PARA VENCER É PRECISO DISPUTAR RAZÃO, EMOÇÃO, PERCEPÇÃO E A ALMA DA POVO, por Francisco Chagas

Reprodução IA

Durante muito tempo acreditou-se que eleições eram vencidas apenas pela razão. Bastaria apresentar bons programas de governo, indicadores econômicos positivos e propostas técnicas consistentes. A política seria uma disputa racional sobre quem administraria melhor o país.
O século XXI destruiu essa ilusão.
Hoje, eleições também são vencidas no território das emoções, das identidades, dos medos e da percepção coletiva da realidade. Não basta governar. Não basta apresentar números. Não basta estar tecnicamente correto.
É preciso produzir sentido.
Vivemos a era dos algoritmos, das redes sociais e da guerra permanente de narrativas. Nesse ambiente, a emoção circula mais rápido que a reflexão. O medo viraliza mais do que a análise. A indignação mobiliza mais do que relatórios econômicos.
A chamada “pós-verdade” não significa que os fatos deixaram de existir. Significa apenas que os fatos perderam o monopólio da formação da opinião pública. Hoje, a experiência subjetiva pesa quase tanto quanto a realidade objetiva.
É possível existir crescimento econômico sem sensação de melhora. É possível reduzir o desemprego sem produzir esperança. É possível fortalecer políticas públicas sem reconstruir confiança popular.
O povo não vive planilhas. O povo vive experiências.
As pessoas acordam preocupadas com o preço da comida, o aluguel, a dívida do cartão, o medo da violência e a insegurança sobre o futuro. A política passa primeiro pelo estômago, pela ansiedade e pela emoção antes de chegar aos gráficos econômicos.
É justamente aí que parte importante do campo progressista ainda encontra dificuldades.
Durante anos, muitos setores da esquerda acreditaram que bastava apresentar dados corretos, defender a democracia e exibir realizações administrativas. Enquanto isso, a extrema-direita compreendeu rapidamente o funcionamento emocional da comunicação digital. Construiu pertencimento. Construiu identidade. Construiu comunidade emocional.
Transformou medo em mobilização política. Indignação em fidelidade. Ressentimento em linguagem popular.
Enquanto isso, setores progressistas responderam muitas vezes com comunicação burocrática, linguagem excessivamente técnica e discurso defensivo.
Mas povos não se movem apenas por argumentos. Povos se movem por significado.
O eleitor não pergunta apenas quem administra melhor. Pergunta também:
“Quem me protege?” “Quem entende minha vida?” “Quem me respeita?” “Quem me oferece esperança?”
A disputa política contemporânea é profundamente afetiva.
Por isso, muitas vezes, pessoas beneficiadas por políticas sociais votam em projetos conservadores. Porque o voto não é apenas racional. Ele também é emocional, cultural e identitário.
O desafio progressista não é abandonar a razão. Pelo contrário. A esquerda precisa continuar defendendo: democracia; ciência; direitos sociais; combate às desigualdades.
Mas precisa compreender que razão sem emoção não mobiliza maiorias.
Uma renegociação de dívidas não pode ser comunicada apenas como medida econômica.
Ela precisa significar:
“Agora minha vida voltou a respirar.”
Uma política de emprego precisa representar:
“Meu filho voltou a ter futuro.”
Uma política de segurança precisa transmitir:
“Minha família voltou a se sentir protegida.”
Esse talvez seja hoje um dos temas mais sensíveis para o campo progressista. Grande parte da população vive cercada por medo, violência e sensação de abandono. Quando a esquerda parece distante desse sofrimento cotidiano, perde conexão emocional com parcelas importantes do povo.
O povo quer direitos. Mas também quer proteção.
Outro ponto decisivo está nas periferias urbanas, verdadeiro coração político do Brasil contemporâneo. Ali convivem religiosidade, empreendedorismo popular, precarização econômica, cultura digital e desejo intenso de ascensão social.
Quem quiser disputar o futuro do país precisará disputar também as periferias com presença humana, escuta, respeito e pertencimento.
A política contemporânea exige comunidade.
Exige linguagem simples. Exige afeto. Exige narrativa. Exige capacidade de transformar políticas públicas em esperança coletiva.
O maior erro possível é imaginar que comunicação seja algo secundário.
Na era digital, comunicação não é acessório do governo. É parte do próprio exercício do poder.
Quem não comunica perde percepção. Quem perde percepção perde legitimidade. Quem perde legitimidade perde capacidade de mobilização.
As eleições já não são vencidas apenas nos debates televisivos ou nos indicadores econômicos. Elas são vencidas também: nas redes sociais; nos grupos de mensagens;
nas igrejas; nos afetos; nos medos; nas esperanças; na percepção cotidiana da realidade.
O Brasil vive hoje uma disputa profunda sobre o significado do futuro nacional. Não se trata apenas de esquerda contra direita. Trata-se de diferentes ideias sobre segurança, liberdade, justiça, pertencimento e esperança.
Por isso, vencer no século XXI exige mais do que razão técnica.
Exige tocar mente e coração.
Exige melhorar concretamente a vida da população, mas também produzir esperança, confiança e sentido coletivo.

Quem quiser transformar o Brasil precisará compreender definitivamente:
não basta disputar o Estado. É preciso disputar razão, emoção, percepção e a alma do povo.

SP 13 de maio 2026
FRANCISCO CHAGAS, cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex deputado federal e vereador

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