O sequestro de Nicolás Maduro não pode ser relativizado nem tratado como um
episódio excepcional da política internacional. Quando um chefe de Estado é
retirado à força de sua residência, sem base legal, sem mandato internacional e
por decisão unilateral de uma potência estrangeira, estamos diante de um crime
político grave. Nomear esse ato corretamente não é retórica: é precisão. Trata-se
de sequestro e de violação direta da soberania de um país.
Esse ato revela uma mudança profunda no modo de atuação do imperialismo
contemporâneo. Diante da incapacidade de impor seus interesses por meio da
diplomacia, do consenso ou da guerra econômica, os Estados Unidos optam pela
coerção direta. A legalidade internacional, a Carta da ONU e o princípio da
autodeterminação dos povos tornam-se obstáculos descartáveis quando
confrontam interesses estratégicos.
É preciso dizer com clareza: os Estados Unidos se colocam, com esse ato,
como inimigos da soberania da América Latina, do Brasil e da própria
democracia. Não se trata de divergência pontual, mas de um projeto histórico de
dominação, que busca controlar recursos naturais, rotas estratégicas e decisões
políticas dos países latino-americanos. A Venezuela foi atacada por resistir.
Outras nações estão no radar pelo mesmo motivo.
As consequências desse sequestro ultrapassam as fronteiras venezuelanas. Ao
normalizar a captura de um presidente eleito, inaugura-se um precedente
perigoso. Nenhum país periférico pode se sentir protegido apenas por eleições ou
pelo direito internacional. A mensagem é inequívoca: governos que insistem em
soberania real, controle de suas riquezas e política externa independente serão
tratados como ameaças a serem neutralizadas.
É nesse contexto que a conjuntura brasileira ganha centralidade. O Brasil não é
um ator secundário na região. Seu peso econômico, territorial, energético e
político o transforma em eixo decisivo da América do Sul. A retomada de uma
política externa ativa, multilateral e voltada à integração regional recoloca o país
em rota de autonomia relativa — exatamente o que os Estados Unidos não
toleram.
Em ano de reeleição, o presidente Lula passa a representar não apenas um
projeto político interno, mas um obstáculo geopolítico. O sequestro de Maduro
funciona como aviso estratégico. Não é necessário repetir o método de forma
literal para produzir efeitos no Brasil. A coerção assume outras formas: pressão
econômica, instabilidade financeira, campanhas de deslegitimação,
judicialização da política, cerco midiático e estímulo permanente à polarização
social. O objetivo é estreitar o campo de escolhas, condicionar o processo político
e enfraquecer qualquer projeto soberano.
Nesse cenário, a reeleição de Lula adquire significado que vai além da disputa
eleitoral. Uma derrota abriria caminho para a submissão definitiva do Brasil a uma
ordem tutelada, enfraquecendo qualquer perspectiva de integração regional e
autonomia estratégica. Uma vitória, por outro lado, reafirmaria que ainda existe
espaço para resistência política, defesa da soberania e afirmação dos interesses
nacionais, mesmo sob forte pressão externa.
O silêncio diante do sequestro de Maduro não é neutralidade diplomática; é
cumplicidade com a regressão histórica. Defender a Venezuela é defender o
direito do Brasil de decidir seu próprio destino. Quando a exceção se impõe em
um país, ela se projeta sobre todos.
Esse episódio abre, ainda, um debate inevitável: o papel das Forças Armadas na
América Latina e no Brasil diante de uma ordem internacional que abandona a
legalidade e recorre abertamente à coerção. Esse é um tema decisivo, que exige
reflexão profunda e será tratado em outro artigo.
A soberania não é um discurso abstrato. É condição concreta da democracia. E
hoje, mais do que nunca, está sob ataque.
São Paulo, 04 de janeiro de 2026
Francisco Chagas
cientista social – vice-presidente do PT paulista – foi vereador e deputado federal


