Nos preparamos para época de mudanças ou vivemos mudança de época?

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Desde que fui eleito pelo Diretório Nacional do PT, há pouco mais de 90 dias, para estar à frente da Secretaria de Comunicação do partido sob a liderança do presidente Edinho Silva, temos buscado ampliar e aprofundar nossa visão sobre a atual conjuntura mundial. O objetivo é decifrar os desafios que cabem à comunicação partidária, digital e social em tempos de tantas e tão profundas transformações.

Promovemos diversas reuniões com as secretarias estaduais, seminários com a Fundação Perseu Abramo, oficinas com as principais plataformas digitais do mundo em atuação no Brasil, encontros com especialistas e estudiosos das redes e das ciências sociais, além de diálogos com nossas lideranças que estão legislando sobre o ambiente digital no Congresso Nacional. Em tempo, agradeço a todas as instituições e especialistas, citando o professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Geraldo Reis, e o presidente da FPA, companheiro Paulo Okamoto.

Retomando o foco da nossa proposta de discussão, há consensos sobre a conjuntura. A crise do capitalismo iniciada em 2008 se aprofunda, o neoliberalismo gera mais exclusão e a hiperconexão digital, paradoxalmente, fragiliza laços comunitários. Esse caldo alimentou a extrema direita, que tem em Trump seu símbolo maior, e levou ao desmonte das instituições multilaterais que ordenavam o globo. Nesse vácuo, as big techs ascendem e desafiam a soberania dos Estados nacionais.

Mas aqui quero ir além dessa análise. O que temos percebido, e o que temos provocado o partido a refletir, é que não se trata apenas de uma época de mudanças, como aquela reforma na casa em que trocamos móveis e pintamos paredes, mas em que a estrutura segue a mesma. Estamos, isso sim, no meio de uma mudança de época.

É como se a casa inteira estivesse sendo demolida e reconstruída sobre novas fundações, com novos materiais e um projeto totalmente diferente. E não somos só nós do PT que dizemos isso. Pensadores como o sociólogo espanhol Manuel Castells já falavam da sociedade em rede como um novo paradigma. No Brasil, Luiz Alberto Oliveira, físico e filósofo da ciência, nos alerta que a tecnociência criou um “novo operador do mundo”, capaz de alterar a própria natureza e a vida em um ritmo alucinante.

Quais são essas novas fundações? São pelo menos quatro pilares que se transformam simultaneamente. O primeiro deles é o nosso planeta: as mudanças climáticas não são um problema dentro do sistema, mas exigem uma mudança do sistema de produção e consumo. Em segundo lugar, a chamada tecnosfera, pois a revolução digital e a inteligência artificial não são só ferramentas — redefinem o trabalho, a economia, a privacidade e a própria ideia de humano, caminhando talvez para uma “pós-humanidade”. Depois, a questão do trabalho, já que o perfil da classe trabalhadora se altera radicalmente com a precarização, a automação e novos formatos de relação e exploração laboral. Por fim, a questão política: a crise da democracia liberal e a ascensão de autoritarismos sinalizam que os modelos de representação e deliberação estão esgotados — ou quase lá.

Diante disso, a pergunta central que se impõe ao PT e a toda a esquerda não é apenas como vencer a próxima eleição. É uma questão mais existencial: como uma instituição nascida em um determinado tempo histórico pode se renovar para se tornar contemporânea e vanguardista nesta nova época que surge? Não basta atualizar o discurso ou dominar o Instagram. O desafio é repensar como nos significamos, como nos estruturamos e como nos organizamos coletivamente em um mundo tão distinto daquele de 1980. Precisamos internalizar a profundidade dessa transformação.

É essa provocação que levaremos ao processo de construção do nosso 8º Congresso Nacional. A pergunta final não é retórica; é um chamado à reflexão: nós, que tanto falamos em nos preparar para a “época das mudanças”, estamos realmente atentos e preparados para viver — e liderar — em uma verdadeira mudança de época?

Artigo do secretário Nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, publicado nesta terça-feira (2), na CNN

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