Venezuela: um sinal de alerta, por Charles Gentil

Gazeta do Povo

Diante das pressões atuais do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela, se faz necessário mais do que nunca: criticar, refletir e se preparar frente a conduta autoritária de Donald Trump que, sob o pretexto de combater o chamado narcoterrorismo, na verdade, tem como objetivo agredir, hoje, a soberania venezuelana e, amanhã, talvez, em breve, a de outros povos da América Latina, inclusive, o Brasil.

O meio e, portanto, o método adotado para uma intervenção armada dos Estados Unidos sobre a Venezuela foi planejado – em ao menos – quatro movimentos:

1°: a disseminação em larga escala da desinformação de que as autoridades venezuelanas, inclusive, o Chefe do Executivo, Nicolás Maduro, tem envolvimento com a distribuição internacional de drogas ilícitas que adentram o território norte-americano.

2°: a articulação com países vizinhos à Venezuela para servirem de bases militares e, com isso, oferecer apoio logístico ao empreendimento bélico contra o referido país-alvo.

3°: exibição do poderio militar norte-americano com manobras no céu ( caças) e mar ( navios) sendo esses recursos de guerra produzidos com alta tecnologia, e ostentados a fim de intimidar o povo venezuelano e, particularmente, as Forças Armadas da Venezuela.

4°: ataque aéreo, marítimo e terrestre visando intervenção militar e a deposição do governo de Maduro.

E está ofensiva dos Estados Unidos contra o governo e soberania da Venezuela não é de hoje. Em período mais recente, durante o governo de Hugo Chávez(1999-2013)
devido a opção deste em não alinhar-se à política externa norte-americana e buscar outras parcerias, como, por exemplo, Cuba, nas relações econômicas internacionais, além de manter acesa uma crítica contundente ao governo da Casa Branca, a Venezuela foi, por isso, considerada um verdadeiro obstáculo ao completo domínio dos Estados Unidos, na América Latina.

E da mesma forma que, em 2002 com o apoio velado de Washington, uma tentativa fracassada de golpe cívico-militar depôs do poder, por 48 horas, Hugo Chávez, hoje, Nicolás Maduro, seu sucessor, também enfrenta pressão dos Estados Unidos por ter continuado a optar pela orientação chavista de uma Venezuela independente e que por ser soberana não se sujeita a subordinar-se ao interesses econômicos do governo norte-americano.

Nicolás Maduro, aliás, em 2019, também sofreu tentativa de golpe cívico-militar sob a liderança de Juan Guaidó que, inclusive, não só contou com o apoio aberto dos Estados Unidos, mas declarava-se presidente interino da Venezuela, acabando, porém, junto com os demais insurgentes, não logrando êxito.

A nova versão do golpe dos Estados Unidos para derrubar Nicolás Maduro, após colocar, de forma insistente e não isenta, a suspeita quanto a legitimidade de sua reeleição consiste, agora, na tentativa de atrelar Maduro ao Cartel De Los Soles, Cartel de Sinaloa e Tren de Aragua, organizações criminosas transnacionais que atuam no comércio de drogas ilícitas e despejam parte desta produção de entorpecentes no território norte-americano.

Daí porque, o governo Trump ao tipificar por meio de um decreto, as organizações criminosas como organizações terroristas estrangeiras cria, assim, a tipologia (aliás, bastante problemática e, por isso, questionável) de narcoterrorismo e as condições ideais para, com isso, justificar uma intervenção militar em países como por exemplo, a Venezuela, sob o pretexto de proteção da Segurança Nacional dos EUA visando impedir o ingresso de drogas ilícitas no país.

No entanto, embora, de fato, haja organizações criminosas que operam para além das fronteiras dos países que surgiram este não é o caso da organização criminosa: Cartel De Los Soles, supostamente fundada em 1993, na Venezuela e mentirosamente vinculada pelos Estados Unidos ao governo de Maduro.

Isto evidencia que não se deve constituir pretexto para utilizar-se a desinformação como método de disputa política e buscar, de forma ardilosa, vincular, neste caso, o governo da Venezuela à supracitada organização criminosa transnacional que, inclusive, inúmeros especialistas em narcotráfico consideram de existência improvável.

De qualquer forma, ainda que uma organização criminosa transnacional como, por exemplo, Tren de Aragua, fundada entre 2009 e 2010, na Venezuela, exista e atue, isto não deve se constituir em farsa política e mentirosamente vincular-se tal organização criminosa ao governo da Venezuela servindo tal pretexto como cortina de fumaça para encobrir a motivação política criminosa de atentar contra a soberania venezuelana (lembro ainda que é incumbência das Forças Armadas daquele país fazer, de forma autônoma, o combate ao crime organizado).

