Francisco Chagas: O Império e a Guerra híbrida contra o Brasil


Em artigo passado, chamei atenção para o fato que nada é mais perigoso do que um império em decadência.

O esgotamento da guerra por procuração, (Ucrania/ OTAN x Rússia), O desastroso ataque de Israel contra o Irã, em meio ao genocídio em Gaza sem solução plausível, a afirmação da China como potência inconteste em qualquer critério que possa ser aplicado, a afirmação dos BRICS no caminho de uma nova ordem multipolar, esvaziamento do dólar como moeda universal por via do uso das transações em moedas locais, fazem dos EUA hoje uma potência em franco declínio e anunciam o fim da sua hegemonia e do mundo unipolar.

O declínio do império estadunidense em curto tempo histórico, desmente a tese de Fukuyama (filosofo e economista) para quem o fim da URSS e ascensão do império americano seria “O fim da história”. É claro que para Fukuyama os EUA seria uma referência global econômico-financeira, militar e moral. O fato é que o gigante do norte pode ser tudo, menos referência moral.

Ninguém melhor do que Noam Chomsky, filósofo estadunidense para cunhar críticas severas sobre seu país ao considerar que os EUA usam do seu poder militar para impor sua hegemonia, sendo a política de direitos humanos um instrumento para atacar aqueles que destoam e se desviam do seu controle. Assim ela é rigorosa contra regimes e governos que não se submetem aos seus ditames e absolutamente complacente com os aliados, de modo que a prática da tortura e do extermínio de opositores é amplamente utilizada por ditaduras mundo afora com o apoio ou o silêncio dos EUA.

“O apoio a democracia é a província dos ideólogos e propagandistas. No mundo real, a aversão que a elite sente pela democracia é a norma” (Noam Chomsky – Quem manda no mundo? – 2016). Assim a democracia só é apoiada se for capaz de contribuir para seus objetivos políticos e econômicos, e a liberdade é para roubar e saquear.

Os EUA não é uma democracia já há muito tempo, a Casa Branca e o Capitólio são dirigidos pelo Lobbe sionista de Israel. O bipartidarismo na verdade é um sistema de partido único, onde as elites americanas se juntam em apoio às corporações petroleiras, bancos, “big techs” e o complexo industrial militar. A verdade é que sob o governo Trump tudo isso fica explicito.

Trump e suas elites sabem que não é possível competir com a China em uma estratégia de reconversão industrial. A China compete pelas regras de mercado, tem uma população de 1,4 bilhões de pessoas, mão de obra altamente qualificada, um regime comprovadamente funcional, adequado a sua cultura milenar, um modelo de planejamento estratégico de médio e longo prazo com empresas que competem no mundo inteiro e seguem orientações do estado chinês. Acredito que para Trump e a elite americana a democracia é um entrave para competir no novo cenário mundial, assim a plutocracia estadunidense caminha em alta velocidade para autocracia.

O JOGO DE TUDO OU NADA DE TRUMP E LUTA PELA SOBERANIA DO BRASIL

Não vou me ater a análises psicológicas de Trump, para mim ele é o espelho de decadência dos EUA, e aqui no Brasil seria rapidamente definido no jargão policial como “meliante”.

Em artigos anteriores sobre as ameaças diretas e indiretas à nossa soberania procurei chamar a atenção do PT, das esquerdas e dos nacionalistas sobre os riscos que o país e nossa democracia enfrentam por viver “Deitado eternamente em berço esplêndido”.

Desde a guerra do Paraguai (1864 a 1870) o Brasil não se envolveu em um conflito armado em seu território, nem foi ameaçado por qualquer país vizinho. Não temos rivalidades significativas nas nossas fronteiras e nenhuma potência asiática, euroasiática ou europeia nos ameaçam. O maior risco à nossa soberania vem dos EUA e dos “quinta colunas” brasileiros que operam a seu serviço.

Precisamos lembrar do Plan Rubber (Plano Borracha da Marinha Americana 1940) para ocupar a costa do nordeste brasileiro pelos fuzileiros navais estadunidenses durante a Segunda Guerra Mundial caso as negociações sobre o uso do território de Natal/ RN para construção de base aérea de apoio logístico para as atividades militares na África não funcionassem. As negociações realizadas por Getúlio Vargas concluíram por uma ocupação pacífica e construção da base aérea de Parnamirim/RN. No final da Guerra, em 1945, a base passou a ser usada apenas pela Força Aérea Brasileira. Mas recentemente o governo Trump mencionou a retomada dessa base de Parnamirim e de Fernando de Noronha, que foi utilizada pelos EUA até 1960, após anunciar guerra comercial com taxa de 50% sobre os produtos brasileiros.

