O Brasil vive uma contradição que envenena a política nacional. O desemprego bateu a menor taxa da história — 5,6% em 2025, a mais baixa desde o início da série histórica. A renda média do trabalhador nunca foi tão alta. Programas sociais foram retomados e ampliados. A política externa recolocou o país no mundo. E, no entanto, a popularidade do presidente Lula patina, a confiança nas instituições definha e a extrema direita cresce nas redes como mato após a chuva.
Como explicar esse paradoxo?
Mais importante: como superá-lo?
A resposta exige honestidade analítica.
Pesquisas recentes mostram que o problema não é único, mas múltiplo — e hierarquizável.
Em primeiro lugar, uma crise de confiança sistêmica: desconfia-se da Presidência, do Congresso, do STF, da imprensa, de tudo. Lula governa sob um filtro negativo que antecede sua gestão e é transcendente. Em segundo lugar, o bolso: a inflação dos alimentos corrói o poder de compra sentido na ponta, e o endividamento asfixia a classe média. Em terceiro, a guerra cultural: a extrema direita domina os algoritmos, os memes e as narrativas, enquanto o governo ainda pensa comunicação como divulgação institucional.
O diagnóstico está posto. Falta a coragem da virada.
É preciso, antes de tudo, reconhecer que Lula é o melhor comunicador da política brasileira — e subutilizá-lo é imperdoável. Por que não adotar a estratégia que deu certo no México? López Obrador falava diariamente ao país, em lives matinais curtas, diretas, sem mediação hostil. Lula pode fazer o mesmo: 15 minutos por dia, numa rede social, anunciando uma conquista, respondendo a uma mentira, olhando no olho de um cidadão. Consistência. Proximidade. Diálogo de verdade.
Ao mesmo tempo, o campo democrático precisa de um Comando Integrado de Resposta Estratégica. Não adianta mais reagir a fake news três dias depois, quando 87% da população já ouviu a mentira. É preciso monitoramento 24 horas por dia, produção de contra-ataque em horas, acionamento de influenciadores e militantes. Todos os partidos progressistas — PT, PSB, PSOL, PCdoB, PV, Rede — juntos numa sala de guerra digital. A direita trata a comunicação como guerra cultural. Respondamos à altura.
Há ainda as medidas concretas. O governo já anunciou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Já liberou R$ 7 bilhões do FGTS para endividados. Já tornou o Farmácia Popular 100% gratuito. Mas é preciso ir além. É preciso colocar na agenda prioritária a tarifa zero no transporte coletivo — uma política que alivia o bolso do trabalhador, reduz as emissões, democratiza a cidade e tem impacto direto e imediato na vida de milhões de brasileiros. Não é utopia: cidades como Caucaia (CE) e Maricá (RJ) já implementaram com sucesso. É hora de nacionalizar a discussão.
Na segurança pública, calcanhar de aquiles do governo, é preciso uma agenda que dialogue com o medo real da população sem abrir mão dos direitos humanos. Na juventude, o fim da escala 6×1 e o primeiro emprego como direito. No eleitorado religioso, um diálogo respeitoso e constante, abandonado pela esquerda há tempo demais.
Mas nenhuma medida tática substituirá o que falta de fundo: um projeto de futuro que encante. A esquerda se institucionalizou, perdeu a capilaridade nas periferias, deixou de produzir sonhos coletivos. Enquanto a extrema direita oferece ódio e nostalgia autoritária, o campo democrático precisa oferecer esperança concreta: a reforma urbana que devolve a cidade a quem nela vive, a transição ecológica que gera emprego verde, a democracia radical que não se esgota no voto.
Não há tempo a perder. As eleições de 2026 serão decididas por margens estreitas — 3%, 5% do eleitorado. Cada dia sem uma comunicação ofensiva, sem resposta aos ataques, sem presença territorial é um dia perdido para o avanço do autoritarismo.
Lula já venceu batalhas mais duras. O povo brasileiro já mostrou sua resiliência. Mas vencer exige mais que gestão — exige narrativa, exige presença, exige coragem para disputar a alma da nação nas ruas e nos algoritmos, com propostas que transformem o cotidiano, como a tarifa zero.
Desesperar, jamais. Reconstruir a confiança, recuperar a esperança. O futuro ainda é nosso — se tivermos a coragem de construí-lo.
SP 13 maio 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal – escreve aqui sobre cenário político e reeleição de Lula


