Donald Trump: E depois do Irã?, por Charles Gentil

O Globo

Donald Trump continua sua ditadura ateando fogo no planeta e, ao invés da paz, que defende apenas na retórica ou circunstancialmente por mera conveniência, na prática, objetivando apoderar-se dos recursos naturais das outras nações, tem patrocinado direta ou indiretamente guerras e intervenções militares mundo afora, visando, com isso, redefinir a relação dos Estados Unidos com os demais países, restaurando, assim, uma interação hostil ancorada no domínio explícito da Casa Branca e no mais patente desrespeito à soberania dos povos.

Foi assim, na Faixa de Gaza.Por meio da atuação de Benjamin Netanyahu, extremista de direita e, desde 2022, desgraçadamente pela terceira vez, primeiro-ministro de Israel, que opera como um braço auxiliar dos Estados Unidos no Oriente Médio, Donald Trump pôde, então, exibir a força do império estadunidense quando subscreveu – diante do mundo – o genocídio do povo palestino executado por Netanyahu, sob o pretexto de que os bombardeios de Israel contra Gaza, visavam liquidar terroristas infiltrados em meio à população.

No entanto, sabe-se que: se, Donald Trump e Netanyahu são cúmplices em suas ditaduras complementares, nas atrocidades cometidas contra o povo palestino, inclusive, com bombardeios a alvos civis, o que fere o Direito Internacional, em nítido cometimento, por Netanyahu, de crimes de guerra.

E está impunidade só ocorre porque Israel conta, na região, com a proteção da Casa Branca que, por sua vez, conta com as reservas de combustíveis fósseis israelenses: petróleo, mas, principalmente, gás natural, de suma importância para a segurança energética dos EUA, mas também da Europa e, inclusive, de aliados de Israel no Oriente Médio, o que reduz a dependência desse recurso da Rússia e Irã e, portanto, consolida a aliança entre Trump e Netanyahu, na mútua proteção: econômica, para Washington e militar, para Israel.

Na Europa, mais precisamente, no conflito entre Rússia e Ucrânia, a retórica de Donald Trump foi fazer a intervenção em nome da paz, o que por si só, evidenciou a contradição da conduta dos EUA, uma vez que, no Oriente Médio, Donald Trump, explícitamente, apoia a guerra de Israel contra o povo palestino e os bombardeios em Gaza, ainda em vigor, são justificados sob a alegação de combate ao Hamas, tipificado, equivocadamente, no Ocidente, como grupo terrorista.

Mas, então: por que Donald Trump defendendo a guerra na Faixa de Gaza, se interessou pela paz, na Europa?

Evidentemente, isso ocorreu porque os Estados Unidos viu no conflito entre Rússia e Ucrânia, uma oportunidade, logo, business, isto é, negócios e, assim, aproveitando-se que a Ucrânia necessita de auxílio para conter o avanço das tropas russas em seu território, bem como promover a reconstrução da infraestrutura ucraniana pós-guerra, Donald Trump, então, negociou a paz e nela está engajado para, na verdade, negociar o acesso norte-americano aos minerais críticos e terras raras ucranianos, tais como, por exemplo, titânio e urânio utilizados na indústria aeroespacial norte-americana, no setor de defesa dos EUA e também empregados para o desenvolvimento de tecnologias de energia limpa do país.

Daí porque, de acordo com a ditadura de Donald Trump, a paz e o investimento norte-americano pós-guerra para a Ucrânia tem um preço, que consiste – conforme acordo celebrado em Washington em 2025 – em entregar, antecipadamente, as reservas de minerais críticos e terras raras à exploração de empresas americanas, inclusive, para diminuir a dependência dessas reservas da China.

E na Venezuela não foi diferente.O sequestro do presidente Nicolás Maduro, realizado pelo governo dos EUA por meio de intervenção militar, sob o pretexto de combate ao narcoterrorismo, na verdade, foi o desfecho de uma série de assédios anteriores e pressões contra a Venezuela cujo objetivo sempre consistiu em ter acesso às reservas de petróleo desse país.

