“Não há Defesa Nacional quando quase todo o orçamento serve para manter o passado”
O debate sobre soberania militar no Brasil esbarra, inevitavelmente, em uma contradição incômoda: gasta-se muito com defesa, mas defende-se pouco. O problema não é apenas o volume de recursos, mas a forma como ele é organizado, distribuído e politicamente orientado. Sem enfrentar essa estrutura, qualquer discurso sobre autonomia e dissuasão permanece vazio.
Hoje, mais de 80% do orçamento das Forças Armadas é consumido por despesas de pessoal. Trata-se de uma estrutura inchada, cara e pouco eficiente do ponto de vista estratégico. O resultado é previsível: sobra pouco espaço para investimento em ciência, tecnologia, inovação, reequipamento e capacidade operacional real. Mantém-se uma máquina pesada, mas limitada para enfrentar os desafios contemporâneos da defesa.
Essa distorção não é neutra. Ela produz dependência. Sem recursos suficientes para desenvolver tecnologia própria, o país recorre à compra de sistemas estrangeiros, aprofundando o ciclo de subordinação tecnológica e política. O orçamento, em vez de instrumento de soberania, transforma-se em mecanismo de reprodução da dependência.
A ausência de uma política consistente de profissionalização agrava o quadro. Profissionalizar não significa apenas treinar melhor; significa redefinir prioridades, carreiras, efetivos e funções. Um modelo de defesa soberana exige quadros altamente qualificados, capazes de operar sistemas complexos, desenvolver tecnologia e pensar estrategicamente. Manter estruturas excessivamente voltadas à manutenção corporativa enfraquece a capacidade real de defesa.
Além disso, a lógica orçamentária atual desestimula a integração entre defesa e desenvolvimento nacional. A indústria de defesa, que poderia funcionar como motor de inovação tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento da autonomia estratégica, permanece fragmentada e dependente de encomendas instáveis. Sem planejamento de longo prazo, não há indústria soberana; há apenas fornecedores eventuais.
A eficiência militar não se mede pelo tamanho do efetivo, mas pela capacidade de negar a agressão. Isso exige investimento contínuo em pesquisa, desenvolvimento e produção nacional. Exige também articulação entre Forças Armadas, universidades, centros de pesquisa e empresas públicas e privadas. Países que dominam essa cadeia não apenas se defendem melhor, como fortalecem sua base industrial e científica.
Outro ponto crítico é a rigidez institucional. Estruturas orçamentárias engessadas dificultam a adaptação a novas ameaças, especialmente nos domínios cibernético e espacial. Enquanto a guerra se desloca para sistemas, redes e informação, o orçamento brasileiro segue preso a uma lógica do século passado, centrada na manutenção da máquina e não na inovação estratégica.
A resistência a esse debate costuma ser justificada em nome da estabilidade institucional. Mas estabilidade sem soberania é apenas administração da fragilidade. Reformar o orçamento e profissionalizar as Forças Armadas não é ataque à instituição; é condição para sua sobrevivência como instrumento legítimo de defesa nacional.
Sem essa reforma, o Brasil continuará preso a um paradoxo: Forças Armadas caras, mas dependentes; numerosas, mas limitadas; respeitadas internamente, mas vulneráveis externamente. O custo dessa escolha não aparece imediatamente, mas se revela em momentos de crise, quando a capacidade de decisão soberana se mostra restrita.
Orçamento é política. A forma como o Estado financia sua defesa revela o tipo de soberania que está disposto a exercer. Enquanto o Brasil não alinhar seus recursos à sua estratégia, continuará pagando caro por uma defesa que não entrega o que promete. E, em um mundo cada vez mais hostil à autonomia dos países periféricos, essa é uma conta que tende a se tornar insustentável.
Fevereiro de 2026
Francisco Chagas é cientista social, vice presidente do PT paulista, foi vereador e deputado federal


