No mês em que comemoramos o Dia da Consciência Negra, trago aqui uma reflexão que creio está ausente das análises, a respeito do massacre do Alemão/Penha no último dia 28/10/25. Não temos informações oficiais sobre as vítimas. Mas podemos presumir que a maioria são pretos, pardos e pobres.
O eco da escravidão ressoa nas favelas, nas prisões e nas operações policiais — a verdadeira abolição ainda está por ser feita.
“A abolição não integrou o negro na sociedade; apenas o libertou para ser excluído.”
— Florestan Fernandes, 1964
O Brasil ainda não aboliu a escravidão.
Mudaram-se os instrumentos, não as estruturas.
O açoite virou fuzil, a senzala virou favela e o capitão do mato veste farda e colete à prova de balas.
O massacre no Morro do Alemão é apenas o capítulo mais recente dessa história que insiste em não terminar.
De Zumbi a João Pedro Mattos Pinto — adolescente negro assassinado dentro de casa em operação policial no Rio de Janeiro — de Dandara a cada mãe que chora nas periferias, a violência contra o povo negro é o eco vivo de um país que nunca rompeu com seu passado escravocrata.
A abolição que não libertou
Autores como Sidney Chalhoub, João José Reis e Clóvis Moura demonstraram que a abolição de 1888 foi mais formal que real.
O negro saiu das senzalas sem-terra, sem trabalho digno e sem cidadania.
A liberdade jurídica não significou inclusão social, e o Estado que antes servia aos senhores passou a servir às elites republicanas.
Como escreveu Florestan Fernandes, o racismo no Brasil se tornou o “cimento invisível” que sustenta a desigualdade de classes.
A cor da pele continuou determinando quem manda e quem obedece, quem vive e quem morre.
O Estado que herdou o Senhor
Em Visões da Liberdade, Sidney Chalhoub revela como juízes, políticos e delegados conspiraram para manter o cativeiro, mesmo quando ele já era ilegal.
Essa cumplicidade atravessou os séculos.
Hoje, o mesmo Estado que falhou em garantir a liberdade no século XIX falha em garantir o direito à vida no século XXI.
As favelas são tratadas como senzalas modernas: territórios de controle, suspeita e punição.
A cada operação policial, a cada corpo negro tombado, renova-se o pacto histórico entre violência e poder.
Da Senzala ao Barraco
Em Cidade Febril, Chalhoub mostra como o Rio de Janeiro do século XIX expulsou negros e pobres do centro urbano em nome da “modernização”.
Foi ali que nasceu o modelo da exclusão urbana: o Brasil dividido entre o asfalto e o morro, a casa-grande e a periferia.
O espaço geográfico tornou-se expressão concreta da desigualdade racial e social.
A senzala colonial transformou-se em barraco, cortiço e favela — lugares onde a vida vale menos e a bala chega antes do Estado.
Resistência é Verbo Negro
Historiadores como João José Reis e Clóvis Moura mostram que o povo negro nunca aceitou o cativeiro em silêncio.
As rebeliões, os quilombos e as fugas foram atos de construção de liberdade.
Moura lembrava que o quilombo era uma forma de poder popular, um embrião de sociedade livre.
Essa resistência continua hoje nos movimentos que denunciam o genocídio negro, nas mães de vítimas da violência policial, nas comunidades que lutam por moradia, cultura e dignidade.
A luta de ontem é a mesma de hoje — só mudaram as armas do opressor.
Nem Identitarismo, nem Cegueira de Classe
Reconhecer o racismo estrutural não é dividir o povo — é revelar o mecanismo que sustenta a exploração.
O identitarismo isolado fragmenta a luta, mas negar o racismo é fortalecer o inimigo comum.
Como ensinou Clóvis Moura, é preciso compreender o racismo como parte da luta de classes, e não como tema paralelo a ela.
A emancipação do povo negro e trabalhador será obra coletiva, de todos os explorados, unidos contra o mesmo sistema que transforma cor e pobreza em destino.
“A escravidão não acabou quando a lei foi assinada; ela se reinventou nas práticas e nas mentalidades do cotidiano.”
— Sidney Chalhoub, 2012
Do tronco ao Caveirão, do chicote à bala, da senzala ao Alemão — o fio da violência nunca se rompeu.
O massacre de hoje é o eco da escravidão de ontem.
Libertar o povo negro é libertar o Brasil de si mesmo: do medo, da desigualdade e da indiferença.
A verdadeira abolição ainda está por ser feita — e será obra do povo, quando a favela, o campo e o chão da fábrica marcharem juntos pela mesma liberdade que Zumbi sonhou.
novembro de 2025
Francisco Chagas
Cientista social e vice-presidente do PT Paulista
Ex deputado federal e vereador da cidade de São Paulo


