A eleição que se aproxima no Brasil não será apenas uma disputa entre nomes e programas. Estará em jogo o tipo de país que queremos ser.
De um lado, um projeto baseado em direitos, inclusão social, fortalecimento democrático e soberania popular. De outro, forças que transformaram o medo em método político, o conflito em estratégia permanente e a divisão em combustível de poder.
Há um paradoxo evidente: os indicadores melhoram, os empregos crescem, a fome recua, a economia reage. Mas parte da população trata isso como obrigação, não como conquista. Enquanto isso, adversários sem entregas consistentes seguem fortes porque operam no terreno mais poderoso da política — o das emoções.
A questão central é esta: como vencer sem copiar os métodos que corroem a democracia? Como disputar corações e mentes sem recorrer à mentira, ao ódio ou à destruição moral do adversário?
O medo como instrumento de poder
A política autoritária aprendeu cedo: o medo mobiliza rápido. Medo da violência, da perda de renda, da mudança social, do “outro”. Quando organizado como narrativa permanente, o medo enfraquece o pensamento crítico e leva pessoas a aceitar soluções brutais em troca de falsa segurança.
Mas o medo também aprisiona. Uma sociedade assustada perde confiança, criatividade, laços coletivos. Torna-se manipulável. O erro do campo democrático, muitas vezes, foi responder com a mesma lógica: “vote em mim para impedir o pior”. Isso funciona emergencialmente, mas não constrói maioria duradoura. Apenas prolonga o ciclo do pânico.
A saída não é negar o medo. É transformá-lo em coragem cívica: atenção sem histeria, firmeza sem autoritarismo, vigilância sem desespero.
As virtudes que podem vencer
Uma campanha democrática precisa recolocar virtudes no centro da política.
Honestidade real: não basta declarar valores. É preciso demonstrá-los — transparência, autocorreção, punição de desvios, compromisso com a verdade. Quando a política assume erros e corrige rumos, quebra o cinismo de que “todos são iguais”.
Solidariedade concreta: o povo brasileiro conhece a ajuda mútua no cotidiano. O Estado precisa refletir isso. SUS, escola pública, proteção social e moradia não são favores. São pactos de civilização.
Respeito firme: respeitar pessoas não significa tolerar ataques à democracia. Significa criticar ideias e práticas sem desumanizar cidadãos. Quem transforma o adversário em inimigo absoluto destrói o país que pretende governar.
Coragem democrática: coragem para dialogar fora da bolha, reconhecer erros próprios, enfrentar mentiras e sustentar princípios mesmo sob pressão.
Emoções que constroem
Sentimentos importam na política. A disputa nunca foi apenas racional.
Esperança ativa é a confiança de que a vida pode melhorar com participação e esforço coletivo. Indignação justa é a revolta contra fome, abandono, desigualdade e violência — direcionada a problemas reais, não a grupos transformados em bode expiatório. Amor ao país como cuidado significa recuperar símbolos nacionais para unir, não excluir. Patriotismo não é grito vazio, ou cores sem significados. É compromisso com quem vive aqui.
O que precisa ser recusado são duas paixões tóxicas: o medo paralisante e o ódio desumanizante.
Como traduzir isso em campanha
Conquistas precisam ser narradas como resultado de escolhas políticas. Emprego, renda, vacina, escola e comida na mesa não surgem por acaso. Foram decisões coletivas e podem ser desmontadas.
Propostas precisam virar imagens concretas. Em vez de números abstratos, experiências humanas. Não apenas “investimento em saúde”, mas menos filas, atendimento digno, vidas salvas. Não apenas “reforma tributária”, mas justiça entre quem paga demais e quem paga de menos.
No confronto com adversários, serenidade é força. Mentiras devem ser desmontadas com fatos e perguntas simples. E sempre separar liderança de eleitorado: criticar quem manipula, respeitar quem foi convencido. Na base social, mais escuta do que propaganda. Perguntar o que melhorou, o que piorou, o que ainda dói. Política democrática começa ouvindo.
Governar para reunificar
Uma campanha verdadeiramente democrática começa a governar antes da posse, preparando o terreno da convivência nacional. Vencer não autoriza humilhar derrotados. A mensagem após a eleição deve ser clara: o país pertence também a quem votou diferente.
Isso exige instituições fortes, oposição legítima, respeito às regras e disposição ao diálogo. Reconciliação não significa esquecer abusos nem apagar crimes. Significa impedir que o país viva em guerra permanente.
Vencer pela virtude
O mundo atravessa instabilidade econômica, disputa geopolítica, crise climática e transformações tecnológicas profundas. Nenhum país enfrenta isso se estiver destruído por dentro.
A extrema direita oferece inimigos internos. O autoritarismo oferece força sem solução. O cinismo oferece desalento. O campo democrático só será vitorioso de forma duradoura se vencer sem se degradar moralmente no caminho.
Vencer pela virtude é mais difícil. Exige paciência, firmeza e maturidade. Mas só assim será possível governar pela união.
Eleições passam. A nação permanece
SP 06 de maio 26
FRANCISCO CHAGAS
cientista social, vice-presidente do PT Paulista, ex deputado federal e vereador


