por isso que o lançamento da campanha de reeleição de Lula em 2026 vai acontecer justamente na Vila Euclides. Não é coincidência de calendário. É o mesmo território onde o povo aprendeu que direito não é presente de governante, é conquista que se defende organizada. A disputa de 2026 não é entre dois projetos de governo quaisquer. É entre quem foi condenado pelo próprio Supremo por tentar derrubar a democracia à força e quem defende que o povo continue decidindo, no voto, o destino do país.
O significado político do lançamento de 2026
Começar a campanha na Vila Euclides significa afirmar que o futuro do Brasil deve ser construído a partir do povo que trabalha. Significa lembrar que direitos não foram dados de graça pelos poderosos, foram conquistados na organização, na solidariedade, na luta coletiva. E significa dizer que política não é propriedade dos ricos, dos grandes grupos econômicos, de quem usa o Estado para defender privilégio. É o instrumento pelo qual o povo decide sobre trabalho, renda, saúde, educação, moradia, segurança, cultura e desenvolvimento nacional.
A Vila Euclides ensina que nenhuma liderança, por mais importante que seja, substitui a organização popular. Eleger Lula é parte da luta, mas transformar o Brasil, e derrotar o bolsonarismo nas urnas, exige participação permanente nos bairros, sindicatos, movimentos sociais, universidades, igrejas, locais de trabalho e diretórios partidários.
O povo que resiste de novo
Nenhuma ditadura se sustenta sem gente disposta a bater continência para ela, e nenhuma democracia se sustenta sozinha, sem gente organizada para defendê-la. O 8 de Janeiro mostrou que o projeto autoritário brasileiro não morreu em 1985. Só trocou de roupa. Bolsonaro está preso, mas Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas seguem carregando a mesma bandeira, cada um a seu modo.
Voltar à Vila Euclides é voltar a uma origem para assumir uma responsabilidade com o futuro. É afirmar que o Brasil não pertence ao autoritarismo, ao privilégio, à desigualdade. Pertence ao povo que trabalha, produz, cuida, ensina, constrói e mantém o país de pé.
Em 1979, os trabalhadores entraram naquele estádio para defender salários e direitos, e acabaram ajudando a mudar a história do Brasil. Derrotar o bolsonarismo em 2026 não é sobre reeleger uma pessoa. É sobre repetir, na urna, o que os metalúrgicos do ABC fizeram quando pararam as máquinas: mostrar que o poder não é dos que tentam tomá-lo pela força, é do povo que se organiza para decidir seu próprio destino.
A Vila Euclides segue ensinando uma verdade simples: quando o povo reconhece a própria força, se organiza coletivamente e ocupa a política, nenhum futuro está fechado de vez.
Pedro Alem Santinho, Advogado, Sociólogo e Presidente do Diretório Zonal do PT da Lapa


