O coração dos brasileiros bate mais forte neste domingo, 15, com O Agente Secreto brilhando entre os indicados ao Oscar e levando o cinema nacional novamente ao topo do mundo. Mas o sucesso que chega ao tapete vermelho tem raízes mais profundas: é resultado de um amplo esforço do governo do presidente Lula para fortalecer o audiovisual e fazer florescer a produção cultural em todo o país após anos de desmonte na gestão anterior.
O resultado econômico do trabalho é tão grande quanto o reconhecimento que o cinema tem conquistado Brasil afora. O audiovisual representa hoje R$ 24,5 bilhões do PIB (Produto Interno Bruto) e sustenta mais de 630 mil empregos por ano. E o melhor é que essa fonte tem sido espalhada por todo o país, com produções de todos os tamanhos que vão muito além do eixo Rio-São Paulo.
Ao contrário do que pregavam os detratores da cultura, o investimento no audiovisual é um dos negócios mais rentáveis para o país, superando as indústrias farmacêutica e automobilística em impacto no PIB, segundo o Ministério da Cultura (Minc). Cerca de 70% do orçamento de uma produção serve para irrigar mais de 60 outros setores, como gastronomia e transporte. O governo Lula integrou o audiovisual à Nova Indústria Brasil, tratando o setor como peça-chave do desenvolvimento econômico.
A secretária de Audiovisual do Minc, Joelma Gonzaga, destaca que o setor sobreviveu a seis anos de “apagão” e tentativas de demonização da cultura. A reconstrução começou em 2023, com a injeção histórica de R$ 5,7 bilhões no setor, somando leis de incentivo e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). “Era um contexto de terra arrasada. A destruição era física, simbólica e econômica”, lembra Joelma.
A estratégia do Governo do Brasil agora, segundo a secretária, não é substituir os polos tradicionais, mas ampliar o mapa da produção nacional. A política busca fortalecer Rio e São Paulo enquanto amplia o acesso ao financiamento em outras regiões do país. “Existe Rio e São Paulo, que são polos consolidados, e precisamos investir neles. Mas também precisamos trazer outros polos do Brasil que já fazem audiovisual há muito tempo. Pela primeira vez tivemos paridade de gênero e representação de todas as regiões do Brasil”, destaca.
Rondônia e as vozes que ganham o mundo
Em Rondônia, o diretor Fabiano Barros, responsável pelos curtas Mucura e Ela Mora Logo Ali, é um exemplo de como as políticas públicas abriram caminho para novos realizadores fora dos grandes centros. “As políticas públicas foram fundamentais para que meus projetos pudessem acontecer. Durante muito tempo não existiam editais estruturados ou investimentos privados no audiovisual em Rondônia”, explica.
Segundo ele, o curta Ela Mora Logo Ali só foi possível graças aos recursos da Lei Aldir Blanc. O filme conquistou mais de 60 prêmios em festivais no Brasil e no exterior, incluindo três Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, além de ter sido reconhecido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos destaques do cinema brasileiro em 2024.
Dedicado a mães atípicas, o filme emociona ao mostrar a história de uma mãe que tenta aprender a ler para contar histórias para o filho.
Já o curta Mucura, realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, levou o cinema de Rondônia ao circuito internacional, com seleção no Fantasporto, em Portugal.
Segundo o diretor, esse movimento também tem impacto direto na economia criativa local. “As produções audiovisuais têm um impacto direto na economia criativa local. A realização de filmes movimenta profissionais de diversas áreas, como técnicos, artistas, produtores e prestadores de serviço, além de estimular a formação de novos profissionais”.
Cinema como transformação social
Também em Rondônia, o cineasta Carllos Santana, diretor de Quarto Escuro (2025) e Nas Margens do Rio (2024), destaca que os recursos federais foram decisivos para tirar seus projetos do papel. “A Lei Paulo Gustavo foi decisiva para que meus projetos se concretizassem. Tanto Quarto Escuro em 2025 quanto Nas Margens do Rio em 2024 foram realizados com esses recursos”.
Segundo ele, o financiamento público permite não apenas produzir filmes, mas garantir melhores condições de trabalho para quem vive do audiovisual.
“Produzir cinema envolve custos técnicos, equipe e estrutura que dificilmente conseguimos viabilizar de forma totalmente independente. Esses recursos permitiram não só tirar os filmes do papel, mas também garantir melhores condições de produção, valorizando o trabalho de profissionais envolvidos”, afirma.
Para Santana, o crescimento do audiovisual fora do eixo tradicional amplia o olhar do cinema brasileiro. “Existe uma nova geração de realizadores surgindo em diferentes regiões do país, trazendo histórias e experiências que muitas vezes não estavam representadas no cinema nacional”, acrecenta.
Na Bahia, continuidade e folêgo para o audiovisual
Na Bahia, o cineasta Victor Uchôa, diretor do premiado documentário Contra-golpe (2022) e do curta Tempo (2018), representa uma geração de realizadores que já construiu trajetória no cinema autoral brasileiro e agora consegue ampliar seus projetos com o fortalecimento das políticas públicas para o audiovisual.
Agora, o diretor está finalizando seu primeiro longa-metragem, um documentário de temática socioambiental filmado em comunidades quilombolas e zonas pesqueiras fora de Salvador. O projeto foi viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo por meio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.
Além do longa-metragem, Uchôa foi contemplado em diferentes editais realizados na Bahia com recursos da Lei Paulo Gustavo, o que permitiu estruturar novos projetos e ampliar sua atuação no audiovisual.
Entre eles estão um projeto de série para televisão, o desenvolvimento de um novo roteiro e iniciativas de licenciamento de seus dois curtas-metragens já lançados. Para o diretor, esse conjunto de investimentos permite algo raro para quem faz cinema fora do eixo tradicional: planejar o futuro.
“O recurso da lei Paulo Gustavo numa atacada só possibilitou a mim e a outros realizadores conseguir minimamente ter um planejamento e uma vislumbrar uma continuidade nos seus projetos. É importante esse fomento para que as pessoas possam de fato viver do cinema”, arremata.
Film Commission e streaming: o que vem pela frente
Além dos resultados já visíveis, o governo federal prepara novos passos para fortalecer o audiovisual brasileiro nos próximos anos. Entre as iniciativas em construção estão o fortalecimento das film commissions, estruturas que ajudam a atrair produções e organizar filmagens nos estados, e o enfrentamento de um dos grandes desafios atuais da indústria: a regulamentação do streaming.
“O Brasil é um dos maiores consumidores de conteúdo de streaming do mundo e essa receita não ecoa para a economia do audiovisual brasileiro. A gente não quer que as produtoras brasileiras sejam prestadoras de serviço das suas próprias histórias”, diz a secretária Joelma Gonzaga.
Como contrapartida, o ministério deve lançar em breve a plataforma Tela Brasil, um serviço público de streaming dedicado ao cinema nacional. Além disso, o Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual do Brasil, aprovado pelo Conselho Superior de Cinema em 27 de fevereiro de 2026, garante um mapa de navegação para as políticas públicas do setor para os próximos dez anos.
Augusto Leite, Rede PT de Comunicação.


