O BRASIL SOB AMEAÇA, por Francisco Chagas

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“A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e ser nacional.” Machado de Assis
“A soberania nacional não se implora, conquista-se. Não se negocia, defende-se. Não se abandona, lega-se aos filhos como a herança mais sagrada.” Rui Barbosa

Carta Aberta aos Brasileiros e Brasileiras
Brasileiros e brasileiras,

As palavras de Machado de Assis e Rui Barbosa atravessam o tempo para nos alertar sobre um perigo que toda geração é chamada a enfrentar: a perda da soberania nacional.


Não se trata de uma ameaça que chega vestida de uniforme militar ou anunciada por canhões. No século XXI, as nações costumam perder sua autonomia de maneira mais silenciosa. Primeiro entregam o controle de seus recursos estratégicos. Depois subordinam sua política externa. Em seguida passam a adaptar suas decisões econômicas, tecnológicas e de segurança aos interesses de outros países. Quando percebem, continuam independentes no papel, mas já não decidem plenamente seu próprio destino.
É essa possibilidade que deve preocupar os brasileiros diante do avanço de um projeto político representado por Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e pelos setores mais alinhados ao trumpismo internacional.
O problema não está em manter boas relações com os Estados Unidos. O Brasil deve manter relações produtivas com todas as grandes potências do mundo. O problema surge quando uma relação entre países se transforma em relação de dependência.

Nos últimos anos, Eduardo Bolsonaro assumiu o papel de principal articulador de uma aproximação ideológica e estratégica com Donald Trump e os setores mais radicais da direita norte-americana. Mais do que uma aliança política, trata-se da construção de um alinhamento que coloca interesses internacionais acima da formulação de um projeto nacional independente.
Essa ameaça deixa de ser abstrata quando observamos alguns fatos concretos.
As terras raras brasileiras, fundamentais para a indústria de alta tecnologia, inteligência artificial, equipamentos militares e transição energética, passaram a ser apresentadas como ativo estratégico para atender à disputa dos Estados Unidos contra a China. Em vez de discutir como transformar essas riquezas em desenvolvimento industrial, pesquisa científica e empregos para os brasileiros, setores do bolsonarismo falam em colocá-las a serviço de uma estratégia geopolítica estrangeira.

O mesmo ocorre no campo da segurança. Quando lideranças brasileiras recorrem a governos estrangeiros para tratar de questões que pertencem à esfera da soberania nacional, abre-se uma porta perigosa para formas crescentes de ingerência externa. O que começa como cooperação pode terminar como tutela.

A história da América Latina é rica em exemplos. Ao longo de décadas, intervenções políticas, econômicas e diplomáticas foram justificadas em nome do combate ao comunismo, da segurança continental, da guerra às drogas ou do combate ao terrorismo. Mudaram os discursos. O resultado, muitas vezes, foi o mesmo: países mais dependentes e menos capazes de decidir seus próprios caminhos.
Por isso, a questão central desta eleição não é Donald Trump. Não é sequer Eduardo Bolsonaro. A questão é o Brasil.
Queremos um país que negocie com todas as potências preservando sua autonomia? Ou um país que transforme sua política externa em extensão das disputas ideológicas travadas em Washington?
Queremos utilizar nossas riquezas para construir uma nação mais desenvolvida e soberana? Ou aceitaremos que elas sejam definidas prioritariamente pelas necessidades estratégicas de outros países?
Nenhum povo perde sua soberania de uma vez. Ela é cedida passo a passo, concessão após concessão, até que a dependência se torne normal.
O Brasil é grande demais para aceitar esse destino.
A escolha, como sempre, pertence ao povo brasileiro.
SP 22 de junho 2026


FRANCISCO CHAGAS, cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex deputado federal e vereador

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