“O controle do petróleo, das rotas e dos alimentos decide o destino das nações muito antes que os eleitores depositem seus votos.” Inspirado em Reflexões Estratégicas de Zbigniew Brzezinski
O Mundo Entra na Eleição Brasileira
Há momentos em que a política de um país deixa de ser apenas doméstica. As forças profundas do sistema internacional atravessam fronteiras e passam a operar dentro da própria dinâmica da política nacional.
O Brasil aproxima-se de um desses momentos.
A escalada militar no Golfo Pérsico e a desaceleração estrutural da economia chinesa — dois processos de grande magnitude que se desenvolvem simultaneamente — redesenham a paisagem geopolítica global. Não são acontecimentos distantes. São ondas de choque que percorrem a economia mundial e chegam inevitavelmente ao cotidiano brasileiro.
Petróleo mais caro, fertilizantes mais escassos, cadeias logísticas tensionadas, câmbio volátil e juros elevados: esses são os canais concretos pelos quais a geopolítica global entra na vida econômica de um país.
Quando isso acontece, as guerras deixam de ser apenas conflitos regionais.
Elas passam a influenciar eleições.
Em 2026, o Brasil votará sob essa pressão.
O Gargalo Energético do Planeta
O Golfo Pérsico é uma das regiões mais sensíveis da economia mundial. Ali se encontra um dos principais gargalos do sistema energético global: o Estreito de Ormuz.
Por essa passagem marítima estreita circula aproximadamente um quinto de todo o petróleo transportado no planeta e uma parcela decisiva do gás natural liquefeito consumido na Europa e na Ásia.
Essa geografia cria uma alavanca estratégica extraordinária.
O Irã não precisa vencer militarmente os Estados Unidos para alterar o equilíbrio global. Basta elevar o custo do conflito. Mísseis antinavio, drones, minas marítimas e ataques a refinarias ou terminais energéticos são suficientes para produzir um efeito em cadeia nos mercados internacionais.
A história recente já demonstrou isso. Pequenas interrupções ou ataques limitados foram capazes de disparar preços do petróleo e reorganizar fluxos comerciais em escala global.
Mas existe uma vulnerabilidade ainda menos visível.
Grande parte dos países do Golfo depende de usinas de dessalinização para produzir água potável. Em alguns casos, mais de 80% do abastecimento urbano depende dessas instalações.
Elas representam uma infraestrutura crítica altamente exposta a ataques militares.
Assim, o Golfo Pérsico não é apenas um centro energético. É um sistema logístico e civilizacional delicadamente equilibrado.
O Efeito Dominó da Energia
Quando a energia entra em crise, o impacto não permanece restrito ao setor petrolífero.
Ele se propaga.
O transporte marítimo se torna mais caro. Cadeias de suprimentos são reconfiguradas. Seguros e fretes aumentam. O custo da produção industrial sobe. E, inevitavelmente, os preços dos alimentos começam a reagir.
Um elo central dessa cadeia são os fertilizantes.
Grande parte da produção mundial de insumos agrícolas — como ureia, amônia e enxofre — depende de fluxos logísticos que atravessam o Golfo ou regiões próximas. Qualquer instabilidade nessas rotas tende a pressionar o custo global da produção de alimentos.
A Vulnerabilidade Brasileira
O Brasil costuma ser descrito como uma potência agrícola e energética. Em muitos aspectos, essa descrição é correta.
O país possui uma das maiores bases de recursos naturais do planeta. Produz alimentos em escala continental e dispõe de vastas reservas energéticas.
Mas abundância não significa autonomia.
A agricultura brasileira depende fortemente da importação de fertilizantes. Mais de 80% desses insumos vêm do exterior, muitos deles de regiões diretamente afetadas por tensões geopolíticas.
A logística nacional, por sua vez, está profundamente ancorada no transporte rodoviário movido a diesel.
Isso significa que qualquer choque energético internacional repercute imediatamente sobre o custo do frete, o preço dos alimentos e a inflação.
Há ainda um terceiro canal de transmissão: o financeiro.
Em momentos de instabilidade global, capitais internacionais buscam refúgio em ativos considerados seguros. Esse movimento tende a pressionar moedas emergentes, encarecendo importações e ampliando pressões inflacionárias.
Assim, mesmo sendo um gigante agrícola, o Brasil permanece estruturalmente exposto às turbulências externas.
A Variável Chinesa
Durante duas décadas, o crescimento acelerado da China funcionou como o principal motor do comércio internacional de commodities. Esse ciclo beneficiou intensamente economias exportadoras como a brasileira.
Hoje, porém, o gigante asiático atravessa uma transição.
O modelo baseado em investimento imobiliário e infraestrutura começa a perder força. Pequim tenta reorganizar sua economia em torno do consumo interno, inovação tecnológica e serviços.
O crescimento continua relevante, mas o dinamismo da demanda por commodities tende a diminuir.
Para o Brasil, isso significa algo simples e profundo: o mercado que sustentou grande parte do ciclo de exportações brasileiras tornou-se mais incerto.
Quando a Economia Decide Eleições
Em teoria, eleições são disputas entre projetos políticos e visões de país.
Na prática, elas são fortemente influenciadas pela experiência econômica cotidiana da sociedade.
Inflação elevada, perda de renda ou desemprego crescente tendem a favorecer discursos de mudança. Estabilidade econômica e melhora do poder de compra fortalecem a continuidade política.
É nesse ponto que a geopolítica global encontra a política doméstica.
Os choques provenientes da guerra no Golfo e da desaceleração chinesa não determinarão por si só o resultado das eleições brasileiras. Mas eles moldarão o ambiente econômico no qual a disputa política se desenrolará.
Quando energia, alimentos e juros entram em turbulência, o campo político inevitavelmente se reorganiza.
O Dilema Estratégico Brasileiro
A turbulência internacional revela um problema mais profundo.
O Brasil possui recursos naturais suficientes para sustentar grande autonomia energética e alimentar. Ainda assim, depende de gargalos externos em áreas estratégicas como fertilizantes, refino de combustíveis e infraestrutura logística.
Essa contradição é um dos grandes dilemas estruturais do país.
A instabilidade global apenas torna essa fragilidade mais visível.
Quando Guerras Distantes Votam
A eleição de 2026 ocorrerá em um momento de transformação do sistema internacional.
Conflitos regionais, disputas energéticas e mudanças estruturais na economia mundial indicam que o planeta atravessa uma fase de reorganização geopolítica.
Nesse contexto, nenhuma nação de grande escala pode se dar ao luxo de ignorar as dimensões estratégicas da economia.
A política brasileira frequentemente se perde em disputas imediatas e polarizações superficiais. Entretanto, a realidade internacional impõe perguntas mais profundas.
Como garantir segurança energética?
Como reduzir a dependência de insumos estratégicos?
Como transformar abundância de recursos naturais em poder nacional efetivo?
Essas são as questões que realmente definem o destino de um país.
Quando guerras distantes começam a influenciar preços, empregos e expectativas, o sistema internacional deixa de ser um cenário distante.
E é nesse momento que a guerra — travada a milhares de quilômetros — chega às urnas brasileiras
São Paulo, 17 de março de 2026
Francisco Chagas é cientista social, Vice Presidente do PT paulista, foi Vereador e Deputado Federtal


