Esta é uma semana em que a discussão sobre a votação no Senado sobre o fim da escala 6×1 está no centro do debate, mobilizada por trabalhadores, especialistas e representantes políticos. Na pauta, questões que vão além das relações trabalhistas: o direito ao tempo, ao cuidado e à qualidade de vida. A proposta ganha destaque principalmente pelos impactos que podem gerar na vida das mulheres, estruturalmente afetadas pela dupla e até tripla jornada.
Em abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso Nacional o PL 1838/2026 que prevê a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, garantindo dois dias de descanso remunerado sem redução salarial. A medida poderá beneficiar cerca de 37 milhões de trabalhadores e trabalhadoras em todo o país.
Lula, ao falar sobre a 6×1, disse que a vida da mulher é “mais grave” porque, além do emprego, ainda tem os afazeres de casa.
“Nós vamos acabar com a escala 6×1 e vamos botar a escala 5×2, o povo vai trabalhar cinco dias e vai poder descansar dois. A mulher trabalha e quando chega em casa, ela tem que lavar a louça, tem que lavar o banheiro, tem que lavar roupa, tem que cuidar das coisas, a mulher tem dupla jornada”, afirmou o presidente.
Realidade pesada da dupla jornada
Mesmo quando cumprem jornadas formais de até 44 horas semanais, muitas mulheres seguem responsáveis pelo trabalho invisível do cuidado: filhos, idosos, organização da casa e outras atividades que não recebem remuneração. O debate evidencia uma realidade enfrentada diariamente pelas mulheres brasileiras.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a desigualdade na divisão do trabalho doméstico ainda faz parte da realidade brasileira. Em média, as mulheres dedicam 21,3 horas semanais aos cuidados da casa e de outras pessoas, enquanto entre os homens essa média é de 11,7 horas por semana.
A desigualdade torna-se ainda mais evidente no recorte racial: entre mulheres pretas e pardas, a carga semanal é, em média, 1,6 hora maior em comparação às mulheres brancas, evidenciando como gênero e raça seguem impactando diretamente a distribuição do trabalho de cuidado no país.
Tempo para família
A deputada federal Benedita da Silva (PT/RJ) defende a luta pelo fim da escala 6×1, que é também uma luta pelo direito à convivência familiar.
“Quem trabalha merece descanso, lazer e a oportunidade de compartilhar a vida com quem ama. Família também precisa de tempo. Tempo para estar junto, para cuidar, para acompanhar o crescimento dos filhos e das filhas, para visitar os mais velhos, para viver. Defender uma jornada de trabalho mais justa é defender mais dignidade para as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros”, afirmou.
Além do Impacto econômico
Com o objetivo de enfrentar essa desigualdade estrutural, o Governo Federal vem implementando ações voltadas à chamada Política Nacional de Cuidados. Desenvolvido em parceria entre o Ministério das Mulheres, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e Ministério dos Direitos Humanos, o plano prevê investimentos de R$ 25 bilhões até 2027.
As iniciativas incluem ampliação de vagas em creches e escolas de tempo integral, criação de cuidotecas, lavanderias coletivas, centros de atendimento para idosos e pessoas com deficiência, além de serviços de apoio domiciliar.
A história mostra que os avanços nos direitos trabalhistas nunca impediram o desenvolvimento do Brasil, pelo contrário: contribuíram para uma sociedade mais justa e civilizada, como defende a líder do Governo no Senado, Teresa Leitão.
“O fim da escala 6×1 é um passo necessário e urgente para um Brasil mais justo. A importância da redução da jornada de trabalho funciona como uma medida que promove mais dignidade, qualidade de vida, saúde e justiça social para milhões de trabalhadoras brasileiras. Além disso, também destaco os impactos da mudança na promoção da igualdade de gênero”, destacou.
Em audiência pública na Câmara dos Deputados, a secretária Nacional de Articulação Nacional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, trouxe a pauta da realidade da dupla jornada, que impõe uma carga maior às mulheres quando se considera a soma do trabalho doméstico com a atividade profissional remunerada e também avaliou que a dupla jornada têm afetado diretamente a saúde das mulheres, contribuindo para o aumento do adoecimento físico e emocional.