Não é novidade para ninguém sobre o uso da doutrina Monroe (América para os Americanos) para assegurar o controle da américa latina como seu quintal e reserva estratégica disponível. Por isso o apoio às ditaduras militares Latino americanas com golpes de Estado, que no caso brasileiro durou mais de 2 décadas e interrompeu a democracia no Brasil. Mesmo que hoje não seja o principal “Modus operandi” dos EUA, não está descartado, como podemos ver durante o governo Bolsonaro e nos episódios pós eleição de 2022, invasão da sede da PF em 12/12/22, tentativa de bomba no aeroporto de Brasília em 22/12/22, e do 08/01/23 com invasão das sedes dos 3 poderes.

Donald Trump ao taxar o Brasil declarou guerra: Uma guerra que já estava em andamento sem conhecimento do grande público. A grande vantagem é que agora ficou pública.

Os instrumentos mais utilizados nessa guerra híbrida são financiamentos e treinamento de “quintas colunas” infiltrados nas instituições civis e militares: Judiciário, legislativo, executivos, forças armadas, Grande Mídia, igrejas e ONGs. Também o financiamento de campanhas contra supostos eventos de corrupção, tráfico de drogas, desmatamentos, ameaça à liberdade, democracia associando essas mazelas à governos de esquerda / nacionalista, para desestabilizar suas lideranças e eleger ou empossar um fantoche que fará o serviço de entregar as riquezas naturais, industriais e tecnológicas, como foi o caso da Lava Jato para entregar a Petrobras e o Pré Sal para as Cias petrolíferas estrangeiras, destruindo a indústria naval e a engenharia brasileira.

OS DESAFIOS DA SOBERANIA BRASILEIRA

Sabemos que a soberania não é uma dádiva, e que precisa ser conquistada por qualquer nação que quiser ser soberana. Sabemos também que toda crise é uma oportunidade, como diz a velha sabedoria. Assim os riscos eminentes que vivenciamos em decorrência do cerco imposto pelo EUA deve ser aproveitado para promover e afirmar a soberania brasileira.

O governo do Presidente Lula está atuando de forma exemplar diante das pressões do governo estadunidense que busca humilhar o Brasil para mostrar a América Latina e ao mundo quem manda. América Latina, que sempre foi considerada o quintal do império, hoje tem parcerias econômicas significativas com a China, e os EUA não tem como recuperar esse espaço econômico – o que levará a uma escalada de tensões na região que são considerados por eles os últimos redutos do império. Não abrirão mão desse patrimônio que é fundamental para sua existência imperial.

O império precisa de energia, minerais, terras raras, água doce, e recursos inexplorados da nossa abundante biodiversidade, e não vai renunciar isso sem lutar. Por isso mobilizaram a frota do Atlântico Sul, e navios de guerra para a Venezuela. Ele irá até as últimas consequências para assegurar seus interesses, e para comprovar isso não faltam exemplos históricos.

A única saída para não ter uma guerra quente seria os EUA tratar os países da América Latina como parceiros, mas isso vai contra a ideia de Império.

13 PONTOS PARA RESISTIR E FORTALECER A SOBERANIA

1. Construir um projeto de Brasil e unir o povo através de um programa de desenvolvimento e justiça social;
2. Denunciar as ações dos traidores da pátria e levar à justiça todos que estiveram e estão em missão de sabotagem da economia, democracia e soberania brasileira – seja nas instituições de estado ou da sociedade civil;
3. Construir uma ampla aliança das esquerdas – dos democratas progressistas e nacionalistas – a fim de construir um programa para as eleições de 2026;
4. Intensificar a diversificação das nossas relações comerciais com os BRICS e o Sul Global para reduzir a dependência dos EUA;
5. Cessar a cooperação militar submissa à doutrina, equipamentos, insumos e tecnologias estadunidenses e investimento em tecnologia nacional de defesa.
6. Reformular a nossa estratégia de defesa e tornar a defesa nacional uma política pública aberta ao debate da sociedade brasileira;
7.Regulamentar o uso das redes sociais e iniciar a construção de plataformas nacionais para impedir as constantes investidas das Big Techs em desestabilização da soberania nacional;
8. Resgatar do controle de empresas estrangeiras, o monitoramento das nossas fronteiras e da Amazônia, e o armazenamento dos dados da segurança nacional;
9. Acelerar o nosso programa aeroespacial em cooperação com os nossos vizinhos com foco no desenvolvimento de defesa do continente Sul-Americano;
10. Condenar toda e qualquer tentativa de intervenção aos nossos vizinhos latino-americanos, sob pretexto de combater o narcotráfico, desmatamento, corrupção, terrorismo ou quaisquer outros artifícios usados pelo imperialismo para destituir governos, empossar títeres e se apossar das riquezas das nações;
11. Denunciar tratados que limitam a nossa soberania, como a que limita o enriquecimento de urânio;
12. Buscar cooperação tecnológica na área militar com China, Índia e Rússia de modo a não ficar dependente dos países da OTAN;
13. Romper as relações com Israel em função das atrocidades do holocausto palestino.


SP Agosto de 2025


Francisco Chagas
Cientista social – Vice-presidente do PT/SP – Foi Deputado Federal e Vereador da cidade de São Paulo

Posts recentes:

Acessar o conteúdo