FORÇAS ARMADAS: ENTRE A DEFESA DO BRASIL E A SUBMISSÃO AO IMPÉRIO

Site do PT São Paulo

“Se queres a paz, prepara-te para a guerra.”
Ignorar essa lição, hoje, é aceitar a tutela.

Início aqui uma série de 8 artigos, nos quais pretendo analisar o problema da soberania nacional e o papel estratégico das forças armadas brasileiras, visto que cumpre a elas o papel derradeiro de defendê-la nos termos da nossa constituição.

O Brasil vive uma contradição estratégica profunda e perigosa. Possui Forças Armadas numerosas, orçamento elevado e discurso formal de soberania, mas opera dentro de uma arquitetura de dependência que limita sua capacidade real de defesa. Em um mundo que abandonou qualquer compromisso com regras internacionais, essa contradição não é apenas um problema teórico: é uma vulnerabilidade concreta.
Não existe soberania sem inimigo claramente identificado. E o principal problema da doutrina militar brasileira atual é a recusa sistemática em nomear o vetor real de ameaça. Fala-se em “riscos difusos”, “cooperação internacional” e “estabilidade regional”, enquanto se ignora o fato elementar de que a América Latina segue tratada como área de influência estratégica dos Estados Unidos. Isso não é retórica ideológica: está explicitado em documentos oficiais de defesa, em intervenções diretas e na coerção econômica permanente.
Uma doutrina que se recusa a nomear o problema não protege o país — protege a ordem que o subordina.

A dependência tecnológica é o núcleo duro dessa submissão. Sistemas de defesa aérea, comunicações, vigilância, satélites, softwares e cadeias logísticas estão parciais ou totalmente sob controle externo. Isso significa que, em caso de conflito ou pressão política mais dura, a capacidade operacional brasileira pode ser bloqueada sem um único tiro. Forças Armadas que dependem da autorização do potencial inimigo não defendem a soberania, administram a dependência.

Essa dependência não é acidental. Ela foi construída ao longo de décadas por meio de acordos assimétricos, compras condicionadas, transferência tecnológica limitada e formação doutrinária tutelar. Oficiais brasileiros foram educados, em grande medida, segundo a lógica estratégica das potências centrais, internalizando a ideia de hierarquia internacional e “alinhamento responsável”. O resultado é uma cultura militar que oscila entre o nacionalismo retórico e a subordinação prática.
A estrutura orçamentária agrava o quadro. Mais de 80% dos recursos da defesa são consumidos com folha de pagamento. O investimento em ciência, tecnologia, inovação e capacidade dissuasória real é residual. Mantém-se uma estrutura pesada, cara e pouco preparada para enfrentar os desafios estratégicos contemporâneos. Defesa não é número de efetivos; é capacidade real de negar a agressão.
Há ainda uma fratura política decisiva: a distância entre Forças Armadas e povo. Herdou-se, sem enfrentamento profundo, a lógica do “inimigo interno”, que transforma a sociedade em objeto de vigilância e não em sujeito da defesa. Nenhuma força militar, em nenhuma parte do mundo, defendeu um país sem legitimidade social. A soberania não se sustenta apenas nos quartéis; sustenta-se na consciência política da nação.
Silenciar o debate sobre defesa é parte do problema. Temas estratégicos — como defesa aérea, proteção do Atlântico Sul, vulnerabilidade cibernética e capacidades dissuasórias avançadas — seguem tratados como tabu. Em um sistema internacional onde o uso da força voltou a ser regra, o tabu não protege: desarma.
Ou o Brasil rompe com essa ambiguidade estrutural e constrói uma doutrina militar soberana, ou continuará preso a uma condição colonial disfarçada de cooperação. Soberania não se pede. Não se terceiriza. Não se improvisa. Ou se constrói conscientemente, ou será perdida.


SP 09 jan 26
FRANCISCO CHAGAS – cientista social e vice-presidente PT Estadual
Foi Deputado Federal e vereador da cidade de SP

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