Se assim não for ( e o contrário disso não pode ser), sob o risco do próprio Brasil – pelo uso feito pelos EUA da mesma cortina de fumaça – ter, em breve, a sua soberania ameaçada, uma vez que, o PCC ( Primeiro Comando da Capital, fundado em 1993, em Taubaté, São Paulo) é aliado do Tren de Aragua e criminosamente, irmanados, atuam: do tráfico de drogas ao tráfico de pessoas, da lavagem de dinheiro à assassinatos sob encomenda, do furto ou roubo às extorsões, entre outros crimes.

E da mesma forma que sob o governo Lula, o Brasil ousa com o Brics e outras parcerias econômicas internacionais promover o fortalecimento da soberania nacional distanciando-se da influência e hegemonia norte-americana, isto não pode jamais ser utilizado pelo governo da Casa Branca, como motivação para em nome do suposto combate a atuação transnacional criminosa do PCC alegar-se, em dado momento, a necessidade de restituir Bolsonaro ao poder, uma vez que, este alinha-se servilmente ao governo dos Estados Unidos.

Ocorre que o jogo pesado da desinformação e o desejo de criar-se, também por aqui, uma cortina de fumaça é patente e não é de hoje que os Estados Unidos buscam, por meio de métodos escusos, manter o Brasil sob seu completo domínio.

Em 1964 o governo norte-americano não só apoiou, mas sustentou a ditadura instituída com militares subservientes, antipatriotas e covardes; submissos aos interesses dos EUA.

Mais recentemente, a história se repetiu e com a deposição da presidente legitimamente eleita, Dilma Rousseff, em 2016, após o golpe de Estado parlamentar que conduziu, via impeachment, Michel Temer ao poder, sendo sucedido, em 2018, por Bolsonaro, outro antipatriota a serviço dos interesses da Casa Branca.

Com efeito, é possível que Trump busque, sob o pretexto do combate ao narcoterrorismo molestar, em sua soberania, o Brasil.

Não devemos esquecer que: se há, por um lado, diferenças gritantes quanto o motivo do questionamento, por outro lado, o que há em comum é que o que é questionado é o resultado das urnas, seja na Venezuela (em 2013) , ou no Brasil (em 2023).

E isto ocorre porque, tanto o governo da Venezuela, quanto o governo do Brasil, cada um à sua maneira, buscam promover a soberania de seus povos e, por isso, se constituem em pedras incômodas na América Latina; verdadeiros obstáculos no caminho para uma hegemonia inconteste dos Estados Unidos.

Para o governo Trump isto é um péssimo exemplo dado aos demais países da região, pois, pode vir a despertar o percurso por um desenvolvimento soberano dos demais, o que, por sua vez, enfraqueceria o poder e as finanças dos Estados Unidos.

Desta forma, sobretudo, em matéria de combate ao crime transnacionalmente organizado, não se pode ser ingênuo, inclusive, em virtude do reflexo e custo político à democracia que daí pode derivar, e já é preciso, então, colocar-se com ainda mais ênfase, a questão da soberania nacional, no centro duradouro de toda reflexão sobre o futuro do Brasil.

Consequentemente, pergunto: na hipótese de uma pretensa investida, em nosso território, do governo Trump, sobretudo, a partir de 2027, sob o pretexto de combate ao crime organizado (mas, objetivando, na verdade, intervir na continuidade – absolutamente provável – do governo Lula) qual a capacidade que as Forças Armadas do Brasil já detém para a eventualidade de ser necessário atuar em defesa de nossa soberania nacional ?

Desta forma, a defesa da soberania nacional não é uma questão apenas de mera terminologia, mas também de investimento ainda mais maciço em recursos militares para a promoção da autodefesa, quando e se necessário for.

Com efeito, as ameaças que a Venezuela está sofrendo por parte dos Estados Unidos ( já em seu 4° movimento: de exibição de sua supremacia militar) deve se constituir em um sinal de alerta e em objeto de reflexão quanto a urgência na alocação de mais investimentos para o incremento de nosso poderio militar.

Isto não quer dizer que se pretenda, no âmbito internacional, abandonar nossa vocação pacífica enquanto povo, mas apenas dispor dos recursos militares necessários para eventual defesa da soberania nacional, a fim de se resguardar de possíveis chantagens, pressões e pretensa invasão de território, uma vez que, somente um povo soberano é um povo feliz e repleto de dignidade.

Charles Gentil
Secretário de Finanças, PED 2025.
Ex-presidente do Diretório Zonal PT do Centro,PED 2019

Posts recentes:

Acessar o conteúdo