Aliás, as reservas de petróleo da Venezuela concentrada,sobretudo, na Faixa Petrolífera de Orinoco é a maior do mundo à frente das reservas da Arábia Saudita e Canadá que correspondem, respectivamente, a segunda e terceira maiores reservas desse combustível fóssil.

Portanto, a sede de petróleo foi o motivo real da deposição de Nicolás Maduro, tanto é assim que, as grandes petroleiras como Chevron e Shell, por exemplo, sob autorização do governo dos Estados Unidos retomaram suas atividades.

Não só.Após o sequestro e deposição de Nicolás Maduro, um cerco militar norte-americano impede que o petróleo venezuelano seja comercializado com países como: China, Rússia e Irã, o que mais uma vez, expõe o perfil autoritário de Donald Trump, que busca acessar, de forma exclusiva no mundo, os recursos naturais de outros países.

E, assim, ao interditar aos países que lhe fazem concorrência, o acesso a esses mesmos recursos, isto acabará por produzir ainda mais tensões no planeta e, consequentemente, eventual atrito armado e, portanto, mais guerras locais que poderão, inclusive, evoluir para conflitos mais abrangentes até culminar em um eventual novo confronto de proporção mundial.

O assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, após intervenção militar dos Estados Unidos e Israel, nada tem haver com inibição de suposta produção de armas nucleares pelo governo iraniano.

Aqui, mais uma vez, a ditadura de Donald Trump usa um pretexto, quando, na verdade, sabe-se que a deposição do regime no Irã importa à Casa Branca, não porque queira levar ao povo iraniano, o que os EUA supõe ser a democracia, mas, tão somente porque Washington pretende instalar, ali, mais cedo ou mais tarde, um governo que lhe seja dócil e consinta em interromper o suprimento do petróleo para a China, uma vez que, 90% desse combustível fóssil abastece a economia do país.

Além disso, sabe-se que 20% do petróleo do planeta utiliza como rota o Estreito de Ormuz, aliás, sob domínio do Irã, rival dos EUA, que, por isso, teme o fechamento dessa passagem e, portanto, que haja interferência na oferta mundial dessa fonte de energia.

Em todos esses episódios: genocídio ( Gaza), chantagem (Ucrânia), sequestro (Venezuela) e assassinato ( Irã), Donald Trump, no exercício pleno de sua ditadura sanguinária e na extravagância extremista de querer dominar no planeta, os recursos de combustível fóssil, minerais críticos e terras raras, utiliza-se da força bruta e não há, no mundo, um organismo internacional ( a ONU está inoperante) com competência e autoridade para frear os ímpetos de domínio dos EUA, bem como as constantes violações do Direito Internacional.

Desta forma, dia após dia, Donald Trump, vai cavando um confronto direto com a China ( seu alvo principal) e que, por enquanto, busca se esquivar das provocações dos EUA.

Em meio a esse rearranjo geopolítico movimentado pelas reiteradas intervenções militares dos EUA, o Brasil que, aliás, tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta ( atrás apenas da China), deve, por um lado, adotar medidas que, pragmaticamente, por meio da construção diplomática dialogada, evitem uma ação ostensiva dos Estados Unidos contra nossa soberania nacional e, por outro lado, simultaneamente, deve estreitar ainda mais, os laços com o Oriente e, em particular, com a China, objetivando, com isso, construir uma ampla rede de proteção, neste momento, com acesso solidário às tecnologias mais recentes de defesa com o propósito exclusivo da manutenção da paz e como meio de contenção, a um eventual atentado pelo governo dos Estados Unidos, contra a sagrada soberania do Brasil.

Porque, se não é certo que o próximo alvo seja o Brasil, certo, ao menos, é que depois do Irã, Donald Trump, já planeja, em algum canto do mundo, uma nova guerra

Charles Gentil
Secretário de Finanças, PED 2025
Ex-presidente do Diretório Zonal PT do Centro, PED 2019

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